A alienação de classe nas urnas de Sinop: trabalho precarizado, concentração da riqueza e poder ideológico

Por Cristianotorres1977
26.10.2026
Foto: Montagem IA
Existe uma contradição social que merece ser examinada em Sinop, no norte de Mato Grosso: como uma população composta majoritariamente por pessoas que dependem do próprio trabalho para sobreviver pode apresentar uma votação tão expressiva em favor de um campo político associado a setores economicamente dominantes? A questão não se resolve pela simples identificação dos candidatos escolhidos nas urnas. É necessário compreender as condições materiais de existência da população, a concentração da propriedade, a precarização das relações de trabalho e os mecanismos ideológicos que participam da formação da consciência social.
No primeiro turno das eleições presidenciais de 2026, Flávio Bolsonaro recebeu 73.701 votos em Sinop, correspondentes a 76,66% dos votos válidos. Lula obteve 17.568 votos, equivalentes a 18,27%. Trata-se de um resultado eleitoral expressivo, cuja dimensão ganha relevância quando observado em relação à estrutura econômica do município. Os números oficiais divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral, repercutidos pelo UOL, permitem dimensionar a votação, mas sua interpretação exige que se olhe para além das urnas.
Fonte: UOL, apuração eleitoral de Sinop
https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/10/04/resultado-presidente-sinop-mt.ghtm
Sinop é atravessada pela força econômica do agronegócio, pela expansão imobiliária, pelo comércio e pela prestação de serviços. Entretanto, a presença de grandes empresas, propriedades rurais e capitais elevados não significa que a riqueza produzida esteja distribuída entre os habitantes na mesma proporção. A existência de uma economia pujante não elimina a desigualdade entre aqueles que controlam os meios de produção e aqueles que dependem da venda de sua força de trabalho para pagar aluguel, alimentação, transporte, água, energia e demais despesas cotidianas.
Essa diferença aparece também quando observamos os registros empresariais. Em outubro de 2026, Sinop contabilizava 38.734 estabelecimentos ativos na base do Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica. Desse total, 20.268 estavam enquadrados como microempreendedores individuais, aproximadamente 52,3%. São números que, isoladamente, poderiam alimentar a impressão de que o município é formado por uma extensa camada de empresários. Mas essa leitura confunde formalização jurídica com posição de classe.
Um trabalhador que perde o emprego com carteira assinada e passa a realizar serviços por conta própria pode abrir um MEI para continuar obtendo renda. Um pedreiro, um entregador, um motorista de aplicativo, um vendedor ambulante ou um prestador de serviços não passa automaticamente a integrar a burguesia porque possui um CNPJ. Seu registro empresarial não lhe garante patrimônio acumulado, estabilidade financeira, empregados, poder de mercado ou autonomia diante das necessidades imediatas da sobrevivência. Em muitos casos, a formalização apenas dá uma aparência empresarial a uma atividade que continua dependendo diretamente do esforço físico, do tempo e da capacidade de trabalho de uma única pessoa.
A pesquisa Perfil do MEI 2026, do Sebrae, oferece um dado importante para compreender essa realidade: 56,9% dos microempreendedores individuais pesquisados haviam trabalhado com carteira assinada antes de se registrarem como MEI. O levantamento também aponta que, entre os motivos para encerrar definitivamente um negócio, 27,9% mencionaram que a atividade não dava dinheiro, 21,5% citaram a falta de recursos e 20% apontaram a ausência de clientes. Esses dados nacionais não descrevem automaticamente cada trabalhador de Sinop, mas evidenciam que a categoria empresarial abriga trajetórias marcadas pela transição entre o emprego formal e o trabalho por conta própria, além de dificuldades concretas para sustentar a atividade econômica.
Fonte: Sebrae, Pesquisa Perfil do MEI 2026
https://sebraepr.com.br/impulsiona/relatorio-da-pesquisa-perfil-do-mei-2026/
É necessário, portanto, distinguir o trabalhador que abre um pequeno negócio para sobreviver do proprietário que controla grandes volumes de capital. O primeiro pode trabalhar diariamente sem saber quanto conseguirá faturar no mês seguinte. O segundo pode dispor de patrimônio, ativos, participação societária e rendimentos que não dependem exclusivamente de sua presença cotidiana no processo de trabalho. Ambos podem aparecer nas estatísticas empresariais, mas não ocupam necessariamente a mesma posição nas relações de produção.
O ranking de empresas por capital social declarado em Sinop torna visível a escala dos capitais envolvidos em determinados empreendimentos. A base consultada em outubro de 2026 apresenta, entre outros registros, a JOL Investimentos e Participações, com capital social declarado de aproximadamente R$ 6,11 bilhões; a Inpasa Agroindustrial, com R$ 5,85 bilhões; e a Companhia Energética Sinop, com R$ 1,30 bilhão. Capital social não equivale ao patrimônio pessoal dos proprietários, ao faturamento ou ao lucro dessas empresas. Ainda assim, os valores evidenciam a diferença de escala entre determinadas organizações empresariais e o trabalhador autônomo que depende da própria força de trabalho para gerar renda.
Fonte: ranking empresarial de Sinop, com base cadastral da Receita Federal
https://cnpj.biz/empresas/sinop-mt/maiores
É nesse contexto que a votação de 2026 adquire significado sociológico. A questão não é presumir que cada trabalhador tenha necessariamente de votar de acordo com uma interpretação predeterminada de seus interesses econômicos. A questão é compreender como se forma uma consciência política capaz de reconhecer ou deixar de reconhecer as contradições entre as condições materiais de vida e os projetos políticos aos quais se adere.
A ALIENAÇÃO E A PRODUÇÃO DA CONSCIÊNCIA SOCIAL
A alienação de classe não deve ser entendida como uma deficiência intelectual natural dos trabalhadores. Trata-se de um processo social e histórico, relacionado às condições em que as pessoas trabalham, recebem informações, interpretam sua realidade e constroem suas referências de pertencimento. A precarização da vida, a desigualdade educacional, o racismo estrutural e a dependência econômica integram esse quadro, embora seus efeitos não sejam idênticos para todos os indivíduos.
Na tradição marxista, a ideologia pode contribuir para que as relações sociais historicamente produzidas sejam percebidas como naturais, inevitáveis ou independentes da ação humana. A desigualdade deixa de aparecer como resultado de relações concretas de propriedade e poder e passa a ser explicada exclusivamente pelo mérito individual, pela falta de esforço ou pela suposta incapacidade de quem ocupa as posições inferiores da estrutura social.
Nesse processo, os interesses particulares dos grupos dominantes podem ser apresentados como se fossem interesses universais. A defesa de determinadas hierarquias econômicas passa a ser associada à defesa da liberdade, da família, da fé, da ordem e da moralidade. O trabalhador, por sua vez, pode identificar-se com essas representações sem que essa identificação decorra de uma avaliação das consequências materiais das políticas defendidas pelos grupos aos quais oferece apoio.
É nesse ponto que a discussão sobre alienação se torna relevante para compreender a política eleitoral. Não basta saber quanto uma pessoa ganha ou qual é sua ocupação. É preciso investigar como ela interpreta a própria condição, a quem atribui a responsabilidade pelas dificuldades que enfrenta, quais grupos considera legítimos para governar e quais discursos mobilizam sua confiança, seu medo, sua esperança ou sua indignação.
A contradição não está simplesmente no fato de uma pessoa pobre votar em determinado candidato. Está na possibilidade de que a interpretação que ela constrói sobre a sociedade obscureça as relações de exploração que condicionam sua própria existência. A alienação, nessa perspectiva, diz respeito à dificuldade de compreender as determinações sociais que ultrapassam a experiência individual e vinculam a precariedade de cada trabalhador à organização mais ampla da economia e do poder.
RELIGIÃO, PERTENCIMENTO E INFLUÊNCIA POLÍTICA
A presença religiosa constitui outra dimensão relevante dessa análise. Igrejas e comunidades religiosas podem oferecer redes de solidariedade, acolhimento e apoio material, especialmente em contextos de vulnerabilidade. Ao mesmo tempo, determinadas lideranças e organizações religiosas podem atuar na disputa política, enquadrando questões sociais e eleitorais por meio de interpretações morais, narrativas sobre inimigos e discursos que associam determinadas candidaturas à proteção da família, da fé ou da ordem social.
O Censo Demográfico de 2022, divulgado pelo IBGE em 2025, mostrou que 26,9% da população brasileira com dez anos ou mais se declarava evangélica, ante 21,6% em 2010. A expansão desse segmento tornou sua presença social e política um elemento importante da vida pública brasileira. Isso não significa que todos os evangélicos pensem da mesma maneira ou votem de forma homogênea. Significa que a religião constitui um campo social de grande relevância, no qual diferentes lideranças, instituições e interpretações disputam a compreensão dos acontecimentos políticos.
Fonte: Agência Brasil, com dados do IBGE
Uma pesquisa Datafolha realizada em outubro de 2022 constatou que 16% dos eleitores evangélicos entrevistados disseram ter recebido de pastores orientação para votar em Jair Bolsonaro no segundo turno daquele ano. Outros 79% afirmaram não ter recebido essa orientação. O resultado mostra que a atuação política de lideranças religiosas é uma realidade observável, mas também impede que se atribua mecanicamente o voto de todo um grupo religioso à determinação de seus pastores.
Fonte: Folha de S.Paulo, pesquisa Datafolha de 2022
A análise sociológica precisa considerar como a autoridade religiosa pode interferir na interpretação da realidade social quando determinadas mensagens apresentam conflitos políticos como uma luta entre o bem e o mal, transformam adversários em ameaças morais ou deslocam a atenção das condições materiais de vida para a vigilância dos comportamentos individuais. Quando isso ocorre, questões como salários, direitos trabalhistas, jornada de trabalho, acesso à saúde, educação pública e proteção social podem perder centralidade diante de conflitos apresentados como prioritariamente morais ou religiosos.
Não se trata de afirmar que a fé conduz necessariamente à alienação. O problema aparece quando instituições, discursos e lideranças utilizam sua autoridade para restringir a reflexão crítica, produzir obediência política ou legitimar relações sociais desiguais. A religião pode ser espaço de solidariedade e resistência, mas também pode ser mobilizada para conservar hierarquias. É necessário examinar quais práticas, discursos e interesses estão em jogo em cada contexto.
A CONTRADIÇÃO ENTRE A VIDA MATERIAL E O ALINHAMENTO ELEITORAL
Em uma cidade como Sinop, na qual a economia está profundamente relacionada ao agronegócio e à circulação de grandes capitais, o contraste entre a concentração da riqueza e a ampla presença de trabalhadores abre uma questão fundamental: como se constrói a identificação política de pessoas que não ocupam a mesma posição econômica dos grandes proprietários?
A resposta não pode ser reduzida à renda, à religião ou à escolaridade consideradas isoladamente. A formação da consciência política envolve relações familiares, redes de sociabilidade, ambientes de trabalho, meios de comunicação, plataformas digitais, lideranças religiosas e experiências concretas com o Estado. Esses fatores podem reforçar-se mutuamente e produzir interpretações da realidade que nem sempre correspondem à posição ocupada pelo indivíduo na estrutura econômica.
A alienação de classe torna-se particularmente relevante quando o trabalhador passa a interpretar problemas coletivos como fracassos exclusivamente individuais, responsabiliza outros grupos socialmente vulneráveis por suas dificuldades ou defende medidas que podem enfraquecer mecanismos dos quais depende sua própria proteção social. A ideologia atua, nesse caso, não apenas ocultando a desigualdade, mas organizando a maneira pela qual ela é percebida e explicada.
O resultado eleitoral de Sinop não prova, por si só, que seus eleitores estejam alienados. Entretanto, a votação expressiva, a estrutura econômica local e a presença de uma ampla base de pequenos negócios constituem elementos que permitem formular uma investigação sobre a relação entre classe, ideologia e comportamento político. Para avançar nessa análise, é preciso relacionar os dados eleitorais à distribuição da renda, às condições de trabalho, à concentração patrimonial e às formas de influência política presentes no município.
O ponto central é compreender que a condição de trabalhador não produz automaticamente consciência de classe. A experiência da exploração pode ser interpretada de diferentes maneiras, e a precariedade não conduz necessariamente à organização coletiva ou à contestação das estruturas econômicas. Em determinadas circunstâncias, a insegurança pode alimentar a solidariedade entre trabalhadores; em outras, pode intensificar a competição individual, o ressentimento e a adesão a discursos que atribuem a crise social a grupos considerados responsáveis por ameaçar a ordem existente.
A tarefa crítica consiste em investigar como essas interpretações são produzidas, quem dispõe dos meios para difundi-las e quais interesses são favorecidos quando a população deixa de reconhecer as relações sociais que organizam sua própria existência.
Em Sinop, a expressiva votação presidencial de 2026 oferece um ponto de partida concreto para essa reflexão. A presença de grandes capitais não transforma todos os habitantes em proprietários; a abertura de um MEI não elimina a dependência do trabalho; e a adesão religiosa não determina, por si só, uma orientação política. O que precisa ser compreendido é a articulação entre essas dimensões e o modo como participam da formação da consciência social.
A contradição de classe não desaparece porque o trabalhador se identifica politicamente com setores economicamente dominantes. Ela pode, inclusive, tornar-se mais difícil de reconhecer quando a identificação ideológica substitui a análise das condições materiais. É precisamente nesse terreno que a crítica da alienação encontra sua relevância: não para atribuir uma incapacidade natural às pessoas submetidas à exploração, mas para compreender os mecanismos históricos que dificultam a transformação da experiência individual em consciência crítica das relações de poder.

Cristiano Torres é professor especialista, pesquisador CAPES, mestrando em Letras e analista crítico das desigualdades sociais.

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