A Anatomia do Favor: O Capital Político da Precarização em Santos

​Por CristianoTorres1977

A Anatomia do Favor: O Capital Político da Precarização em Santos

​Por CristianoTorres1977

12.03.2026

Enquanto as cifras de milhões de reais em RPAs assombram os portais de transparência e mobilizam o Ministério Público, uma investigação ainda mais urgente se impõe sobre a alma da cidade: por que aceitamos a normalização do favor em detrimento da cidadania? O que se descortina em Santos não é apenas um erro administrativo, mas uma engrenagem de dominação que transmuta a necessidade do trabalhador em moeda de troca eleitoral, consolidando uma forma contemporânea de servidão sob o verniz da gestão pública.

​Se a sociedade santista não fosse conivente, a cidade estaria nas ruas, estaria diante do Ministério Público exigindo investigação, estaria pressionando instituições de controle, estaria organizando protestos e panelaços contra aquilo que as denúncias recentes sugerem como um possível sistema de favorecimentos públicos envolvendo supostos criminosos do colarinho branco. No entanto, o que se observa não é mobilização coletiva, mas um silêncio conveniente que se repete sempre que estruturas de poder operam via habitus de dominação, onde o capital simbólico passa a ser distribuído por meio de favores, dependências e benefícios seletivos. O problema não se resume à suspeita de irregularidades administrativas, tampouco se limita às investigações que agora começam a surgir em torno de pagamentos realizados por meio de Recibo de Pagamento Autônomo, prática que, segundo denúncias, teria movimentado milhões de reais em contratações sem concurso ao longo de anos. O problema mais profundo é o ambiente social, essa morfologia da apatia, que permite que mecanismos desse tipo prosperem sem uma reação proporcional da própria sociedade.

​Quando cargos de confiança, contratações precárias e serviços apresentados como eventuais passam a circular de forma contínua dentro da administração pública, cria-se inevitavelmente uma rede de dependências que ultrapassa os limites da burocracia estatal e alcança o tecido social. Associações de bairro, pequenos grupos organizados e lideranças comunitárias passam a receber benefícios, repasses ou facilidades administrativas que, ainda que muitas vezes apresentados como apoio institucional, acabam criando vínculos de lealdade política, funcionando como um equipamento retórico de identificação entre o dominador e o assistido. Esses vínculos não permanecem restritos às entidades. Eles se expandem para famílias, amigos, parentes e conhecidos que passam a integrar, direta ou indiretamente, circuitos de favorecimento sustentados por recursos públicos. Assim se forma uma estrutura silenciosa na qual benefícios materiais produzem gratidão política, gratidão política produz silêncio social e o silêncio social enfraquece a fiscalização coletiva que deveria existir em qualquer democracia, revelando a objetividade da ficção burocrática que mascara o uso privado da coisa pública.

As denúncias que vieram a público ao mencionar pagamentos realizados a centenas de pessoas ao longo de anos, envolvendo milhões de reais, levantam uma questão que ultrapassa o campo administrativo e alcança o campo político e social. Sempre que recursos públicos passam a circular por redes informais de contratação e dependência, cria-se também um mecanismo de fidelização política. O indivíduo beneficiado tende a proteger quem garante a continuidade do benefício. A associação que recebe apoio tende a defender quem mantém o repasse. A família que depende de uma contratação tende a preservar o grupo político que sustenta aquela estrutura. Pouco a pouco, o espaço da cidadania é substituído por um sistema de conveniências no qual o favor público passa a ocupar o lugar do direito coletivo, consolidando o que se pode chamar de fetichismo da mercadoria política, onde o direito é transmutado em favor.

​É nesse momento que surge aquilo que historicamente se conhece como curral eleitoral. Ele não nasce apenas durante campanhas, nem se constrói apenas por discursos políticos. Ele se forma lentamente, ao longo dos anos, quando benefícios seletivos passam a circular entre redes sociais específicas e produzem relações de dependência que transformam recursos públicos em capital político acumulado.

O bairro passa a votar em quem garante a continuidade dos favores. A associação passa a apoiar quem assegura os repasses.

A família passa a reproduzir o alinhamento político que protege seus interesses imediatos.

O voto deixa de ser expressão de escolha cidadã e passa a funcionar como parte de um sistema de reciprocidade informal no qual apoio político é trocado pela manutenção de vantagens administrativas, em uma encenação estilística da democracia que esconde a rigidez da dominação.

Há ainda um aspecto estrutural desse problema que raramente é discutido com a seriedade necessária. Quando a administração pública substitui concursos por contratações precárias, quando terceiriza e, muitas vezes, terceiriza a própria terceirização, inicia-se um processo de destruição da infraestrutura burocrática estável,  um sucateamento silencioso da máquina pública. O serviço público deixa de ser estruturado por servidores concursados, selecionados por critérios técnicos e legais, e passa a depender de vínculos frágeis, temporários e frequentemente subordinados a relações políticas. Essa lógica produz um efeito perverso. Ao mesmo tempo em que cria dependência política, também desorganiza o funcionamento institucional do próprio Estado, reduzindo o trabalhador a uma mera peça descartável na engrenagem de acumulação política.

Sem concursos públicos regulares, instala-se uma defasagem funcional permanente. Faltam profissionais em áreas essenciais, faltam equipes estruturadas para atender à população, faltam servidores preparados para garantir continuidade administrativa. A sociedade passa a experimentar carência de serviços e, paradoxalmente, carência de contratações estáveis. Surge então o discurso da urgência, da contratação emergencial, da necessidade imediata. Mas emergências permanentes deixam de ser exceção e passam a ser método. A máquina pública permanece sempre incompleta, sempre carente, sempre justificando novos contratos temporários que mantêm ativo o mesmo circuito de dependência, operando sob a lógica do capital que precariza para controlar.

Nesse cenário, surge uma pergunta inevitável. Se milhões de reais circulam em contratações precárias ao longo dos anos, por que não se investe esses recursos na realização de concursos públicos e na valorização do servidor efetivo? Por que não fortalecer uma estrutura administrativa baseada em estabilidade, qualificação e responsabilidade institucional? Quando o dinheiro que poderia estruturar o serviço público é canalizado para vínculos temporários e instáveis, instala-se também uma desvalorização progressiva da própria mão de obra. Profissões que exigem qualificação técnica passam a ser substituídas por relações de trabalho frágeis, mal remuneradas e frequentemente dependentes de favores políticos, revelando a face burguesa da gestão que explora a necessidade.

Esse processo não desmerece nenhum trabalhador que aceite essas condições, pois muitos o fazem por necessidade legítima de sobrevivência. No entanto, o sistema que cria essas condições produz uma forma contemporânea de escravidão moderna e precarização absoluta, que aproxima o trabalho de uma lógica de exploração onde a dignidade é sequestrada pela incerteza. A mão de obra torna-se barata, substituível e dependente. O trabalhador passa a temer perder a oportunidade que possui, ainda que ela seja precária, porque sabe que sua permanência não depende apenas de competência, mas também da manutenção de uma relação política que sustente sua posição, configurando uma expropriação da autonomia subjetiva.

Assim, o mesmo mecanismo que produz curral eleitoral também produz precarização do trabalho. Benefícios seletivos geram dependência política e contratos frágeis geram submissão econômica. A consequência é dupla. De um lado, a cidadania enfraquece porque parte da sociedade passa a depender de favores públicos. De outro, o serviço público enfraquece porque deixa de se estruturar em torno de servidores concursados, valorizados e protegidos por critérios institucionais, resultando na alienação do agente público em relação à sua função social.

Uma cidade com mais de quatrocentos mil habitantes, que aspira padrões elevados de desenvolvimento urbano e institucional, não pode se sustentar sobre estruturas administrativas improvisadas, dependentes de vínculos frágeis e expostas a suspeitas recorrentes de favorecimento político. Sociedades que desejam alcançar níveis elevados de organização institucional fortalecem seus serviços públicos por meio de concursos, planejamento administrativo e valorização do servidor. Quando o caminho adotado é o da precarização contínua, o resultado inevitável é a fragilização do Estado e a multiplicação de estruturas paralelas que substituem o direito público por relações privadas de conveniência, em uma estética da mediocridade institucional.

Por isso, o verdadeiro problema não se resume às investigações que agora podem ocorrer nas esferas estadual, trabalhista ou eleitoral. Investigações são necessárias e devem seguir seu curso dentro da legalidade e do devido processo. O problema mais profundo é compreender por que estruturas baseadas em favores e dependências encontram terreno fértil para se consolidar ao longo de anos sem que haja reação proporcional da sociedade. Enquanto benefícios seletivos continuarem substituindo direitos coletivos, enquanto cargos e contratos continuarem funcionando como instrumentos de fidelização política e enquanto redes sociais continuarem sendo mobilizadas para preservar estruturas de poder, a própria democracia local permanecerá vulnerável a práticas que transformam o interesse público em moeda de troca e mais-valia eleitoral.

Uma cidade que aceita a normalização desse sistema deixa de exercer plenamente sua cidadania. Quando o favor substitui o direito, quando a dependência substitui a autonomia e quando a conveniência substitui a indignação, o poder deixa de ser fiscalizado pela sociedade e passa a ser protegido por ela. Nesse momento, a conivência deixa de ser apenas silêncio e passa a se tornar um dos pilares invisíveis que sustentam a permanência de qualquer estrutura política que dependa da reprodução social da desigualdade e da troca permanente entre benefício, lealdade e voto.

Cristiano Torres é professor especialista, pesquisador CAPES, mestrando em Letras e analista crítico das desigualdades sociais

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