A Primazia da Prática e o Anacronismo da Teoria
Por CristianoTorres1977

Por CristianoTorres1977
30.03.2026
Este artigo nasce do exercício de análise direta de dois registros audiovisuais fundamentais da trajetória política de Luiz Inácio Lula da Silva. A elaboração do texto que se segue é fruto da observação dessas transcrições, que servem como base empírica para o que é aqui defendido. O artigo dialoga diretamente com os vídeos para demonstrar a superioridade do saber prático sobre a erudição acadêmica descolada da realidade.
As transcrições que fundamentam esta produção e seus respectivos contextos são:
1 Vídeo: Lula vs. Enéas Carneiro. Um embate histórico onde Enéas, representante da erudição técnica e acadêmica, questiona Lula sobre a necessidade de escolaridade e preparo formal para o exercício da governança.
2 Vídeo: Entrevista sobre Donald Trump. Registro de uma entrevista recente em que Lula responde às declarações intervencionistas de Trump sobre o narcotráfico, pautando sua fala na soberania nacional e na autodeterminação dos povos.
A análise da trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva, em contraste com a erudição técnica de Enéias Carneiro, revela uma ruptura que a academia eurocêntrica custa a processar: o momento em que o empirismo pragmático cala a educação formal.
Essa formação não é ausência de saber, mas a presença absoluta da realidade vivida. Entende-se aqui por formação empírica pragmática aquela construída na experiência concreta, na vivência direta e na leitura imediata da realidade, sem mediação obrigatória de estruturas acadêmicas formais.
Enquanto o teórico observa a fornalha à distância, o líder estadista de base sente a queimadura. É nessa subjetividade, no feeling da cultura local e da necessidade urgente, que a linguagem popular subverte a norma, provando ser uma ferramenta de governança muito mais eficaz do que a erudição vomitada por bibliotecas canônicas no século XXI pelas universidades e pós-graduações stricto sensu.
Este pensamento dialoga diretamente com o Vídeo 1 (O embate com Enéas Carneiro):
É só se, na opinião do senhor, é ou não fundamental deter nível mínimo de escolaridade, preparo, ou seja, se não basta apenas conhecer o fato ou se é fundamental também saber como resolvê-lo. É essa a pergunta. A única coisa que eu quero responder é dizer ao nobre candidato que é muita ignorância querer confundir capacidade política, capacidade administrativa ou sensibilidade política de como tomar decisões em benefício da maioria com curso superior. Porque, se fosse assim, o Brasil não estaria nessa situação.
E, toda vez que eu me dirijo à questão das elites, eu costumo chamar elites dirigentes. Eu costumo sempre colocar a elite dirigente, porque é ela que toma posição, é ela que determina qual é a política econômica, é ela que determina qual é a política social.
Obviamente, eu tenho orgulho do meu partido; nós temos muita gente que faz parte de uma elite intelectual, que muito contribuiu não apenas para organizar o meu partido, mas também para produzir programas, produzir coisas importantes para a sociedade brasileira. Então, a elite a que eu me refiro é a elite dirigente, que foi incapaz, neste século, de resolver os problemas do povo brasileiro.
É preciso inverter a lógica proposta. A teoria não anda junto com a prática; a teoria nasce da prática. Isso não implica afirmar a inexistência de teoria na prática, mas reconhecer que toda prática carrega uma leitura de mundo, ainda que não sistematizada academicamente.
O problema é que ela nasce da observação de filósofos que jamais participaram do fazer, apenas assistiram à lida de quem está na fornalha. O que os acadêmicos chamam de diretriz é, na verdade, uma interpretação tardia e uma pequena parcela que não é a mesma e não atende ao Sul Global nem ao continente africano; atende ao eurocentrismo porque é voltada para a realidade deles e, ainda assim, permanece presa entre os séculos XV e XIX, não atendendo às demandas do século XXI.
A contradição entre teoria e prática reside na distância da pele. Essa contradição não é absoluta, mas se manifesta quando a teoria se distancia da experiência concreta e passa a operar como substituição da realidade, e não como leitura dela.
O teórico, em sua maioria, é um parasita da lida alheia: ele observa o sofrimento, a sobrevivência e a luta, transformando os em hipóteses e conceitos frios. Ele interpreta o mundo conforme o seu filtro, muitas vezes elitista e branco, mas não possui a validação da experiência.
O que as universidades entregam é uma generalização que tenta padronizar comportamentos e necessidades que, na realidade, são locais e distintos. As instituições de ensino superior não são as históricas; ao contrário, estão inseridas em um processo histórico específico e operam dentro de uma lógica eurocêntrica que molda seus referenciais e limites.
A teoria eurocêntrica não é neutra nem universal, embora se apresente como tal. Ela nasce de uma experiência histórica específica, branca e europeia, e transforma essa experiência em referência geral. O problema não é a existência dessa teoria, mas a sua pretensão de universalidade.
Quando deslocada para realidades do Sul Global, ela não dá conta de explicar nem responder às complexidades locais, porque foi construída a partir de outra base histórica, cultural e social. Ao se impor como padrão, ela não apenas limita a compreensão do mundo, mas também invisibiliza outras formas de conhecimento e experiência.
Essa universalização não é neutra, é um mecanismo de poder que organiza, classifica e hierarquiza realidades a partir de um centro que não representa a totalidade. Por isso, a crítica não é à teoria em si, mas à sua imposição como única forma legítima de leitura do mundo. Fora do seu contexto de origem, ela é estruturalmente insuficiente, e quando falha, são as realidades que estão fora desse centro que sofrem as consequências.
A teoria eurocêntrica organiza para dividir, categorizar e, historicamente, para escravizar e expropriar. Por isso, uma verdade universal parida na Europa não tem pernas para caminhar nas periferias do Sul Global ou no continente africano.
Essa generalização não é descuido, é método. Trata-se de aplicar à teoria dominante o mesmo mecanismo de universalização que ela historicamente impõe aos outros. Se a experiência europeia foi transformada em regra global, então é dentro dessa mesma lógica que ela pode e deve ser tensionada, exposta e devolvida como totalidade crítica.
"Essa mesma soberania do saber prático se impõe na diplomacia, como se observa nesta resposta de Lula sobre as ameaças de Donald Trump:"
“Patrícia Holanda, TV Record. Obrigada. Bom dia, presidente. Ainda falando de Trump, o senhor viu que ele fez essa comparação dos narcotraficantes latino-americanos ao ISIS. Como é que o senhor vê essa declaração? Ele disse, inclusive, que não precisa de declaração de guerra para matar quem traz droga.
[Resposta de Lula]: Eu acho que falta um pouco de compreensão da questão da política internacional. Veja, primeiro, você não está aí para matar as pessoas, você está para prender as pessoas. E o que o Brasil está fazendo há muito tempo — se você pensar em algumas ações da política federal —, a base que nós criamos na Amazônia para combater o narcotráfico na nossa fronteira é uma novidade, inclusive em parceria com a Interpol e com todos os países amazônicos.
Ou seja, você não fala que vai matar as pessoas; você tem que prender as pessoas, julgar as pessoas, saber se a pessoa estava ou não traficando, e aí você pune as pessoas de acordo com a lei. É o mínimo que se espera que faça um chefe de Estado.
Ontem eu disse ao presidente de Prabowo que, quando nós somos chefes de Estado, nós temos duas coisas para fazer: a gente tem que escolher. Porque ser chefe de Estado é tomar decisão. Tudo você tem que tomar decisão. Tudo. Então você tem que escolher se você quer ser um líder respeitado e amado ou se você quer ser um líder temido e odiado. E depende muito das palavras que você fala, depende muito do jeito que você se comporta.
E é assim que eu procedo. Eu, antes de falar — sabe? —, antes de julgar alguém, antes de punir alguém, eu tenho que julgar essa pessoa, eu tenho que ter provas. Você não pode simplesmente dizer, sabe, que vai invadir, que vai combater o narcotráfico na terra dos outros. Você leva em conta a Constituição dos outros, a autodeterminação dos povos; você leva em conta a soberania territorial de cada país.
Porque, se o mundo ficar uma terra sem lei, sem respeitabilidade, vai ficar muito difícil de viver.
Eu espero que, se o presidente Trump quiser discutir esse assunto comigo, eu teria imenso prazer de discutir com ele. Imenso prazer. Esses e outros assuntos. Porque, veja, o mundo não pode continuar nessa polarização do bem contra o mal a vida inteira.
Toda vez que a gente fala de combater as drogas, possivelmente fosse mais fácil a gente combater os nossos viciados internamente, os usuários. Os usuários são responsáveis pelos traficantes, que também são resultado dessa relação. Ou seja, você tem gente que vende porque tem gente que compra, e gente que compra porque tem gente que vende.
Então, é preciso que a gente tenha mais cuidado no combate à droga. No caso do Brasil, nós estamos com a frente da Polícia Federal, envolvendo também as políticas estaduais. Nós queremos combater o tráfico de drogas, o narcotráfico, o tráfico de armas e o contrabando.
Mas isso exige que a gente trabalhe em harmonia com os países. É muito melhor os Estados Unidos se disporem a conversar com as políticas dos outros países, com o Ministério da Justiça de cada país, para que a gente faça uma ação conjunta.
Porque, se a moda pega, cada um acha que pode invadir o território do outro para fazer o que quer. Onde é que vai surgir a respeitabilidade à soberania dos países? É ruim.
Então, eu pretendo — eu pretendo — discutir esses assuntos com o presidente Trump, se ele colocar na mesa.”
Nesse contexto, Karl Marx torna-se uma figura insuficiente e deslocada. Quem é Marx diante da realidade do homem negro, dentro ou fora do Brasil? Suas décadas de escrita não contemplam a cosmologia ou a urgência de vida da população negra, porque sua teoria foi forjada para uma classe operária europeia que nunca foi animalizada pelo sistema da mesma forma.
A ideia de transformar o mundo continua sendo formulada como projeto teórico, mas, para quem tem os pés no chão da fornalha, a transformação não é um projeto futuro; é o imperativo do agora, independente de cartilhas.
O teoricismo atua como ferramenta de conformismo ao tentar enquadrar a insurgência popular em categorias universais que só servem para dividir e organizar classes sob uma lógica que ainda é, na sua essência, colonial.
Nesse sentido, a insuficiência não está apenas no conteúdo, mas na origem da formulação, que não parte da experiência concreta das populações que hoje compõem o centro das contradições do século XXI. Assim como no debate político apresentado anteriormente, o limite da teoria aparece exatamente quando confrontado com a realidade que não a produziu.
É fundamental distinguir a instituição do indivíduo. O PT, como estrutura, pode até se curvar à liturgia do Estado e à burocracia eurocêntrica para operar na legalidade. Isso evidencia que não há uma ruptura total com o eurocentrismo no plano institucional.
No entanto, o indivíduo Luiz Inácio Lula da Silva rompe parcialmente essa lógica na sua forma de atuação política. Ele não abaixa a cabeça para o cânone acadêmico porque sua legitimidade não emana do diploma, mas da raiz e da prática que a teoria ainda não conseguiu catalogar. A realidade é local, distinta e reage ao agora; ela age conforme a localidade, e os comportamentos locais não são igualitários para todos.
Enquanto a academia vomita poeira de livros e tenta validar a vida através de teses, a liderança empírica prova que o senso comum, moldado na necessidade e na cultura da raça, é o único instrumento de governança capaz de responder à urgência da realidade. A teoria pode servir como referência para alguns, mas jamais terá a força da prática de quem é, de fato, o sujeito da própria história.
Os dois momentos analisados não são episódios isolados, mas expressões de uma mesma lógica de atuação. No primeiro, a recusa da equivalência entre diploma e capacidade política. No segundo, a tomada de decisão concreta diante de um cenário internacional complexo.
Em ambos, o que se impõe não é a teoria como ponto de partida, mas a prática como critério de validação. É nesse ponto que o empirismo pragmático não apenas questiona a teoria, mas a subordina à realidade. E quando a realidade não cabe na teoria, não é a realidade que deve ser ajustada.
CristianoTorres1977 é professor especialista, pesquisador CAPES, mestrando em Letras (UNEMAT) e analista crítico das desigualdades sociais.

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