Anoiteceu, o sino gemeu...Belas memórias de Natal e a realidade na canção de Assis Valente
Anoiteceu, o sino gemeu...Belas memórias de Natal e a realidade na canção de Assis Valente Por Roberto Canuto

Anoiteceu, o sino gemeu...Belas memórias de Natal e a realidade na canção de Assis Valente
Por Roberto Canuto
24/12/2025
Boas Festas (letra de Assis Valente)
Anoiteceu, o sino gemeu e a gente ficou feliz a rezar.
Papai Noel, vê se você tem a felicidade pra você me dar.
Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel.
Bem assim felicidade, eu pensei que fosse uma brincadeira de papel.
Já faz tempo que eu pedi, mas o meu Papai Noel não vem!
Com certeza já morreu ou então felicidade é brinquedo que não tem!
Minhas e nossas memórias de Natal
Desde que me conheço por gente, meu pai tinha um "long play" azul marinho, foto de uma árvore de Natal que continha todas as canções natalinas feitas até os anos 60, talvez. Todas eram só tocadas, sem vocal, mas com um teclado maravilhoso, num eco doce que transformava o ambiente.
Dias antes do Natal ele colocava para tocar numa sonata de meu Tio Nelson com "som stereo hi-fi" (claro que não tem nada a ver com conexão de internet), o que tinha de melhor nos anos 70.
Era tão gostoso o "clima de Natal" que essas músicas geravam, que parecia que as casas, as árvores da calçada e até o céu eram mais coloridos de dia, sem contar as lâmpadas coloridas à noite.
Zezé cantor e Jandira, meus pais, ficavam cantando as letras das músicas e era uma época mágica! Como era bom ser criança na época do Natal.
O tal vinil existe até hoje e é tocado por minha tia, mas meu pai e minha mãe já viajaram para outros mundos mágicos.
Entre "Noite Feliz", "Jingle bell" e outras havia a linda "Boas Festas", com uma melodia especial e marcante. Aos poucos fui aprendendo a letra e criava na mente a história de uma criança que, após rezar, colocava dúvidas sobre Papai Noel, reclamava a falta dele e de brinquedos, contando sobre a própria pobreza. Mas como criança, achava que Papai Noel ou Jesus mudariam a vida da tal criança.
Quem foi Assis Valente?
Nascido em Santo Amaro-BA, Assis Valente teve uma infância estranha, trabalhando em semiescravidão, mas lia Castro Alves e outros poetas. Trabalhou em circo como declamador e comediante.
Aprendeu o ofício de protético e, no Rio de Janeiro exerceu essa função, tendo como clientes sambistas como Lamartine Babo. Compôs sua primeira música, um samba para Aracy Côrtes, chamado "Tem francesa no morro", um tema humorístico.
Para Carmen Miranda compôs "Good bye boy", "Camisa listrada" e outras. E criou mais sucessos como "Brasil pandeiro", gravado depois pelos Novos Baianos. Mas Assis era uma pessoa depressiva com seus problemas amorosos e financeiros, que o levaram a se suicidar na terceira tentativa.
Como aconteceu a canção ‘Boas Festas”?
Assis Valente compôs esse belo tema de Natal em 1932 num quarto de hotel, olhando para a gravura de uma menina triste que esperava seu presente, sentada numa cama com seus pequenos sapatos. Em depressão, ele não acreditava em Contos de Fada.
Talvez o autor estivesse se comparando à menina do quadro, pois a personagem reza feliz, acreditando no futuro. Depois ela pede a Papai Noel a felicidade. Em outro momento percebe que se engana ao pensar que todos fossem filhos do bom velhinho e a felicidade fosse uma doce brincadeira de papel, fácil de viver.
Enfim ela se decepciona ao esperar, esperar e nunca receber seu herói. O brinquedo felicidade pra ela não existe mais. Assim também o autor talvez não esperasse por uma divindade que não lembrou dele e suas dificuldades.
Mesmo assim Assis Valente fez muita gente viver momentos felizes com a bela canção "Boas Festas", como eu na infância e depois lembrando dessa época com emoção.
Só que o mundo precisa melhorar muito para viver a fraternidade do Natal e as Boas festas todos os dias e isso não é jargão, mas a pura realidade. Toda criança deveria ganhar seus "presentes" dos próprios pais, que deveriam ter direito a trabalho e renda o suficiente para bancar o lazer, a casa, a saúde, a educação.
Enquanto a sociedade gerar essas grandes diferenças e carências sociais gritantes, Papai Noel não poderá atender muitas crianças do mundo e a felicidade continuará não sendo brinquedo.
Belas horas aos que acreditam no Papai Noel da partilha e da justiça. Aos que não...também!
Roberto Canuto é poeta, cantor, compositor e professor de arte.

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