A conta da privatização chegou à Baixada. E não foi por falta de aviso
Os Inconfidentes fizeram inúmeras reportagens cobrando o Governo Tarcísio e os parlamentares da região. Mas precisou morrer uma criança para a crise ser anunciada em Guarujá

Carlos Ratton
06.08.2026
Fotos: Prefeitura de Guarujá/Divulgação/ Alesp/Facebook/Agência SP
No início tudo era festa, com direito a boas marteladas e muito marketing pelo governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos). Os também não deputados estaduais e prefeitos da Baixada Santista também apoiaram, sem pestanejar, a privatização da Empresa de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), apesar de especialistas e sindicalistas terem alertado que a ‘conta’, mais cedo ou mais tarde, chegaria.
Esta semana, o prefeito de Guarujá (SP), Farid Madi (Podemos), apoiador de Tarcísio de Freitas (Republicanos) convocou uma reunião emergencial para discutir o desabastecimento de água que atinge algumas regiões da Cidade. Formalizou até um comitê de crise e, diante das cobranças do prefeito, a Sabesp anunciou um plano de ação com medidas para mitigar o problema, como se fosse uma novidade.
A história recente não mente. Em junho último, a Confederação Municipal das Associações de Moradores de Guarujá (CMAG), entidade de utilidade Pública que reúne as associações de bairros, representada pelo presidente Ricardo Souza, emitiu nota de repúdio a seis seguranças do governador, recebido com festa pela Prefeitura de Guarujá e dezenas de correligionários no Ginásio Guaibê.
Segundo relatado, os seguranças retiraram a força do evento o presidente da Associação de Bairro Jardim Santense, André Mariny, também diretor da CMAG, para que a Polícia Militar do Estado de São Paulo o conduzisse até a Delegacia de Vicente de Carvalho – distrito do Município. Seu ‘crime’: cobrar a falta de água - questão já amplamente abordada pela Imprensa em geral, em especial, pelos Inconfidentes desde o ano passado.
No entanto, as vozes não foram suficientes até que, dias atrás, a falta de água em Guarujá dificultou o combate a incêndio que matou uma menina de três anos. Vizinhos tiveram que usaram baldes para tentar apagar o fogo, mas o atraso no combate dificultou o resgate. Sabesp negou desabastecimento na região do bairro Paecará. Moradores revelaram que o problema persistia há dias.
Outros detalhes
Em fevereiro último, a Agência Pública publicou uma importante reportagem (reproduzida pelos Inconfidentes) dando conta de que um mês após a conclusão da venda da Sabesp, o governo Tarcísio de Freitas injetou quase R$ 3 bilhões em Fundos Municipais de Saneamento Básico (FMSB) de prefeituras.
A cidade de Santos, de Rogério Santos (Republicanos), e Praia Grande, de Alberto Mourão (PMDB), foram as que receberam na Baixada Santista, segundo apurado. O valor corresponde a cinco anos de arrecadação. Especialistas ouvidos pela Agência Pública disseram que os adiantamentos indicam uso político dos fundos municipais e que os repasses foram feitos sem transparência.
“Fica claro que os fundos foram usados como incentivo financeiro para garantir a adesão dos municípios ao modelo estadual de desestatização”, avaliou o economista Hugo de Oliveira, ex-presidente da Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp), que fiscaliza a Sabesp.
A maioria do dinheiro foi para as cidades em que houve maior resistência à privatização: Barueri, Botucatu, Diadema, Franca, Guarulhos, Osasco, Praia Grande, Santo André, Santos, São Bernardo do Campo, São José dos Campos e São Paulo, como atestam os contratos aos quais a Pública teve acesso.
Oliveira diz que a moeda de troca empenhada pela gestão Tarcísio para convencer os municípios indecisos foram, e serão, pagas pelos consumidores paulistas. Ou seja, a tarifa básica de energia, que já aumentou 6,11% este ano, deve sofrer um aumento ainda mais expressivo no próximo reajuste, contrariando a promessa do governador de que a privatização da Sabesp não redundaria em aumentos nas contas de água.

Tarcísio batendo o martelo da privatização
Reconheceu?
Diante da iniciativa tardia de Guarujá, a Sabesp reconheceu falhas e anunciou medidas como o reforço de abastecimento por caminhões pipa (que já é comum na cidade), um canal exclusivo para consumidores de Guarujá e aceleração das obras de importação de água para a Cidade.
O comitê de crise será composto pela Prefeitura, Sabesp, Arsesp, Unidade Regional de Saneamento Básico 1 (Urae 1) Sudeste e Câmara de Vereadores, que parece só terem acordado agora para tirar foto atrás do prefeito na coletiva de criação do comitê.
A Sabesp reconheceu até atrasos na conclusão das obras de uma travessia subaquática entre Santos e Guarujá, iniciadas no ano passado, para trazer água produzida na Estação de Tratamento de Água (ETA) de Cubatão para Guarujá, por meio de uma tubulação sob o canal do Porto de Santos.
Segundo o presidente da Sabesp, o atraso se deve a problemas geológicos encontrados pelos técnicos da empresa e tudo deverá estar concluído em 40 dias.
A travessia terá 5,56 km de extensão, com 700 metros de tubos submersos, resultando na capacidade de abastecimento de 500 litros a mais por segundo. A obra, com investimento de R$ 134,7 milhões, beneficiará mais de 450 mil pessoas, promete a empresa.
Cobrança zero
Os Inconfidentes fizeram inúmeras reportagens cobrando o Governo Tarcísio e os parlamentares da região. Mas precisou morrer uma criança para a crise ser anunciada em Guarujá.
No final do ano passado, a falta de água em bairros periféricos de muitas cidades da Baixada Santista só tirou o sono de quem estava no ‘lado mais fraco ponta da corda’: os moradores das periferias.
Na ocasião, no poder Legislativo Estadual, a deputada Solange Freitas (União), partido que dá sustentação ao Governo Estadual, se manifestou em vídeo, dizendo apenas que iria cobrar a Sabesp, mas ‘esqueceu-se’ de Tarcísio, o mentor da privatização.
Seus colegas de plenário também da Baixada – Tenente Coimbra e Paulo Mansur (PL) e Paulo Corrêa Júnior (PSD) – também partidários de Tarcísio, não se manifestaram. Somente Caio França (PSB) demonstrou, antes da privatização e após ela, cobrança por uma solução definitiva para o fim da falta de água na região.

Os deputados estaduais da Baixada favoráveis à privatização
Federais
Na ocasião, apesar da questão ser estadual e não federal, a deputada Rosana Valle (PL), aliada da Tarcísio – e o deputado federal Paulo Alexandre Barbosa (PSDB) – não menos aliado do governador de São Paulo – disputavam as mesmas preocupações: túnel submerso e aeroporto de Guarujá. Duas verdadeiras lendas urbanas.
Cobrar Tarcísio, nem pensar. O deputado Delegado Da Cunha sequer se manifesta sobre qualquer assunto da Baixada a qual foi eleito, quanto mais cobrar Tarcísio.
O único órgão que tentou cobrar resultados da Sabesp foi a União dos Vereadores da Baixada Santista (UVEBS), que realizou audiências para discutir os serviços de água e saneamento prestados pela companhia na região. No entanto, nada ocorreu.
A primeira delas, a em 5 de setembro de 2025, vereadores de nove municípios e representantes do Sindicato dos Urbanitários (Sintius) apresentaram queixas da população sobre falta de água, qualidade do abastecimento, obras inacabadas e demissões após a privatização da empresa. A Sabesp, embora convidada formalmente, não compareceu.
Vulneráveis
O desabastecimento em várias cidades atinge e, sempre atingiu, em cheio moradores mais vulnerável, causando transtornos incalculáveis à população da região. O sofrimento é duro e silencioso.
Crianças e adultos carregando baldes, improvisando banhos em córregos e recorrendo à solidariedade de vizinhos para beber água virou rotina. Agora, uma criança faleceu. A irmã dela, de sete anos, conseguiu correr e foi levada por testemunhas para o pronto-socorro.

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