“Antes do Fim, o Agora”: quando a literatura traz a finitude e o luto para o palco da Tarrafa Literária

Por Cidinha Santos
05.11.2026
Foto: Cidinha Santos
A hora de falar sobre a finitude é agora, antes que a urgência da vida nos impeça de refletir sobre o seu encerramento. Em um mundo contemporâneo focado na velocidade e no produtivismo, debater a perda e a dor tornou-se um ato de resistência e sensibilidade.
Foi com essa premissa que a décima oitava edição da Tarrafa Literária, na quinta-feira, 29 de outubro, reuniu, no Teatro Guarany, as escritoras Camila Appel e Natalia Timerman para a mesa intitulada “Antes do Fim, o Agora”. Sob a condução sensível e afiada do historiador e também escritor Lindener Pareto Júnior, o encontro transformou a literatura e a psicanálise em pontes para encarar o luto, a memória e as transformações inevitáveis do tempo.
O encontro ecoou as reflexões mais profundas das obras recentes das autoras, que têm investigado com maestria as fronteiras entre a experiência pessoal, a dor do adoecimento e o refúgio na palavra escrita.
Natalia Timerman, romancista e psiquiatra, trouxe a perspectiva de como a ficção e a narrativa biográfica dão contorno às ausências e como escrever sobre o luto não significa fechar ciclos, mas reorganizar a própria identidade diante da saudade.
Ela tem se consagrado como uma das vozes mais potentes da literatura contemporânea ao esmiuçar os afetos e os abismos das despedidas.
Em livros como “As Pequenas Chances” (Todavia) — onde narra o processo de adoecimento e morte do pai — e em seus desdobramentos literários mais recentes voltados à figura materna e à perda de identidade e memória, como no romance “Antes Que Apague” (Companhia das Letras), Natalia demonstra que a ficção também pode dar forma à verdade da experiência.
Já Camila Appel, com ampla experiência na abordagem da finitude e dos cuidados paliativos, destacou a necessidade de desmistificar o pavor da morte, encarando-a como parte incontornável do ciclo humano.
Ela traz para a conversa uma bagagem construída à frente da coluna “Morte sem Tabu”, da Folha de S. Paulo, e consolidada em sua produção literária, como no livro “Enquanto você está aqui” (Fósforo), com posfácio de Ana Claudia Quintana Arantes, médica geriatra com trabalho pioneiro em cuidados paliativos – abordagem humanizada da morte e do luto.
Camila contou que escreve movida pelo pânico ancestral e contemporâneo de perder os pais e pela vivência direta nos corredores hospitalares e cuidados paliativos – escreve com uma urgência prática e humanitária. Para ela, debater o fim é um modo de desarmar o pavor: “A hora certa de falar da morte é agora.
”A meu ver, seus textos e livros funcionam como verdadeiros mapas de afeto e sobrevivência emocional para os momentos de maior vulnerabilidade humana. Para a autora, falar abertamente sobre o encerramento da vida é um caminho para resgatar a presença absoluta quando nos confrontamos com a brevidade da vida.
A mediação de Lindener Pareto Júnior deu cadência e densidade, conduzindo o diálogo, costurando as particularidades das escritas de Camila e Natalia, explorando como o ato de narrar a finitude devolve ao indivíduo a soberania sobre a própria história. O mediador também falou da perda recente de sua mãe, sua confidente, levando ainda a plateia a uma profunda reflexão sobre o valor da memória.
Na mesa "Antes do Fim, o Agora", o público presente no Teatro Guarany, em Santos, e os espectadores que acompanharam a repercussão do festival por meio das redes sociais e do Instagram oficial da Tarrafa Literária foram convidados a refletir sobre a temporalidade.
Conforme pontua a curadoria no texto de divulgação da 18ª Tarrafa Literária “há livros que apenas ocupam espaço na estante, e há aqueles que ficam na gente”. Os trabalhos de Camila Appel e Natalia Timerman pertencem indiscutivelmente à segunda categoria.
Eles nos lembram que a literatura não tem o poder mágico de impedir a morte ou apagar a dor da perda, mas possui a grandiosa capacidade de nos acolher no escuro, provando que, enquanto houver palavras para nomear o luto, nunca estaremos totalmente sós diante do fim.

Cidinha Santos é jornalista, assessora de comunicação do Coletivo Feminista Classista Maria vai com as Outras e dos movimentos sociais, Promotora Legal Popular e membra da Frente pela Legalização do Aborto, Baixada Santista e cantante do Grupo Vozes.

Comentários dos leitores
Carregando comentários…