A estrutura da falta e o silêncio da gestão em Santos (SP)
Por CristianoTorres1977

Por CristianoTorres1977
15.04.2026
A resposta institucional evidencia organização de programas e diretrizes, mas não enfrenta o ponto central do problema. A insuficiência estrutural permanece. Um único geriatra para uma população idosa expressiva não se resolve com ações complementares nem com discursos de integralidade.
A pergunta inicial precisa ser direta. A política pública está sendo executada ou apenas anunciada?
Quando se observa o território, a resposta aparece com clareza. Morros e Zona Noroeste não possuem cobertura equitativa. O acesso não é distribuído de forma justa. A presença do Estado não é contínua. O que existe é uma desigualdade territorial que se repete e se mantém.
Esse cenário não é novo. Ele dialoga diretamente com o que já foi analisado por Cristiano Torres no artigo A Anatomia do Favor: O Capital Político da Precarização em Santos. A precarização não aparece como erro administrativo. Ela funciona como lógica de organização. Ela estrutura o funcionamento do sistema.
Não se trata simplesmente de faltar um geriatra. Trata-se de entender por que falta.
Em uma cidade com orçamento elevado destinado à saúde, é aceitável que áreas essenciais permaneçam desassistidas? Se há recursos, por que não há estrutura? Se há demanda crescente, por que não há ampliação das especialidades?
Onde estão as verbas do SUS destinadas à cidade de Santos? Estão sendo aplicadas na estruturação do serviço público ou estão sendo diluídas em formas precárias de contratação? Por que não há transparência suficiente para que a população compreenda como esses recursos estão sendo utilizados?
Por que não há geriatras distribuídos nas unidades de saúde da Zona Noroeste e dos Morros? Por que o atendimento permanece centralizado? Como um idoso, muitas vezes com dificuldade de locomoção, consegue acessar esse único ponto de atendimento? Onde estão os mecanismos de transporte público de saúde para garantir esse deslocamento?
Se o sistema público existe para garantir universalidade, por que o acesso é tão desigual?
A realidade mostra outra divisão. Os idosos que vivem próximos à orla, em grande parte, possuem convênios médicos. Eles não dependem exclusivamente do sistema público. Já os idosos das periferias dependem. E quando dependem, encontram ausência.
Isso é falha ou é padrão?
Por que não há concursos públicos suficientes para garantir profissionais estáveis? Por que a gestão opta por vínculos precários? Quem se beneficia quando se paga menos a um profissional ao invés de garantir um salário digno via concurso?
Se um médico concursado recebe significativamente mais do que um contratado em regime precário, por que alguém escolheria permanecer nesse modelo instável? Isso não explica a falta de profissionais?
Quem aceita essas condições, muitas vezes, está no início da carreira, precisa de renda, precisa de experiência. Isso fortalece o sistema ou aprofunda sua fragilidade?
Enquanto isso, a cidade envelhece.
Se a população idosa cresce, por que a estrutura de atendimento não cresce junto? Existe planejamento para essa realidade ou apenas reação pontual?
Se o idoso não encontra atendimento especializado, o que acontece com ele? Ele adoece sem acompanhamento? Ele agrava sua condição? Ele morre sem assistência adequada?
E quando isso acontece, a responsabilidade recai sobre quem?
Sobre o SUS de forma genérica? Ou sobre a gestão municipal que administra os recursos e define as prioridades?
O SUS possui financiamento, possui estrutura, possui diretrizes. Então por que o atendimento não chega com qualidade nos territórios mais vulneráveis?
Se o dinheiro existe, por que ele não se transforma em serviço?
Quando a ausência de atendimento se concentra em regiões periféricas, isso é coincidência? Ou revela um padrão que acompanha desigualdades sociais e raciais?
Quem são os idosos que dependem exclusivamente do sistema público? Em sua maioria, são negros, pardos, trabalhadores que já contribuíram com a cidade ao longo da vida e que agora não encontram o retorno em forma de cuidado.
Se esses corpos são sempre os mais afetados pela ausência, isso ainda pode ser tratado como descaso isolado?
Ou estamos diante de uma negligência estrutural?
A precarização da saúde pública não afeta apenas o atendimento. Ela reorganiza a relação entre Estado e população. Quando o acesso deixa de ser garantido, ele passa a ser buscado. E tudo aquilo que precisa ser buscado pode ser condicionado.
O direito se transforma em possibilidade.
E a possibilidade se transforma em dependência.
Uma população que não tem acesso garantido não cobra com a mesma força. Ela negocia. Ela aceita. Ela se adapta. Ela tenta sobreviver dentro das condições que encontra.
Isso interessa a quem?
A quem serve uma estrutura que nunca se completa? A quem serve a manutenção da falta? A quem serve um sistema que mantém a população em constante necessidade?
Se há indícios de má gestão, por que não há investigação aprofundada? Por que os mecanismos de controle não atuam com mais rigor? Por que a sociedade não tem acesso claro às informações sobre aplicação de recursos?
O judiciário local está cumprindo seu papel de fiscalização? Os órgãos de controle estão acompanhando essa realidade com a devida seriedade?
Por que esse cenário se mantém ao longo do tempo sem ruptura?
A precarização deixa de ser um problema administrativo e passa a funcionar como engrenagem. Ela mantém o sistema em estado permanente de insuficiência. E um sistema insuficiente produz uma população dependente.
E uma população dependente não exerce plenamente sua cidadania.
A discussão não pode ser reduzida à falta de um profissional. Isso é apenas a superfície.
O que está em jogo é um modelo de gestão que mantém a estrutura incompleta.
E quando a estrutura permanece incompleta de forma contínua, isso deixa de ser falha.
Isso passa a ser método.
A pergunta final não pode ser evitada.
A quem a cidade de Santos está servindo?
E a quem ela deixa de servir?
Cristiano Torres é professor especialista, pesquisador CAPES, mestrando em Letras e analista crítico das desigualdades sociais

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