Acadêmicos do Tatuapé levou MST para o Carnaval Paulista
Fernanda Alcântara - MST/Da Reportagem

Fernanda Alcântara - MST/Da Reportagem
16.02.2026
Fotos: Regina Jerônimo/ Priscila Ramos/Agência Brasil – EBC
Com o enredo Plantar para Colher e Alimentar – Tem Muita Terra Sem Gente e Muita Gente Sem Terra, levando para milhões de olhares o debate sobre quem planta, quem colhe e quem realmente alimenta o Brasil, a Acadêmicos do Tatuapé desfilou na madrugada de sábado (14).
Eduardo dos Santos, presidente da Acadêmicos do Tatuapé e um dos idealizadores do enredo, pensado com a perspectiva do que o MST vem construindo, ressalta o quanto o tema é importante à sociedade.
“Falamos de agroecologia, do pequeno agricultor e de segurança alimentar. São temas que afetam todo o povo brasileiro, e é uma missão do Acadêmicos do Tatuapé, este ano, contar e mostrar essa história para as 33 mil pessoas que vão estar lá para assistir ao nosso espetáculo e também para o mundo, já que nossa festa é transmitida ao vivo para todo o Brasil e para mais de 80 países”.
Ao lado da jurista Carol Proner, do jogador Raí, do jornalista Chico Pinheiro e da ministra das Mulheres, Márcia Lopes; dirigentes históricos do MST, como Divina Lopes e João Paulo Rodrigues, ocupam carros alegóricos, enquanto mais de duzentos Sem Terra desfilam nas alas Cacau e Arroz, dois produtos centrais na produção camponesa do Movimento. A mensagem é direta: o prato de comida do brasileiro nasce nas roças e assentamentos da agricultura familiar, e não nos latifúndios voltados à exportação.
O ex-jogador de futebol Raí, mestre em Política Pública pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris, afirmou que o enredo da Acadêmicos do Tatuapé sobre a importância da terra, em parceria com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), representa a legitimação de um movimento que ele considera importante para a construção de um país mais justo.
Raí saiu como destaque no quarto carro da escola, batizado de "Tem festa na roça. É a festa da colheita". Para Raí, a homenagem reconhece um movimento que atua em um país “abundante em terra” e que ainda convive com desigualdades na distribuição desse espaço.
O ex-jogador afirmou que a proposta também tem relação com uma “reparação histórica”, ao mencionar a forma como as terras foram divididas ao longo da história do país e a concentração fundiária. Ele disse que o Brasil ainda está atrasado nesse aspecto e que milhares de famílias já foram beneficiadas pela atuação do movimento.
Ele afirmou que o país tem espaço tanto para grandes produtores quanto para agricultores familiares, defendendo a ampliação do acesso à terra para quem tem vocação para produzir.

Enredo
O enredo da Tatuapé não é uma homenagem decorativa, mas sim uma festa com manifestação política e social, construído a partir da ideia que a escola tem dos trabalhadores/as Sem Terra. O tema resgata a sabedoria dos povos indígenas, a luta das camponesas e camponeses que trabalham no campo e a necessidade de uma Reforma Agrária que garanta não só terra, mas também soberania alimentar e a preservação do meio ambiente.
A frase “Tem muita terra sem gente e muita gente sem terra” atravessa o samba‑enredo como um lema de resistência, ecoando décadas de ocupações, acampamentos e assentamentos conquistados à base da resistência e mobilização popular.
A presença de militantes Sem Terra nas alas Cacau e Arroz também não é acidental ou por acaso. O MST é hoje reconhecido como o maior produtor de arroz orgânico da América Latina, organizado com cerca de 450 mil famílias assentadas e 90 mil acampadas, distribuídas em 24 estados do país.
Essa base produtiva se traduz em uma vasta rede de cooperativas, escolas, parcerias com universidades e experiências de agroecologia, que agora ganham espaço na maior vitrine cultural do país: o Carnaval.
A festa no Sambódromo do Anhembi dialoga com uma realidade estatística pouco celebrada no país: a agricultura familiar é responsável por uma parcela decisiva da alimentação interna, mesmo que a narrativa “oficial” queira creditar ao agronegócio exportador.
Estudos baseados no Censo Agropecuário apontam que a agricultura familiar emprega cerca de 67% da população ocupada em atividades agropecuárias e responde por uma fatia expressiva do valor bruto da produção, com forte presença em produtos como mandioca, carne bovina e diversos alimentos de consumo cotidiano.
Por outro lado, os dados sobre a concentração fundiária mostram um retrato oposto de que menos de 1% dos estabelecimentos rurais concentram quase metade da área agrícola do país, enquanto os minifúndios, que representam cerca de 70% das propriedades, ocupam apenas 11% da área total. O Censo Agropecuário de 2017, mostra que 1% dos proprietários controlam quase 50% da área rural, consolidando o Brasil entre os países com maior concentração de terras do mundo.
Enquanto isso, a insegurança alimentar continua a marcar o cotidiano de milhões de brasileiros. O relatório da FAO “Estado de Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo 2025” indica que, apesar da queda recente, ainda há milhões de pessoas em situação de fome e insegurança alimentar severa, sobretudo em domicílios pobres, entre crianças, jovens e mulheres. Esses números reforçam a contradição de um país que produz alimentos em larga escala, mas onde uma parcela significativa da população não consegue garantir refeições dignas.
O enredo da Tatuapé expõe o modelo agrícola que realmente alimenta a população brasileira: a agricultura familiar voltada ao mercado interno, e neste sentido se alia ao MST nos seus 42 anos de existência, denunciando que a luta deixou de ser apenas contra o latifúndio improdutivo para enfrentar o agronegócio, que controla sementes, agrotóxicos, terras e preços, submetendo a produção de alimentos à lógica de lucro global.

No quarto carro alegórico, o assentamento dos sonhos: representou a conquista dos assentamentos, puxado por carros de boi e repleto de cestas fartas, é uma metáfora da terra como vida. Já na alegoria “Festa na roça”, última a entrar na avenida, vem a produção: milho, repolho, jiló, pimentão, melancia, tomate, beterraba e hortaliças, tudo real e produzido em assentamentos da Reforma Agrária, como o Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Luiz Davi de Macedo, em Apiaí (SP), onde 76 famílias Sem Terra cultivam alimentos saudáveis sem o uso de agrotóxicos, em meio à Mata Atlântica.
Esses produtos foram doados aos integrantes da escola Tatuapé no final do desfile, e reforçaram como a Reforma Agrária não é apenas redistribuição de terras, mas também tem papel central na reconstrução de uma cadeia alimentar justa e saudável, segundo Delweck Matheus, do setor de produção do MST.
Os produtos trazidos para a avenida foram produzidos pelas famílias de agricultores familiares, incluindo homens, mulheres, jovens e crianças assentadas em assentamentos da Reforma Agrária Popular, e mostram a importância de estarmos aqui, no sambódromo, desfilando na escola de samba, nossa cultura e nossa produção.
O papel da Reforma Agrária Popular como solução política
A homenagem da Tatuapé ao MST tem também o propósito de ecoar como um megafone para um conceito que o Movimento tem trabalhado há anos: a Reforma Agrária Popular. Diferente da Reforma Agrária clássica, centrada apenas na redistribuição de terras para trabalhadores rurais, a Reforma Agrária Popular incorpora a dimensão da produção de alimentos saudáveis para toda a população, a preservação ambiental e a construção de relações sociais igualitárias no campo e na cidade.
Em termos políticos, a Reforma Agrária Popular é apresentada como projeto de poder popular, que rompe com a concentração fundiária e financeira, e articula trabalhadores/as do campo e da cidade em torno da soberania alimentar. A própria Constituição de 1988, ao estabelecer a função social da propriedade e a possibilidade de desapropriação de imóveis que não cumprem a função social da terra, abre caminho jurídico para essa transformação.
Ao levar a luta do MST para a avenida, a Acadêmicos do Tatuapé faz mais do que celebrar um Movimento de luta: traduz em samba uma agenda política urgente. “Nós da escola queríamos compartilhar esta mensagem a respeito do MST, das famílias acampadas e assentadas, porque é uma homenagem a cada um e a cada um”, afirmou o presidente Eduardo dos Santos.
O enredo “Plantar para Colher e Alimentar” conecta a luta histórica pela Reforma Agrária à crise alimentar contemporânea, mostrando que a fome não é falta de comida, mas fruto de uma estrutura fundiária concentrada e de um modelo agrícola submetido ao capital internacional.

Esta é apenas uma amostra dos produtos dos assentamentos da Reforma Agrária e uma forma de dialogar com a sociedade sobre a qualidade desses produtos, sem qualquer produto químico ou agrotóxico. São produtos saudáveis, frutos da luta pela terra, e carregam a nossa gratidão à Escola de Samba por nos homenagear com esse dia tão importante no Sambódromo”, explica Delweck.
Com mais de 150 mil famílias acampadas à espera de terra – das quais cerca de 90 mil são ligadas ao MST –, a demanda por Reforma Agrária é maior do que nunca e segue presente no campo. Ao mesmo tempo, a agricultura familiar, que já produz boa parte dos alimentos que chegam à mesa do brasileiro, demonstra que é possível alimentar o país com justiça, agroecologia e dignidade.
O enredo da Tatuapé não apenas homenageia a luta pela Reforma Agrária do MST, mas entrega ao mundo uma ideia que ecoa nas ruas, nas escolas e nas redações – a verdadeira colheita só é farta quando a terra é dividida com justiça.
O Movimento
O Movimento Sem Terra está organizado em 24 estados nas cinco regiões do país. No total, são cerca de 450 mil famílias que conquistaram a terra por meio da luta e organização dos trabalhadores rurais.
É um movimento social, de massas, autônomo, que procura articular e organizar os trabalhadores rurais e a sociedade para conquistar a Reforma Agrária e um Projeto Popular para o Brasil. Mesmo depois de assentadas, estas famílias permanecem organizadas no MST, pois a conquista da terra é apenas o primeiro passo para a realização da Reforma Agrária.
Os latifúndios desapropriados para assentamentos normalmente possuem poucas benfeitorias e infraestrutura, como saneamento, energia elétrica, acesso à cultura e lazer. Por isso, as famílias assentadas seguem organizadas e realizam novas lutas para conquistarem estes direitos básicos.
Com esta dimensão nacional, as famílias assentadas e acampadas organizam-se numa estrutura participativa e democrática para tomar as decisões no MST. Nos assentamentos e acampamentos, as famílias organizam-se em núcleos que discutem as necessidades de cada área.

Nesses núcleos, são escolhidos os coordenadores e as coordenadoras do assentamento ou do acampamento. A mesma estrutura se repete em nível regional, estadual e nacional. Um aspecto importante é que as instâncias de decisão são orientadas para garantir a participação das mulheres, sempre com dois coordenadores/as, um homem e uma mulher. E nas assembleias de acampamentos e assentamentos, todos têm direito ao voto: adultos, jovens, homens e mulheres.
Da mesma forma, isso acontece nas instâncias nacionais. O maior espaço de decisões do MST são os Congressos Nacionais que ocorrem, em média, a cada cinco anos. Além dos Congressos, a cada dois anos o MST realiza seu encontro nacional, onde são avaliadas e atualizadas as definições deliberadas no Congresso.
Para encaminhar as tarefas específicas, as famílias também se organizam por setores, que são organizados desde o âmbito local até nacionalmente, de acordo com a necessidade e a demanda de cada assentamento, acampamento ou estado.

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