A mulher que ficou depois da partida

Por CristianoTorres1977
31.08.2026
Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Talvez você nunca saiba o que aconteceu comigo naquele breve instante em que o mundo pareceu silenciar e eu pude simplesmente estar ao seu lado. Não foi o tempo. Foi o que coube dentro dele.
Um abraço, um olhar, a delicadeza de um instante que passou depressa, mas deixou marcas onde eu nem sabia que ainda havia espaço.
Por muito tempo, talvez eu tenha confundido o desejo de tocar com a vontade de permanecer. Mas, naquele encontro, eu descobri outra coisa.
Descobri que amar uma mulher também pode ser querer que ela se sinta segura, respeitada, acariciada pela vida e não apenas desejada por alguém. E foi então que enxerguei você para além daquilo que meus olhos procuravam.
Vi a mulher. A mulher que mudou, que escolheu outros caminhos, que ergueu seus próprios limites e decidiu não voltar para aquilo que um dia foi. Talvez eu tenha chegado tarde para conhecer a mulher que você se tornou.
Mas cheguei a tempo de reconhecê-la. Você me ensinou que algumas pessoas não chegam para ficar. Chegam para revelar.
Revelam sentimentos que estavam adormecidos, lugares dentro de nós que ainda precisavam ser visitados e verdades que somente um encontro é capaz de trazer à luz.
Você passou pela minha vida como quem atravessa uma sala sem perceber que deixou uma janela aberta. Depois que você foi embora, entrou luz.
E eu fiquei ali, olhando para dentro de mim, tentando compreender o homem que havia saído daquele encontro. Hoje eu entendo que nem todo amor precisa terminar em um “nós”.
Alguns terminam em gratidão. Alguns ficam como memória. Alguns simplesmente nos transformam.
Você escolheu o seu caminho. Eu respeito. Não quero atravessar os limites que você construiu, nem transformar meu sentimento em peso sobre seus ombros.
Se não haverá um “nós”, que pelo menos exista a beleza de ter existido um instante verdadeiro. E, se algum dia você se lembrar de mim, não quero que seja como alguém que tentou prendê-la.
Lembre-se apenas de alguém que, por um breve momento, olhou para você e conseguiu enxergar muito além do desejo. Enxergou uma mulher. E talvez essa seja a forma mais bonita que encontrei de amar você: deixar que você seja exatamente quem decidiu ser.
Sem cobrança. Sem promessa. Sem esperança colocada sobre aquilo que você já disse que não quer. Apenas gratidão.
Porque você passou. E, mesmo passando, ficou alguma coisa. Não em suas mãos. Nas minhas. Uma nova maneira de olhar para o amor, para o desejo, para o cuidado e, principalmente, para mim mesmo.
Obrigado, Bruna. Por ter existido. Por ter mudado. Por ter me permitido conhecer, ainda que por pouco tempo, a mulher que você se tornou.
E agora eu sigo. Com carinho. Com respeito. E com a certeza de que algumas pessoas não precisam permanecer para jamais serem esquecidas.

Cristiano Torres é professor, especialista, pesquisador CAPES, mestrando em Letras e analista crítico das desigualdades sociais.

Comentários dos leitores
Carregando comentários…