Alerta de vereadora santista tem pouca atenção dos deputados da região

Carlos Ratton

Alerta de vereadora santista tem pouca atenção dos deputados da região

Carlos Ratton

26.02.2026

Fotos:  Divulgação Câmara de Santos/Secretaria Educação SP

Os únicos representantes na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) que se mostraram preocupados com a denúncia da vereadora santista Cláudia Alonso (Podemos), sobre a possibilidade de crianças e jovens de escolas de dois morros santistas se tornarem espécies de ‘cobais’ do polêmico Projeto Voar, sob a batuta do secretário estadual de Educação Renato Feder, foram Caio França (PSB) e Solange Freitas (União). Tanto os deputados do PL Tenente Coimbra e Paulo Mansur, como o do PSD, Paulo Corrêa Jr, não se manifestaram.   

Para França (foto), a segmentação de alunos por nível de desempenho pode gerar estigmatização e aprofundar desigualdades. Para ele, cada estudante possui seu próprio tempo de aprendizagem, habilidades e competências que se desenvolvem de formas distintas. “Em um contexto marcado por redes sociais, cyberbullying e novas formas de discriminação impulsionadas pelas TICs, o risco de rotulação e preconceito é ainda maior. Estarei atento e em contato com professores para verificar a efetividade dessa nova diretriz”.

Solange é mais comedida. Acredita que é fundamental conhecer a fundo a proposta antes de rotulá-la, especialmente quando se trata de projetos educacionais como o Voar. “Não podemos ignorar que dentro do ambiente escolar existem crianças com diferentes níveis de dificuldade, e é necessário olhar com cuidado para essas diferenças sem discriminação”, afirma.

Para Solange, se o objetivo é fortalecer o aprendizado, que haja uma atenção especial para garantir que todos os alunos sejam estimulados de maneira adequada, respeitando o ritmo de cada um e evitando qualquer tipo de desestímulo.

“No caso do Projeto Voar, ele está sendo implementado em caráter piloto, em 140 escolas, e os alunos só se separam nas disciplinas de português e matemática quando houver necessidade. Nas demais matérias, os alunos permanecem com a turma original, o que demonstra um cuidado em manter a integração social e pedagógica.

Por isso, é necessário acompanhar e avaliar os resultados ao final do ano, garantindo sempre o bem-estar e o desenvolvimento dos estudantes. Caso os resultados sejam positivos, a expansão será bem-vinda. Se não, será preciso rever e encerrar o piloto, priorizando sempre a qualidade da educação. Estou acompanhando essas etapas e vou acompanhar durante todo esse processo”.

Paulo Correa Jr; Solange Freitas; Tenente Coimbra e Paulo Mansur

Vereadora

O Projeto Voar em Santos será implantado em duas escolas de morros santistas - a Professor João Otávio dos Santos (morro do São Bento - foto) e Professora Alzira Martins Lichti (no da Nova Cintra). Cláudia Alonso está apreensiva e fez duras críticas à proposta na tribuna da Câmara de Vereadoresna última terça-feira (24).

“Seriam os jovens de comunidades carentes e mais vulneráveis cobaias de uma testagem de adestramento intelectual? Estariam sendo estimulados a um voo raso, sem asas, à beira do precipício para um caminho sem volta no seu desenvolvimento sócio afetivo”.

O projeto Voar, instituído por uma portaria publicada no dia 4 de fevereiro no Diário Oficial de São Paulo, será aplicado a estudantes do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental em 147 escolas estaduais. Cláudia afirma que os pais estão preocupados. “A escolha é por vulnerabilidade, tirando das famílias mais carentes a possibilidade de entenderem o real processo pelo qual seus filhos vão passar?”, questiona.

Segundo o governo estadual, o objetivo é promover a redução das desigualdades educacionais através da recomposição e aceleração das aprendizagens de alunos que apresentam altas e médias defasagens em Língua Portuguesa e Matemática.

A proposta vai agrupar os estudantes em duas turmas distintas: as de nível 'adaptado', que reunirá alunos com altas e médias defasagens e proficiência abaixo do básico; e as turmas nível 'padrão', formadas por estudantes com baixa ou nenhuma defasagem e proficiência equivalente a adequado/avançado.

Especialista

Especialista em saúde mental, inclusão e diversidade, Cláudia Alonso, em entrevista aos Inconfidentes após seu pronunciamento em plenário ainda foi mais dura em relação ao projeto do secretário de Educação Renato Feder.

“Criança não é número, não é fração. Então, se a gente tá falando tanto de inclusão, isso pra mim dói. Essas crianças vão ser rotuladas. Isso vai gerar mais violência. Falam que é um projeto experimental. Nossas crianças e jovens vão servir de experimento? É isso?”, questiona a parlamentar santista.

Cláudia Alonso se manifestou na sessão da Câmara da última terça-feira    

Os termos

Cláudia Alonso vai mais além. Disse à Reportagem os professores foram orientados a não usarem termos pejorativos como a turma dos mais fracos, a turma dos inteligentes e dos bagunceiros para não gerar problema. Ela acredita que o projeto vai afetar a diversidade nas salas de aula podendo gerar problemas de convivência e socialização para um aprendizado colaborativo entre alunos. Ou seja, exclusão ou invés de inclusão.   

“Eu não consegui entender, sinceramente. Num processo de aprendizado real, você pede que um colega que tem até mais facilidade te ajudar. Isso faz parte do processo de inclusão. Deveria ser assim, deveria naturalmente ser assim. Isso é um retrocesso absurdo. É um assassinato. E nessa fase de idade, sexto ou nono ano, pré-adolescência, adolescência, que tantos nossos filhos sofrem. E as crianças e adolescentes querem se sentir aceitos no grupo entende?”. 

Assim como Cláudia Alonso, educadores de todo estado acreditam que, entre outros problemas, há risco de que os alunos da turma com currículo adaptado sejam alvo de bullying, sendo estigmatizados pelos colegas.

Indiano

O Projeto Voar é inspirado em um projeto indiano e os alunos foram selecionados para o ‘experimento’ de acordo com as notas mais recentes obtidas no Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp).

O Governo Estadual alega que a iniciativa visa auxiliar estudantes que não conseguem acompanhar suas turmas porque possuem nível de aprendizagem atrasado em relação aos colegas. São alunos que avançaram de ano, mas apresentam uma distorção entre a série que estão e o conhecimento que possuem.

A meta do projeto é criar condições para que o professor possa adaptar a aula pelo chamado “nível de proficiência” dos alunos e, assim, ajudar o estudante a recompor déficits de aprendizagem para que, num futuro breve, eles alcancem o nível esperado para sua série.

Comentários dos leitores

Carregando comentários…