Sabesp estaria pagando influenciadores para recuperar a imagem durante crise hídrica
Sabesp estaria pagando influenciadores para recuperar a imagem durante crise hídrica

Sabesp estaria pagando influenciadores para recuperar a imagem durante crise hídrica
Carlos Ratton
22.01.2026
Fotos: Tony Valentte/Sabesp/Agência Brasil – EBC/Divulgação
Uma iniciativa empresarial que poderá ser bastante utilizada nas campanhas eleitorais deste ano. A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) estaria pagando influenciadores digitais para recuperar o desgaste de sua imagem institucional pós crise hídrica que atingiu, e ainda atinge, todo o Estado de São Paulo, principalmente entre dezembro do ano passado e começo de janeiro deste ano.

A informação acima foi repassada para equipe dos Inconfidentes que, após levantar alguns perfis no Instagram, acabou constando um movimento incomum em contas populares de influenciadores – alguns até então críticos à atuação da empresa – destacando as vantagens da privatização e a eficiência da empresa.
Uma dona de casa e influenciadora da Zona Sul de São Paulo, por exemplo, salienta que a Sabesp está trabalhando e levando saúde e dignidade para famílias. Usou até a logomarca da empresa, dizendo que ela é parceira da família.
Outro influenciador e líder comunitário falando sobre regularização de saneamento básico no bairro de Sapé, em Taboão da Serra e outra ressaltando o trabalho da empresa na Temporada de Verão na aixada Santista, ressaltando a necessidade de diminuir consumo e mostrando os benefícios da gestão privada.
Também influenciadores enaltecendo saneamento no bairro Savoy na Zona Leste de São Paulo, outro destacando a crise climática e do compromisso da empresa em investimentos, obra e dignidade às pessoas, uma enaltecendo o espaço da Sabesp na Cop 30 e até um outro, também do litoral, tentando mostrar para os turistas que água escura – conhecida como língua negra - que chega às praias não seria esgoto, mas águas pluviais. “A Sabesp me explicou tudo”, disse ele no vídeo.

Influencer afirma que a chamada Língua Negra, que é vista em praias como a de Mongaguá, não é esgoto.
Sindicato
A percepção dos seguidores repassada aos Inconfidentes foi confirmada pelo Sindicato dos Urbanitários (Sintius), legítimo representante dos trabalhadores da Sabesp da Baixada Santista e do Vale do Ribeira que, esta semana, manifestou repúdio à estratégia adotada pela atual gestão da empresa diante da grave crise de desabastecimento que castiga a região desde o final de dezembro.
O Sintius acompanha com perplexidade a decisão da companhia de contratar influenciadores digitais para tentar "amenizar" nas redes sociais um problema que é sentido de forma dramática pela população.
Para o presidente, Tanivaldo Monteiro Dantas (foto), a tentativa de pautar a opinião pública através de "likes" é uma afronta ao cidadão. "Respeitamos o trabalho dos comunicadores, mas ressaltamos que o problema da falta d’água não é de narrativa, é de infraestrutura e operação. É vergonhoso que, enquanto moradores ficaram com as torneiras secas por dias, os recursos da Sabesp sejam desviados para campanhas de marketing que tentam maquiar o sucateamento do serviço", afirmou.

Tanivaldo Dantas
Para a Diretoria do Sindicato, essa estratégia de comunicação tenta esconder um problema ainda mais profundo: o enfraquecimento do braço operacional da empresa. Segundo o Sintius, o colapso no abastecimento não pode ser justificado apenas pela demanda sazonal de turistas, mas pela redução drástica do quadro técnico após a privatização. A maioria dos profissionais tinha décadas de experiência e conhecimento específico da rede da Baixada Santista. A ausência deles deixou o sistema vulnerável e sem capacidade de resposta rápida.
"Os inúmeros alertas feitos pelo Sintius e ignorados pela classe política se materializaram agora. A perda do controle público trouxe resultado uma gestão que prioriza o lucro e os dividendos em detrimento da eficiência. Esse cenário provocou prejuízos incalculáveis à economia, ao comércio e ao turismo regional por pura incapacidade de gestão", justificou o sindicalista.
Diante desse cenário, o Sintius não apenas denuncia o descaso, como se coloca à disposição da Assembleia Legislativa e das câmaras municipais para subsidiar as investigações sobre as constantes falhas no serviço ofertado, que atingiram o ápice nas últimas semanas. É urgente apurar o porquê, sob a nova gestão, o investimento em publicidade parece ser a única "obra" entregue com agilidade, enquanto o direito básico ao acesso à água é negligenciado.
Sabesp
Os Inconfidentes foram atrás da Sabesp em busca de informações sobre a iniciativa de marketing via influenciadores (as) digitais. Entre os questionamentos, quanto a empresa estaria desembolsando para mantê-los realizando uma espécie de campanha institucional travestida de opinião. A empresa não mostrou valores, mas praticamente confirmou o uso de influenciadores como alternativa publicitária.
“A Sabesp tem o dever de informar seus públicos de forma clara, acessível e em linguagem adequada aos diferentes perfis de consumidores. Para isso, utiliza múltiplos formatos e canais que fazem parte de uma estratégia moderna e eficiente de comunicação, especialmente em períodos de maior demanda, como a temporada de verão”.
Ainda segundo explica, a Sabesp tem como diretriz uma comunicação clara e transparente, conteúdos de serviço aos clientes e voltados ao interesse coletivo, já que os benefícios do saneamento atendem não apenas a quem é atendido diretamente pela empresa, mas a toda a sociedade.
Coincidência com Tarcísio
Os Inconfidentes levantou que a equipe da Revista Piauí também percebeu uma mudança de postura de alguns influenciadores que, de forma repentina, começaram a destacar ações do governador bolsonarista de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos - foto). Segundo reportagem, com um tom invariavelmente de idolatria e até uma provável estratégia de promoção velada, possivelmente ilegal, sobretudo tendo em vista a chegada de um ano eleitoral.

Governador Tarcísio de Freitas
A reportagem da Piauí destaca como perfis com audiências massivas, alguns ultrapassando dezenas de milhões de seguidores, inseriram conteúdos sobre o governo paulista em meio a postagens leves sobre dietas de famosas, viagens luxuosas e desentendimentos amorosos.
Segundo a publicação, um perfil com mais de 25 milhões de seguidores publicou, em 19 de dezembro, uma notícia sobre a isenção de IPVA para motos de baixa cilindrada, ilustrada com imagens do governador e um depoimento anônimo de um entregador, tudo embalado em uma narrativa entusiástica.
No dia seguinte, a mesma conta compartilhou um vídeo de Tarcísio criticando supostas práticas corruptas e atacando o governo federal, contrastando com o restante do feed dedicado a fofocas cotidianas.
Outros perfis seguiram o padrão. Na reportagem da Piauí é possível notar que esses posts, concentrados em dezembro, giravam em torno de quatro eixos principais: a isenção de IPVA para motos, a entrega do Rodoanel, demandas por melhorias no fornecimento de energia e supostos esforços contra o feminicídio que, por sinal, é um dos pontos frágeis do governo paulista.
O governo de São Paulo, questionado pela Piauí, negou qualquer envolvimento, afirmando que suas campanhas são institucionais e transparentes, sem investimentos nas publicações citadas. O partido Republicanos, ao qual Tarcísio é filiado, também diz desconhecer a operação.
Especialistas consultados pela Piauí apontaram para potenciais irregularidades: o uso de recursos públicos para autopromoção viola a Lei de Improbidade Administrativa, enquanto posts pagos sem identificação clara como publicidade ferem o Código de Defesa do Consumidor.
A Reportagem informa que a onda de elogios inesperados em canais de entretenimento levanta questões sobre a fronteira entre informação orgânica e marketing disfarçado, especialmente em um estado como São Paulo, onde o governador busca consolidar sua imagem de “gestor eficiente”.

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