Amor de Índio – uma bela poesia cantada
Por Roberto Canuto

Por Roberto Canuto
09.04.2026
Escolhi esse tema por causa da proximidade da data de 19 de Abril, o "Dia dos Povos Indígenas". Segundo Jorge Ben Jor, todo dia era dia de índio (canção que fez sucesso na voz de Baby Consuelo). Mas aqui falaremos de outra canção, de 1978, parceira de Beto Guedes e Ronaldo Bastos, como a do último artigo.
Essa bela obra é mais uma daquelas que eu chamaria de hino, que no caso se refere à simplicidade dos indígenas, que vivem em contato total com a natureza, mantendo a biodiversidade do planeta, protegendo-o naturalmente. Não é por acaso que a palavra "amor" é a primeira do nome desse poema maravilhoso, apesar de singelo.
Ele fala da paixão que os povos originários tem pelo seu povo, por sua cultura, pela mata, pelos rios, pelo sol, pela chuva e todos os elementos de nossa vida natural. Nessa letra é enfatizado também o amor pela companheira ou companheiro, seus entes mais próximos.
Me apaixonei por essa música como por outras do Clube da Esquina, também por ela mostrar uma versão "mais humana" que de costume numa sociedade comandada pelos brancos, pelo "progresso" como algo sempre bom e dado como indiscutível, mas que vem destruindo a Terra com uma ignorância e velocidade assustadoras, mesmo com a evolução da discussão sobre a preservação desses povos tão importantes e muitas vezes "inocentes e vítimas" na história do mundo.
Enfim, é preciso lembrar que o fato dos indígenas hoje usarem calção, vestido, utensílios e outras "vantagens" criadas pela sociedade modernizada, faz com que os preconceituosos de plantão e racistas convictos digam que se misturar com a cultura moderna faz desses nossos irmãos seres menos inteligentes, fracos culturalmente ou até mesmo "pessoas preguiçosas". Mas vamos deixar essa polêmica para outro momento, para analisar a letra de Ronaldo Bastos.
VAMOS CONHECER A LETRA DA MÚSICA E O QUE ELA NOS DIZ?
"Tudo o que move é sagrado e remove as montanhas com todo cuidado, meu amor" - A música inicia citando a "Criação": o autor lembra que Deus criou o ser humano, os animais, as plantas, os rios e mares, o vento, etc. Tudo isso tem de ser respeitado, protegido. Se a fé remove montanhas, quem tem fé o faz com o cuidado de quem ama.
"Enquanto a chama arder, todo dia te ver passar" - Quando se ama uma pessoa, até o simples fato de vê-la andar, dá prazer, mesmo que seja tido dia igual. Cada pequeno gesto desse alguém, traz felicidade.
"Tudo viver ao teu lado, com o arco da promessa no azul pintado pra durar" - Quem ama quer viver todas as situações ao lado de seu par. O "arco da promessa" é o arco-íris, citado nas escrituras como símbolo da promessa de que Deus jamais faria outro dilúvio, que matou tanta gente nos tempos antigos. A letra também diz que o arco-íris está pintado com todas as suas belas cores no azul do céu, pra durar bastante tempo.
"A abelha fazendo mel vale o tempo que não voou" - Esse inseto espetacular vive pouco se não for uma rainha e quase não voa, ficando o tempo quase todo numa colméia, mas ali faz algo tão maravilhoso como o mel, e, por isso compensa esse sacrifício.
"A estrela caiu do céu, o pedido que se pensou. O destino que se cumpriu de sentir seu calor e ser todo" - Quem ama, acredita na fantasia do pedido a uma estrela cadente e na possibilidade de ser feliz, como um destino a se cumprir, se entregando com paixão ao ser amado.
"Todo dia é de viver, para ser o que for e ser tudo." - Cada dia é importante para se entregar a esse destino e se sentir completo.
"Todo amor é sagrado e o fruto do trabalho é mais que sagrado, meu amor. A massa que faz o pão vale a luz do teu suor" - Além do amor ser importante e insubstituível, trabalhar, ou seja, fazer algo por sua comunidade também é algo que vale uma vida. O sacrifício, simbolizado pelo suor, pode ser visto com alegria e a beleza da luz refletida.
"Lembra que o sono é sagrado e alimenta de horizontes o tempo acordado de viver" - Outro belo verso! Todo ser humano que trabalha merece descanso e tem necessidade dele para sua saúde, mas também merece visualizar o horizonte de seus sonhos ou de uma vida melhor. A sociedade indígena sabe disso. Será que a sociedade da "economia de mercado" sabe?
"No inverno te proteger, no verão sair pra pescar, no outono te conhecer, primavera poder gostar, no estio me derreter, pra na chuva dançar e andar juntos" - Precisa explicar? Esse trecho é tão fantástico que resume a felicidade de quem ama. Quem ama vive tudo, as quatro estações. Se confunde com a própria natureza. Que talento, hein!
"O destino que se cumpriu de sentir seu calor se ser tudo!" - Pra encerrar os autores repetem uma frase que também resume o destino de quem ama, talvez pra lembrar que "o indígena vive o amor em plenitude", sem buscar o poder, o dinheiro, mas o amor, que por si só, vale toda uma vida".
Belas horas aos que amam os indígenas como irmãos! Aos que não... também!
Roberto Canuto é poeta, cantor, compositor e professor de arte

Comentários dos leitores
Carregando comentários…