A máquina sem tomada e o brilho nos olhos

Por Claudio Luis da Silva (Cláudio da Cultura)
17.08.2026
Divulgação
Basta eu pronunciar a palavra “tecnologia” em uma conversa sobre educação para que os olhares busquem, de imediato, uma tomada na parede, um cabo de rede ou o reflexo azulado de uma tela.
Convencionou-se, por uma espécie de vício coletivo dos nossos tempos, que inovar é sinônimo obrigatório de digitalizar; que preparar uma criança para o futuro exige, impreterivelmente, cercá-la de circuitos e algoritmos antes mesmo que ela aprenda a amarrar os próprios sapatos.
Recuso esse sequestro do sentido. A palavra, filha legítima do grego (téchne), nunca dependeu de baterias de lítio para transformar a humanidade.
A escrita entalhada na pedra, o livro impresso em papel áspero, o compasso e até o velho quadro-negro foram, cada um a seu tempo, tecnologias revolucionárias.
Todas nasceram para expandir a capacidade criadora do ser humano, não para reduzi-lo a um consumidor passivo de estímulos rápidos.
No chão da escola, vejo diariamente o custo dessa ilusão. Enquanto muitos celebram a chegada de equipamentos caros que logo se tornam obsoletos, o professor enfrenta o desafio quase desumano de disputar a atenção de turmas inteiras contra o fluxo hipnótico das redes.
O resultado não é o avanço pedagógico, mas a dispersão crônica: olhares cansados, corpos imóveis e uma atenção fragmentada que se esvai a cada deslizar de dedo.
O cérebro em formação não se desenvolve plenamente em duas dimensões. Ele precisa do peso da matéria, do atrito da madeira, do pano, da sombra, do gesto e do espaço compartilhado.
A cognição floresce no encontro vivo: quando o corpo se movimenta, quando a voz ganha entonação e quando um olhar encontra outro olhar humano, sem a mediação fria do vidro.
É por isso que defendo as tecnologias analógicas e relacionais como a verdadeira vanguarda da educação. Um pequeno palco de papelão, uma lanterna, um boneco que ganha vida nas mãos de quem o manipula, uma narrativa contada com pausas e silêncios carregados de sentido são ferramentas pedagógicas de altíssima precisão.
Ao exigir que a criança preencha com a própria imaginação aquilo que não está mastigado na tela, devolvemos a ela o protagonismo e a capacidade de sustentar o foco.
Não se trata de negar o mundo contemporâneo, mas de ter a coragem de não aceitar a passividade disfarçada de modernidade. Em tempos de excesso de luz artificial, a tecnologia mais potente que podemos levar para a sala de aula é aquela capaz de desligar a tela para, finalmente, acender a imaginação, luto pela Pedagogia do Encantamento.

Claudio Luis da Silva é advogado, escritor, diretor teatral, ator e arte-educador

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