A necropsia da excelência: o mapa do abismo na UNEMAT e a conquista do nada

A necropsia da excelência: o mapa do abismo na UNEMAT e a conquista do nada

Por CristianoTorres1977

01.06.2026

Imagem: Facebook

Apenas uma observação:

Lembram dos meus artigos em que menciono que estamos formando analfabetos funcionais com diploma de graduação e pós-graduação?

Pois é…

O resultado resolveu aparecer oficialmente, com carimbo, assinatura, porcentagem e linguagem técnica para suavizar o desastre.

Mas calma…

Longe de mim rir com ironia.

Afinal, o projeto está dando “certo”.

Mais horas de trabalho.

Mais escala 6x1².

Mais escolas cívico-militares.

Mais docentes PJ “empreendedores”.

Mais uberização da docência.

Mais produção em massa de diplomas.

Mais marketing institucional.

Mais professores exaustos vendendo curso sobre saúde mental no intervalo entre três vínculos empregatícios.

E claro:

menos Estado,

menos investimento público,

menos concurso,

menos direitos trabalhistas,

menos pesquisa,

menos leitura crítica,

menos permanência estudantil,

menos ações afirmativas

e menos “mi-mi-mi” acadêmico.

Porque pensar criticamente dá prejuízo.

O importante agora é “otimizar resultados”, bater meta institucional e formar profissionais que leem um parágrafo como quem decifra hieróglifo em velocidade 2x.

Formação esvaziada.

Pesquisa substituída por produtividade.

Escrita fragmentada.

Interpretação em colapso.

Diplomas distribuídos como panfleto de inauguração.

Depois fingem surpresa quando os indicadores despencam.

A crise da educação já não bate mais à porta.

Entrou, sentou na coordenação, abriu planilha no Excel e agora chama precarização de inovação pedagógica.

E para quem gosta de dados crus para temperar a miséria, a planilha da UNEMAT é um banquete de indigestão. Olhem para a "foto" oficial desse desastre por campus e por curso. É a prova matemática da nossa decadência planilhada.

Em Sinop, o cenário é de uma ironia cortante. Enquanto se fala em "emancipação" e "novas universidades federais", o curso de Matemática (Presencial) ostenta orgulhosamente o Conceito Enade 1.

Sim, UM! Dos 9 concluintes inscritos, apenas 8 participaram, e o percentual de proficiência foi de pífios 0,375. É esse o "exército de reserva" que vai sustentar o agronegócio e a burguesia local? Educadores que não dominam o básico da própria área, mas que agora têm um diploma para pendurar na parede da precarização.

E Cáceres? A sede histórica da universidade resolveu colecionar o número 1 como se fosse troféu de excelência. Matemática, Letras-Português, Letras-Inglês, Geografia, Artes Visuais... Todos no Conceito 1.

É uma padronização da ignorância que chega a ser estética. O curso de Letras-Português em Cáceres, com 68 inscritos, viu apenas 9 alunos chegarem "acima do básico". Nove! Os outros 59 são os analfabetos funcionais com diploma que eu avisei que estávamos fabricando. 

Vejam a Educação Física em Cáceres: 105 inscritos, um exército de 45 participantes, e um conceito 2 que parece vitória diante do resto do naufrágio. Em Juara, a Pedagogia amarga o conceito 1, enquanto em Rondonópolis, o marketing da "universidade para todos" entrega conceitos 1 e 2 como se fossem brindes de inauguração de supermercado.

A Nota Técnica nº 8/2026 do INEP explica a "metodologia" do abate, mas os dados da UNEMAT explicam a realidade: estamos aceitando o jogo da mediocridade interna para não confrontar o projeto político que nos esvazia. É o que eu chamo de tiro no próprio pé com validação estatística.

O Dossiê UFMT e esse raio-X da UNEMAT se completam: enquanto o Estado retira investimento e "redimensiona" (leia-se: abandona) a base, a universidade pública se torna uma máquina de moer cérebros, entregando concluintes que mal conseguem interpretar a Tabela 1 de conversão do PDBck.

Afinal, para quem está destinado a ser "escravo moderno" na escala 6x1, para que saber Geografia ou Matemática? O importante é saber bater o ponto e não questionar a planilha.

Essa "foto" da UNEMAT é o retrato de uma instituição que foi capturada pela lógica da "entrega de diplomas-panfleto". É o resultado de anos chamando precarização de "inovação" e falta de recursos de "superação".

Lamento por nós, mas os "lacaios" que defendem essa estrutura estão rindo à toa: a mão de obra barata, desinformada e portadora de um título inútil está saindo fresquinha do forno para alimentar a burguesia de Sinop e região.

A crise não sentou apenas na coordenação; ela já virou reitora e está assinando o seu certificado de óbito intelectual com uma caneta banhada a ouro de otimização de metas.

CristianoTorres1977 é professor especialista, pesquisador CAPES, mestrando em Letras (UNEMAT) e analista crítico das desigualdades sociais.

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