A Obra Inacabada

A Obra Inacabada

Por CristianoTorres1977

28.07.2026

Imagem: Instagram

Naquela noite de domingo, eu não procurava lembranças. Pelo menos era isso que imaginava enquanto segurava o celular e observava uma fotografia simples de um prato de sushi. Não havia intenção escondida naquele gesto, nenhuma tentativa de reabrir portas que o tempo havia fechado, nenhum desejo consciente de retornar ao passado. Eu apenas sabia que ela gostava de sushi e, por um instante, aquela imagem trouxe seu nome à minha memória. Existem pessoas que permanecem ligadas às pequenas coisas da vida, não porque essas coisas tenham importância por si mesmas, mas porque carregam a marca invisível de quem um dia passou por nós.

A memória não retorna apenas através dos grandes acontecimentos. Ela não precisa de datas especiais, músicas dramáticas ou encontros inesperados. Às vezes, ela surge no detalhe mais simples, no sabor que alguém apreciava, no gesto que parecia insignificante quando aconteceu, mas que anos depois revela que certas presenças nunca desapareceram completamente. Existem pessoas que permanecem assim, não porque continuaram presentes, mas porque deixaram marcas invisíveis nos pequenos lugares da nossa existência.

Enviei a fotografia e escrevi: minha ex namorada ia amar. A frase nasceu sem planejamento. Foi apenas uma lembrança transformada em palavras. Poucos instantes depois veio a resposta: “Ex namorada?”. Sorri diante da pergunta. Não pela surpresa, mas pela força que duas palavras tão comuns carregavam naquele momento. Afinal, quem decide o nome de uma história? O tempo que durou? A forma como começou? O compromisso assumido diante do mundo? Ou aquilo que permaneceu quando tudo terminou?

Respondi que eu havia considerado como namorada, mesmo tendo sido por pouco tempo. Para mim, o sentimento não era definido apenas pela duração, mas pela intensidade daquilo que foi vivido. Logo depois, tentei corrigir a palavra, dizendo que talvez fosse uma ex-ficante. Mas, enquanto escrevia, percebi que algumas pessoas nunca cabem perfeitamente nas definições que criamos. Existem relações breves que deixam marcas profundas e relações longas que não conseguem construir memória alguma. 

Então ela perguntou: “Ela seria eu?”. Naquele instante, percebi que a conversa havia deixado de ser sobre sushi. Também não era mais sobre aquela mulher do passado. Aquela pergunta carregava uma curiosidade mais íntima. Era uma tentativa de compreender qual espaço ela ocupava dentro das minhas lembranças. Naquele momento, compreendi que ela não queria descobrir quem era a outra mulher. Queria descobrir quem ela era dentro da minha história.

Respondi perguntando: “Por que seria ela?”. Ela disse que não sabia, apenas achava estranho eu falar aquilo para ela. Expliquei que era simples: eu havia lembrado dela porque sabia que gostava de sushi. Ela respondeu que agora entendia.

A conversa parecia encerrada. Desejamos uma boa noite, uma boa semana. Agradecemos um ao outro pela gentileza. Enviei apenas uma rosa, um pequeno gesto sem explicação, porque existem sentimentos que não precisam de discursos para existir.

Depois veio o silêncio. Mas o silêncio entre duas pessoas que ainda carregam perguntas nunca é completamente vazio. Alguns minutos depois, ela voltou.

“Como ela te testou?”

Li aquela pergunta com atenção. Não era uma curiosidade sobre a outra mulher. Era uma pergunta sobre a minha própria história. Sobre a maneira como eu havia amado. Sobre o homem que eu havia sido naquela época. Responder significava voltar para um lugar que eu havia deixado para trás.

Hoje percebo que aquele homem já não existe da mesma forma. Naquele tempo, eu acreditava que amar significava permanecer, insistir, resistir. Imaginava que a intensidade era suficiente para vencer qualquer distância. Havia em mim uma necessidade quase desesperada de transformar sentimento em certeza. Não bastava amar. Era preciso ter a confirmação de que aquele amor também havia escolhido permanecer. Eu confundia entrega com garantia. Pensava que, se oferecesse tudo de mim, seria impossível não ser escolhido.

Ela tinha esse jeito de perguntar. Suas palavras eram curtas, mas nunca pareciam vazias. Havia nelas uma contenção que revelava apenas uma pequena parte daquilo que realmente queria saber. Enquanto eu buscava transformar sentimentos em palavras, ela parecia preferir observar antes de revelar. Eu explicava. Ela perguntava. Eu revelava. Ela observava. Essa diferença não era um defeito de nenhum dos dois. Era apenas a maneira como cada um havia aprendido a sobreviver às próprias emoções. 

Contei que ela havia testado minha paciência, minha insistência e minha capacidade de permanecer. Havia momentos em que eu me sentia tratado como alguém sem importância. Não era necessariamente pelas palavras ditas, mas pela ausência de atitudes que eu esperava receber. Quando eu queria apresentá-la ao mundo, mostrar que ela fazia parte da minha vida, ela se transformava em um iceberg diante de mim. Eu chegava com calor. Ela respondia com distância.

Hoje enxergo aquela imagem de outra forma. Naquele tempo eu via apenas o gelo. Não me perguntava quais tempestades haviam congelado aquele coração. Julgava a distância como falta de sentimento, quando ela talvez fosse apenas uma forma de proteção. Enquanto eu acreditava que segurança nascia da proximidade, ela podia acreditar que segurança dependia de preservar parte de si. Eu tentava derrubar os muros. Ela precisava deles para continuar inteira.

Durante muito tempo, acreditei que amar intensamente seria suficiente para atravessar qualquer barreira. Eu pensava que a dedicação poderia construir uma ponte onde existia um abismo. Mas algumas distâncias não desaparecem apenas porque alguém oferece mais amor. Houve momentos em que me senti diminuído. Momentos em que cheguei a pensar que entregava muito e recebia pouco. Eu não queria acreditar nisso porque admitir essa possibilidade significava aceitar que talvez aquilo que eu defendia com tanta força não estivesse sendo construído pelos dois.

O amor possui essa capacidade estranha de proteger aquilo que amamos, mesmo quando a realidade começa a mostrar suas imperfeições. Eu continuei. Disse que tentei várias vezes me aproximar, oferecer carinho, compreensão e presença. Mas também reconheci meus próprios erros. Porque seria fácil contar aquela história colocando toda a culpa sobre ela. Difícil era olhar para minhas próprias atitudes.

Eu quis abraçar o mundo. E, nesse desejo de não perder aquilo que considerava precioso, tentei segurá-la como se ela fosse parte de mim. Como se o medo pudesse justificar o controle. Como se amar alguém desse direito de limitar sua liberdade. Eu errei. Quis transformar uma pessoa em algo que pertencesse ao meu sentimento. E pessoas não pertencem.

Hoje entendo aquilo que naquele tempo ainda não conseguia enxergar. Existe uma diferença profunda entre cuidar e possuir. Entre permanecer ao lado de alguém e tentar impedir que essa pessoa siga os próprios passos. Eu amava de verdade, mas ainda carregava inseguranças que me faziam acreditar que perder era sempre uma ameaça iminente. Foi essa insegurança, e não o amor, que muitas vezes conduziu minhas escolhas.

Ela perguntou: “Quais critérios foram esses que eu havia pesado sobre ela?”. A pergunta me obrigou a olhar novamente para minhas próprias falhas. Respondi que meus critérios nasceram da insegurança e dos preconceitos que eu carregava. Eu queria controlar uma situação que não podia ser controlada. Queria ter certeza de algo que, por natureza, nunca oferece garantias.

Errei nesse sentido. Mas também existia outra parte da história. Eu sentia que ela não respondia na mesma intensidade ao meu investimento afetivo. Eu sentia que, muitas vezes, ela precisava da confirmação de que era desejada, de que possuía importância para alguém, mas, ao mesmo tempo, mantinha uma distância que eu não conseguia compreender.

Hoje penso que ela também travava suas próprias batalhas. Talvez tivesse aprendido que demonstrar demais era perigoso. Talvez acreditasse que manter certa distância era a única forma de não se machucar. Talvez carregasse medos que nunca chegaram a ser ditos. Assim como eu escondia minhas inseguranças atrás da intensidade, ela escondia as dela atrás da cautela. Nenhum de nós era o vilão da história. Éramos apenas duas pessoas tentando amar com as ferramentas emocionais que possuíam.

Foi somente muito tempo depois que compreendi a verdadeira tragédia da nossa história. Eu me aproximava para me sentir seguro. Ela se afastava para se sentir segura. Eu buscava confirmação através da entrega. Ela buscava proteção através da contenção. Nenhum dos dois estava necessariamente errado. Apenas falávamos idiomas emocionais diferentes, esperando que o outro compreendesse uma linguagem que jamais havíamos aprendido a traduzir.

Éramos dois espelhos colocados frente a frente. Eu mostrava minhas fragilidades. Ela escondia as dela. Eu tentava diminuir a distância. Ela media cada passo antes de atravessá-la. Hoje percebo que ambos procurávamos exatamente a mesma coisa: alguém que permanecesse. Apenas imaginávamos caminhos diferentes para alcançar essa permanência.

Talvez seja por isso que algumas histórias permaneçam inacabadas. Não porque lhes faltou amor, mas porque lhes faltou tradução. O tempo não apagou aquilo que vivemos. Apenas me ensinou a olhar para aquele homem com mais compaixão e para aquela mulher com menos julgamento. A obra permaneceu inacabada, mas nós dois deixamos de ser os mesmos personagens que um dia começaram a escrevê-la.

Cristiano Torres é professor, especialista, pesquisador CAPES, mestrando em Letras e analista crítico das desigualdades sociais.

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