A quem interessa retirar a marcação das cápsulas de bala?

Por Alexandre Miguel de Souza
22.10.2026
Foto: Instagram
Flávio Bolsonaro apoiou uma proposta que previa eliminar a identificação numérica das cápsulas de munições utilizadas pelas forças de segurança pública, um mecanismo importante para rastrear a origem dos disparos e auxiliar na investigação de crimes.
Ao ser questionado sobre as consequências dessa mudança, preferiu minimizar a questão, classificando-a como um simples “detalhezinho”, sem esclarecer de forma objetiva os possíveis prejuízos às investigações criminais.
Mais tarde, negou que sua intenção fosse acabar com a identificação das munições. Mas, quando o assunto é segurança pública, o que pode parecer um detalhe para um político pode fazer toda a diferença na busca pela verdade e na responsabilização dos criminosos.
A retirada da marcação de identificação das cápsulas de munição é uma medida que merece críticas severas e explicações transparentes. Em um país que enfrenta o tráfico de drogas, o crime organizado e a violência armada, qualquer decisão que possa dificultar a identificação da origem de munições e a investigação de crimes precisa ser tratada com a máxima responsabilidade.
A marcação de munições não é um mero detalhe burocrático. Ela pode contribuir para o rastreamento, a perícia balística e a investigação criminal, ajudando as autoridades a esclarecer a origem de determinados materiais e a estabelecer conexões entre ocorrências. Portanto, enfraquecer mecanismos de identificação sem apresentar justificativas técnicas convincentes pode representar um retrocesso na política de segurança pública.
Não podemos tratar como um mero detalhe, como, de forma infeliz, falou o candidato!
É evidente que a retirada de uma marcação, isoladamente, não significa que o tráfico de drogas será beneficiado automaticamente. Entretanto, se a mudança reduzir a capacidade de rastreamento e dificultar investigações, seus efeitos poderão favorecer indiretamente criminosos que utilizam armas de fogo. É justamente por isso que a sociedade precisa exigir explicações: qual é a justificativa para eliminar ou reduzir um mecanismo de identificação que pode auxiliar o trabalho policial?
O senador Flávio Bolsonaro costuma apresentar-se como defensor do combate à criminalidade. Mas discursos políticos não podem ser avaliados apenas pelas palavras utilizadas em palanques, entrevistas e publicações nas redes sociais. É preciso examinar as posições defendidas, as medidas apoiadas e as consequências concretas das decisões políticas.
Se uma medida defendida ou apoiada por um político enfraquece instrumentos que podem auxiliar a identificação de munições e a elucidação de crimes, existe uma contradição que precisa ser explicada. Não é coerente exigir rigor contra criminosos e, ao mesmo tempo, ignorar os possíveis prejuízos de medidas que dificultem o trabalho investigativo.
Por isso, o discurso anticriminalidade de Flávio Bolsonaro merece ser confrontado com suas posições concretas. A retórica de combate ao crime perde credibilidade quando não vem acompanhada de um compromisso inequívoco com mecanismos eficazes de prevenção, investigação e responsabilização criminal.

Alexandre Miguel de Souza é escritor e poeta santista

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