Após intenso debate, Câmara de Santos aprova ciclovia com o nome de Armênio Mendes
De autoria do presidente do Legislativo, Adilson Jr. (PP), a proposta homenageia o empresário da construção civil falecido em 2017

Sandro Thadeu
18.09.2026
Imagens: Reprodução/Facebook e Divulgação
A Câmara de Santos aprovou, na sessão da última terça-feira (15), o projeto de lei para batizar a ciclovia da Avenida Afonso Pena com o nome do empresário da construção civil e cônsul honorário de Portugal no Município, Armênio Mendes, falecido em outubro de 2017, aos 73 anos.
Contudo, a votação motivou um longo debate entre os parlamentares acerca do legado do homenageado, da influência do poder econômico na dinâmica urbana e dos critérios adotados para a denominação de espaços públicos.
De autoria do presidente do Legislativo, Adilson Junior (PP), a proposta para nomear essa ligação entre as avenidas Conselheiro Nébias e Governador Mario Covas Junior, que percorre seis bairros, partiu de uma sugestão da Associação Brasileira de Ciclistas (ABC). Agora, o texto segue para a sanção do prefeito Rogério Santos (Republicanos).
Divergências na tribuna
Durante a discussão, Débora Camilo (PSOL) se posicionou contra a proposta por entender que o empresário simboliza como a "força do poderio econômico" moldou a política habitacional ao longo das últimas décadas de Santos, resultando no crescimento da especulação imobiliária no Município.
"Concordo que é preciso homenagear quem fez pela Cidade, mas a gente tem que dizer a cidade fez muito por ele, principalmente para o Grupo Mendes", destacou a vereadora, relembrando que a empresa injetou cerca de R$ 130 milhões na urbanização da Ponta da Praia, bairro onde a construtora está erguendo duas torres com apartamentos de alto padrão que variam de 218 a 500 metros quadrados.
Em contrapartida, o autor do projeto de lei disse respeitar o posicionamento ideológico da colega e defendeu a trajetória de sucesso de Armênio. Adilson pontou que o empresário chegou de Portugal ao Brasil, aos 18 anos. Seis anos depois, no Distrito de Vicente de Carvalho, onde morava com um tio, abriu uma oficina de bicicletas e um estacionamento 24 horas para os trabalhadores que utilizavam esse meio de transporte na região.
Aos 30 anos, fundou a Miramar Construtora, uma das empresas que viriam a comprar o Grupo Mendes. Além de construir diversos edifícios, o empresário ergueu hotéis, o antigo Centro de Convenções e três shoppings na região: Miramar e Praiamar, em Santos, e Brisamar, em São Vicente.
"Seria bom que histórias como essa inspirassem tantas e tantos jovens e adolescentes. É uma pessoa que veio do chão de fábrica e se tornou um baita de empreendedor, que conseguiu prosperar e, realmente, montou o seu império e o seu patrimônio com muito trabalho, suor e muita perseverança", destacou.
Apoio e desenvolvimento econômico
A homenagem também foi defendida por outros parlamentares. Fábio Duarte e Allison Sales (ambos do PL) enfatizaram os investimentos do empresário na geração de empregos.
Já o líder do Governo, Cacá Teixeira (PSDB), destacou a simplicidade de Armênio e as transformações e valorizações urbanas proporcionadas pelos empreendimentos do grupo.
Antônio Carlos Banha Joaquim (PSD) complementou ao mencionar que o mérito desse singelo gesto do Parlamento seria uma forma de lembrar a ousadia dos investimentos feitos pelo construtor na Cidade e do quanto ele contribuiu para iniciativas e ações da comunidade portuguesa. "Não estamos aqui para medir o bolso de ninguém, muito menos dizer se o cidadão está abastado ou se é menos favorecido", frisou.
Na mesma linha, Sérgio Santana (PL) lembrou que foi o autor da lei que alterou o nome da Rua Guaiaó, no bairro da Aparecida, para Alameda Armênio Mendes, onde está localizada a sede do conglomerado fundado pelo português. A via está sendo reurbanizada com recursos do grupo empresarial.
"Falar do Armênio é falar de economia, de geração de empregos e de uma série de outras coisas que levam a cidade de Santos ao que ela é hoje. A alameda será uma rua referência", destacou.

Projeção da Alameda Armênio Mendes após a reforma que está em andamento
Culto à personalidade
Por outro lado, as críticas também partiram de outros parlamentares. Decano da Câmara, Benedito Furtado (PSB) votou favoravelmente à proposta por respeitar os projetos de lei de homenagem apresentados pelos colegas, embora tenha ressalvado ser contrário ao culto a personalidades.
Já Marcos Caseiro (PT) foi contrário ao projeto de lei por avaliar que o empresário já possui reconhecimento suficiente na Cidade, citando como exemplo a via da Aparecida que ganhou o nome do empresário, deixando de fazer referência a Guaiaó, nome indígena da Ilha de São Vicente, formada por Santos e São Vicente.
"Tenho medo de ter muitas coisas com o nome do Armênio. Daqui a pouco vai chegar alguém de fora e perguntar se a cidade foi fundada por ele", ironizou.
Dois pesos, duas medidas
Chico Nogueira (PT), que deu um dos três votos contrários à proposta de Adilson, justificou que respeita a trajetória e o legado do empresário, mas entende que equipamentos e espaços esportivos deveriam receber nomes de atletas ou incentivadores do esporte.
Além disso, lamentou o fato de o Legislativo não ter tido o mesmo empenho "para homenagear um herói da brasilidade e do trabalhador brasileiro", em maio deste ano, quando os parlamentares rejeitaram o projeto de lei do petista para alterar o nome da Rua Tiro Onze para Rua Chaguinhas.
A ideia seria eternizar o nome do cabo da monarquia brasileira em terras brasileiras Francisco José das Chagas, o Chaguinhas, um dos responsáveis por um levante realizado em Santos, em junho de 1821, após atrasos no pagamento de salários.
Ele fazia parte do Primeiro Comando dos Caçadores, corporação formada majoritariamente por homens negros, mestiços e indígenas. O grupo sofria apartheid ético-social em relação aos soldados brancos lusitanos e luso-brasileiros, que tinham remuneração maior.
Após ser preso, Chaguinhas foi condenado a forca por ser um dos líderes da mobilização. Por três vezes, tentaram executá-lo no Largo da Forca, a atual Praça da Liberdade, na região central de São Paulo, mas as cordas se romperam nessas tentativas. Apesar do clamor popular para libertá-lo, o cabo morreu após ser linchado em praça pública, em 20 de setembro de 1821. O assassinato foi testemunhado pelo padre Antônio Diogo Feijó, que, anos mais tarde, seria um dos regentes do império brasileiro.

Francisco José das Chagas, o Chaguinhas

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