Aos companheiros que amanheceram tristes

Fabi Mesquita
05.10.2026
Foto: Agência Brasil
Eu sei que hoje o país parece menor.
Não porque caiba menos gente nele, mas porque dói descobrir quantas pessoas aceitaram como horizonte aquilo que passamos tantos anos tentando impedir que voltasse a existir. Há resultados eleitorais que não chegam como números. Entram em casa, sentam-se à mesa, pesam no peito e nos obrigam a encarar uma pergunta incômoda: como chegamos até aqui?
Mas eu queria escrever justamente para quem está cansado.
Para quem fez campanha, conversou com vizinhos, atravessou ruas, brigou com a família, distribuiu panfletos, defendeu a democracia até perder a voz e, diante da urna aberta, sentiu que metade do país havia escolhido o lado errado da História.
Talvez seja preciso dizer uma coisa antes de qualquer outra: isto nunca foi apenas uma disputa entre direita e esquerda.
Conheci gente de centro-direita, até de direita. Pessoas com quem discordo profundamente sobre economia, Estado, segurança pública, impostos, costumes, prioridades. Ainda assim, sentávamos à mesma mesa porque havia um chão comum que nenhuma diferença política conseguia romper.
O respeito pela vida. A recusa ao autoritarismo. A convicção de que tortura não é método de governo, de que ditadura não é nostalgia aceitável, de que o adversário político continua sendo humano, de que nenhuma democracia sobrevive quando o ódio vira programa.
Podemos divergir sobre os caminhos para construir um país.
O que não pode virar divergência é a própria humanidade.
Existe uma fronteira ética anterior às ideologias. Ela passa pelo corpo de quem apanha, pela fome de quem espera, pela mãe que enterra um filho, pela mulher ameaçada, pelo negro perseguido, pelo indígena expulso da própria terra, pela criança que cresce aprendendo que certas vidas valem menos.
Quando a política atravessa essa fronteira, já não estamos discutindo projetos diferentes de sociedade. Estamos decidindo que espécie de sociedade ainda merecemos ser.
Por isso, companheiros, nossa tristeza é legítima.
Só não deixemos que ela seja fértil para o desânimo.
Há um segundo turno porque a História ainda não terminou de escrever esta página.
E talvez nossa tarefa agora seja menos gritar para quem já concorda conosco e mais reencontrar aquilo que nos fez entrar nesta luta. Conversar sem arrogância com quem ainda pode escutar. Procurar as brechas onde o medo foi confundido com esperança, onde a mentira ganhou aparência de verdade, onde alguém votou contra si mesmo acreditando estar se protegendo.
Não precisamos transformar ninguém em inimigo para combater aquilo que é inimigo da democracia.
Também não precisamos suavizar o intolerável.
Há momentos em que a delicadeza consiste justamente em não negociar princípios.
Então recolham os cartazes molhados, enxuguem os olhos, durmam algumas horas, abracem quem esteve ao lado de vocês. Amanhã haverá novamente uma rua, uma conversa, uma casa, uma praça, uma universidade, um ônibus, um grupo de família, algum lugar onde uma palavra ainda poderá deslocar outra palavra.
A democracia sempre dependeu mais dessas pequenas insistências do que dos grandes discursos.
Talvez metade do país tenha escolhido ontem um caminho que nos assusta.
A outra metade, porém, continua aqui.
Respirando.
Pensando.
Organizando-se.
Amando este país o suficiente para não entregá-lo ao ódio.
E enquanto houver gente capaz de distinguir adversário de inimigo, autoridade de autoritarismo, fé de fanatismo, liberdade de violência, ainda haverá alguma coisa para defender.
Hoje podemos estar tristes.
Mas tristeza também é uma forma de compreender o tamanho do que amamos.
Que ela nos devolva à rua não como quem busca vingança, mas como quem sabe exatamente o que não está disposto a perder.
Com amor, Fabi Mesquita

Fabi Mesquita – Jornalista cansada de explicar o óbvio, pedagoga que ensina até quem acha que não precisa aprender, psicanalista que escuta até o silêncio gritar. Mestre em Educação, Arte e História da Cultura porque um título só seria pouco, e artivista de carteirinha — afinal, transformar indignação em pauta e política cultural é um talento que não vem com manual.

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