A inteligência artificial ameaça o universo musical
Por Luciano Albano

Por Luciano Albano
11.02.2026
Há uma gigantesca preocupação dos músicos com o uso da inteligência artificial na música. O que poderia ser algo benéfico como instrumento de apoio para o músico (alguns utilizam com este propósito), hoje se transforma em ameaça para o futuro. O uso da inteligência artificial ultrapassa limites e o que vemos hoje é cenário assustador.
Recentemente li algumas colocações do Consultor de Inteligência Artificial para Empresas e Professor de Pós-Graduação em IA para Negócios, Danilo Gato. Fiquei estarrecido.
A partir deste ano o cenário musical deverá seguir uma tendência de mudança radical que causará impacto em especial quem trabalha com isso. Segundo estudos recentes da plataforma de streaming Deezer, 97% das pessoas não conseguem diferenciar uma música feita por inteligência artificial de outra feita por humanos.
Não é pouca coisa. É muita gente. Há uma sofisticação tão grande desta tecnologia, com uma qualidade tão absurda que é praticamente improvável reconhecer se é produzida por inteligência artificial.
Este impacto é tão impressionante que chegou ao ponto dos fãs e gravadoras não perceberem o que é real do que é sintético produzindo-se um cenário bizarro.
Como exemplo podemos citar “Breaking Rust”, projeto musical country, impulsionado por inteligência artificial (IA), que alcançou o topo da parada Billboard Country Digital Song Sales com a música "Walk My Walk" em 2025.
Criado por Aubierre Rivaldo Taylor, o artista virtual apresenta voz e imagens geradas por IA, acumulando milhões de streams sem um cantor humano real.
Sim. Um artista digital, criado artificialmente por inteligência artificial superou humanos reais. A maioria dos votantes sequer desconfiou. (Ouça nas plataformas digitais. É perfeito o som do artista). Outro exemplo é criação da artista “Xania Monet”. A “artista” assinou um contrato milionário e embolsou 3 milhões de dólares.
Sim. Gravadoras estão pagando cifras milionárias por artistas que não existem. Criou-se uma “banda” chamada “Velvet Sundown” que construiu uma base de fãs que atingiu o expressivo número de um milhão de ouvintes (com destaque em São Paulo).
Detalhe: estes números foram apresentados antes de se revelar para todos que a “banda” é fruto de um projeto sintético. Fato é que, antes de terem sidos ludibriados, as pessoas realmente curtiram o trabalho artificial.
A produção musical feita por humanos é cara e a digital, realizada artificialmente, muito mais barata pulverizando-se várias etapas de processos. Se a audiência não percebe a diferença, há o fator econômico envolvido que poderá ocasionar mudanças perceptíveis no mercado.
Como músico, nunca fui muito antenado em tecnologias como deveria, sempre busquei o “orgânico” priorizando a criatividade e a originalidade mais, digamos, raiz. Recentemente alguns amigos músicos, todos talentosos, experientes e com anos de estrada, me apresentaram o aplicativo chamado “Suno”.
O Suno AI não gera apenas uma melodia simples; ele entrega letra, arranjo, voz e mixagem em segundos. A composição tradicional exige etapas: composição, arranjo, gravação, mixagem, masterização.
O Suno entrega o produto final (embora com qualidade de áudio menor comparado a um estúdio profissional) imediatamente. A maior capacidade é a de gerar vozes que soam humanas, com emoção e inflexão, algo que antes exigia a contratação de cantores.
Um compositor pode levar dias para reescrever um refrão. A IA pode gerar 20 variações em dois minutos...
E para exemplificar o que vi, vou citar o depoimento de André Abujamra, compositor com 40 anos de carreira. Ao ter contato com o aplicativo mostrou-se extremamente preocupado pois constatou que o Suno está “destruindo” o compositor, porque além de artificialmente se compor muito mais rápido, realiza-se processos que o músico levaria horas para produzir, disponibilizando versões de arranjos e outras facilidades impressionantes. André mostrou-se dividido porque percebeu que a tecnologia chegou e o modo tradicional de compor, mudará.
Ele citou os pintores na renascença que “pintavam aquelas lindas mulheres”. Com a chegada da fotografia, também se preocuparam. Não há como lutar contra. O artista diz estar com medo porque o Suno irá revolucionar a maneira de compor de forma desigual, fazendo com que os artistas busquem atualizar-se com as tecnologias, obrigando-os a reciclarem e estudarem novos métodos, utilizando-os como ferramenta de apoio.
Penso que a inteligência artificial necessita regulamentação e limites para seu uso. A forma tradicional de compor traz uma originalidade que a inteligência artificial pode interferir, seguindo um curso perigoso de “lugar comum”, pasteurizado.
Para finalizar deixo aqui as impressões de Miguel Nicolelis, neurologista renomado, um dos maiores nomes da interface cérebro-maquina, sobre os perigos da inteligência artificial.
Segundo ele, esses perigos são muito mais sutis e biológicos. A IA não é “inteligente” no sentido humano, mas sim um sofisticado sistema estatístico. O risco consiste na forma como nossa interação com essas ferramentas pode remodelar o cérebro humano.
Luciano Albano é músico e publicitário, formado em Comunicação Social

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