A cidade e o tempo livre: Realejo Livros consolida-se como Território Antirracista na luta por pertencimento e ocupação das mulheres negras

Por Cidinha Santos
03.09.2026
Foto: Divulgação
A invisibilidade e a ausência de mulheres negras em determinados territórios das cidades — seja nas mesas de debate, nos lançamentos literários, nos cafés de centros urbanos ou nos equipamentos de cultura — não ocorrem por mero acaso ou desinteresse. Trata-se de um sintoma direto das estruturas de raça e classe que organizam o espaço urbano.
Para a mulher negra, a experiência da cidade é atravessada pela arquitetura de restrições. A tripla jornada de trabalho, o peso do trabalho de cuidado não remunerado — a dedicação contínua à casa, aos filhos e aos parentes — e os extensos deslocamentos entre as periferias e as áreas centrais consomem o tempo que deveria ser destinado ao lazer, ao debate público e à vivência cultural. O tempo, afinal, é um recurso político e social distribuído de forma profundamente desigual.
Quando a sobrecarga de tarefas e a segregação territorial limitam a presença, os espaços de convivência da cidade acabam funcionando como ilhas de privilégio, reproduzindo essa exclusão que é tanto material quanto simbólica.
Nesse cenário, equipamentos culturais e estabelecimentos como livrarias ocupam um papel estratégico. A Realejo Livros, por sugestão do Coletivo Feminista Classista Antirracista Maria vai com as Outras, deu um passo concreto nesse sentido ao se firmar como Território Antirracista, unindo-se aos mais de 100 estabelecimentos engajados nessa rede em todo o estado de São Paulo. A iniciativa é amparada pela Lei Estadual nº 18.427/2026, de autoria da deputada estadual Ediane Maria, que estabelece o Protocolo Antirracista em estabelecimentos comerciais.
Com essa adesão, a livraria assume o compromisso público e institucional de assegurar acolhimento imediato e discreto, acionamento rápido das autoridades e preservação de provas e evidências em qualquer situação de violência racial.
Para ir além da conformidade legal e atuar como um agente real de democratização e segurança no espaço urbano, o estabelecimento adota e incentiva medidas concretas frente às barreiras cotidianas:
• Inclusão da maternidade e do cuidado: garantir espaço de acolhimento e atividades infantis ou de contação de histórias durante rodas de conversa e lançamentos. Permitir que mães e cuidadoras participem ativamente sabendo que suas crianças estão seguras e integradas ao ambiente.
• Curadoria permanente e plural: superar o apelo pontual de datas comemorativas e manter visibilidade contínua para o pensamento, a literatura e a produção acadêmica de autoras negras nas vitrines, feiras e mesas centrais.
• Centralidade nas programações: convidar mulheres negras como mediadoras, palestrantes e curadoras permanentes, pautando discussões que vão da literatura à política, da economia à teoria crítica.
• Abertura a coletivos e movimentos sociais: ceder o espaço físico para encontros de coletivos feministas, antirracistas, projetos de educação popular e lançamentos de autoras independentes, fortalecendo as redes locais de resistência e produção cultural.
• Acessibilidade econômica e horários viáveis: promover eventos gratuitos em horários compatíveis com a rotina de quem trabalha e estuda, além de facilitar o acesso a livros por meio de feiras e parcerias com editoras independentes.
Onde o tempo é escasso e as barreiras são históricas, transformar uma livraria em um verdadeiro território antirracista, protegido e acolhedor, é um passo fundamental para democratizar o acesso à cidade e garantir que todas as vozes ocupem os espaços que lhes são de direito.

Cidinha Santos é jornalista, assessora de comunicação do Coletivo Feminista Classista Maria vai com as Outras e dos movimentos sociais, Promotora Legal Popular e membra da Frente pela Legalização do Aborto, Baixada Santista e cantante do Grupo Vozes

Comentários dos leitores
Carregando comentários…