Assédio eleitoral alimenta comportamento fascista nas redes em meio a dez mortes
O site Pipoca Moderna fez, esta semana, um excelente apanhado sobre a onda fascista que tomou conta das redes sociais pós eleições do último domingo (25), que levou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao seu quarto mandato

Reprodução do texto do Pipoca Moderna
31.10.2026
Foto: Reprodução redes sociais/Catarina Maull/Debate Jurídico
O site Pipoca Moderna fez, esta semana, um excelente apanhado sobre a onda fascista que tomou conta das redes sociais pós eleições do último domingo (25), que levou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao seu quarto mandato. Os Inconfidentes reproduz abaixo, na íntegra, o excelente apanhado de fatos que envergonham o país que vive salvando a democracia. Confira:
A perseguição a eleitores de Luiz Inácio Lula da Silva ganhou uma dimensão que ultrapassa a disputa política após a reeleição do presidente no domingo (25/10). Nas redes sociais, a humilhação de adversários virou conteúdo para influenciadores com milhares de seguidores, enquanto parlamentares incentivam boicotes comerciais e demissões por preferência eleitoral. Um humorista perdeu trabalho e recebeu ameaças depois de ser insultado por um deputado federal. Uma criança de nove anos foi constrangida por uma influenciadora que filmou a cena para o Instagram. Fora das telas, o governo federal contabilizou 45 episódios de violência política entre sábado (24) e quarta-feira (28), com 47 vítimas e dez mortes, três delas de indígenas. O balanço reúne crimes com possível motivação eleitoral que ainda estão sob investigação. A escalada também levou o Ministério Público do Trabalho a registrar mais de 3.500 denúncias de assédio e pedir a responsabilização da Meta pela circulação de conteúdos discriminatórios.
Um dos episódios mais reveladores dessa transformação do constrangimento em espetáculo aconteceu no Mercado dos Peixes, em Fortaleza. A influenciadora Valéria Diniz, de 25 anos, estava com amigas quando Matheus, de nove, aproximou-se da mesa para vender balas e bombons. Em vez de simplesmente recusar a compra, Valéria decidiu perguntar sobre a preferência política da família e gravar a abordagem. Depois que o menino mencionou Lula, ela mandou que fizesse o gesto associado ao presidente. “Votou em quem? No Lula? Faça o L. Pronto. Não quero, não. Obrigada”, disse, sob risadas das acompanhantes.
O vídeo foi publicado nos Stories do Instagram na quarta-feira (28), acompanhado de uma provocação: “Vai na mamãe e manda ela fazer o L”. Matheus perdeu a mãe e mora com a avó, Inês de Maria do Nascimento, em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza. A criança é autista e vende doces para ajudar nas despesas familiares. Não há indicação de que Valéria soubesse da morte de sua mãe. A avó contou à TV Cidade que o neto retornou abalado, sem conseguir explicar o que havia acontecido. “Ele não disse nada. Ele não falou, mas ficou com os olhos cheios de lágrimas”, relatou.
A repercussão mobilizou motociclistas, entregadores e moradores da região, que foram à casa de Matheus na quinta-feira (29), compraram seus produtos e levaram presentes e alimentos. Valéria, que havia manifestado apoio a Flávio Bolsonaro nas eleições, publicou um pedido de desculpas e afirmou que não pretendia humilhar o menino. Seu perfil, que reunia cerca de 70 mil seguidores, saiu do ar, sem esclarecimento sobre a suspensão.

Deputado insulta humorista ameaçado
A retaliação pública atingiu também Bruno Motta, conhecido por seu trabalho no stand-up e pela criação de “Gongada Drag”, espetáculo que reúne artistas drag queens e convidados em apresentações de humor. Na quarta-feira (28), o comediante de 46 anos contou no X que havia perdido um contrato para atuar como mestre de cerimônias num evento empresarial por causa de suas manifestações políticas. Segundo ele, o cachê pagaria dois meses das despesas de sua produção. O episódio o assustou pela primeira vez em 25 anos de carreira. Sua mãe telefonou chorando e relembrou os tempos da ditadura militar, preocupada com o futuro do filho.
O relato foi compartilhado pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), parlamentar mais votado do Brasil e um dos principais nomes do bolsonarismo nas redes sociais. Com mais de 22 milhões de seguidores no Instagram, Nikolas respondeu à perda profissional com um insulto: “Os fascistas não querem sustentar mais vocês. Bem vindo a nova era, petista safado”. O deputado também republicou a reclamação do humorista nos Stories, com uma provocação sobre seu medo.
A exposição foi seguida por milhares de mensagens dirigidas ao artista. Em entrevista à jornalista Larissa Ricci, do Metrópoles, Bruno relatou ameaças de agressão caso fosse reconhecido na rua ou durante suas apresentações. “Ameaças de violência quando me encontrarem ou forem nos shows. Tem de tudo”, afirmou. O comediante, que já trabalhou no “Furo MTV”, participou do “Improvável”, dos Barbixas, e se apresentou em programas de Jô Soares e Fábio Porchat, criticou o comportamento do parlamentar. “Não acredito que é isso que um deputado eleito deva fazer”, declarou ao UOL.

Políticos incentivam demissões
A manifestação contra Bruno Motta aconteceu enquanto Nikolas defendia uma campanha para que eleitores de direita deixassem de comprar produtos e contratar serviços de empresas e profissionais associados à esquerda. O deputado chegou a desafiar comerciantes a identificar publicamente suas preferências políticas, com uma imagem que mostrava uma bandeira do PT na fachada de uma loja. “Você que é comerciante de esquerda. Desafio lançado: coloque a bandeira do PT no seu estabelecimento”, escreveu.
Outros políticos passaram da convocação ao boicote para o incentivo explícito à demissão. O vereador de Curitiba e deputado federal eleito Guilherme Kilter (Novo-PR) publicou um vídeo orientando empresários a dispensar funcionários petistas. “Se você precisa fazer um corte de gastos ou uma reestruturação da sua empresa, comece pelos petistas”, declarou. O Ministério Público do Trabalho do Paraná recomendou que ele retirasse as publicações e se retratasse. Kilter contestou a medida e alegou imunidade parlamentar.
Em São Paulo, o suplente de deputado federal Victor Ruiz (PL) também estimulou empresários a investigar as redes sociais dos empregados para identificar quem havia votado em Lula. Numa das publicações, orientou a demissão de funcionários que tivessem feito o “L”. Depois da repercussão, passou a recomendar que os empregadores não revelassem a motivação política dos desligamentos.
Recorde de denúncias e reação da Justiça
O Ministério Público do Trabalho recebeu 3.529 denúncias de assédio eleitoral em 2026 até a tarde de quinta-feira (29), superando os 3.373 registros de todo o processo eleitoral de 2022. Somente em outubro foram aproximadamente 2,7 mil denúncias, concentração que levou o governo federal a organizar uma força-tarefa envolvendo órgãos trabalhistas, eleitorais e de segurança pública.
Em Fortaleza, a Justiça do Trabalho determinou a reintegração de pelo menos 22 funcionários da fábrica de confecções Gout Jeans, após denúncias de dispensa discriminatória no primeiro dia útil depois da eleição. O Ministério Público apresentou gravações, fotografias e informações sobre cartazes depreciativos espalhados no ambiente de trabalho. A decisão liminar ordenou o retorno dos empregados em até 48 horas, sob multa de R$ 5 mil por trabalhador não reintegrado, além de exigir uma retratação pública. O proprietário da empresa, Gutemberg Bittencourt, negou as acusações e afirmou que contestará o processo.
Redes transformam discriminação em engajamento
A dimensão digital da campanha entrou na mira do Ministério Público do Trabalho. Na quinta-feira (29), o órgão ajuizou uma ação civil pública contra a Meta, responsável pelo Instagram, Facebook e Threads, pedindo R$ 50 milhões por danos morais coletivos e a remoção das publicações que incentivam perseguição profissional.
O processo apresenta um dado sobre o alcance dessas mensagens: apenas quatro publicações de um perfil verificado, com 3,8 milhões de seguidores, somavam mais de dois milhões de curtidas. Segundo os procuradores, parte do conteúdo não se limita a manifestações de opinião política. Os vídeos ensinam empresários a identificar eleitores, expõem trabalhadores ao ridículo e celebram a perda de empregos.
A ação também responsabiliza os sistemas de recomendação das plataformas pela ampliação do alcance dessas publicações. Recursos como o Explorar e os Reels sugeridos distribuem conteúdo conforme sua capacidade de produzir interações. Para os procuradores, a empresa tem recursos para identificar e combater publicações discriminatórias, mas não os utiliza adequadamente nesse caso.
A Justiça do Trabalho de São Paulo acolheu o pedido de urgência e determinou que a Meta remova as postagens identificadas em até 24 horas, sob multa de R$ 500 mil por conteúdo mantido. A decisão também exige que a empresa interrompa sua recomendação pelos algoritmos e informe os usuários brasileiros sobre a proibição do assédio eleitoral. O pedido de indenização de R$ 50 milhões ainda será julgado.
Médico anuncia recusa a pacientes petistas
A discriminação também chegou à área da saúde. O cardiologista Clederson Henry Dina, que realiza atendimentos no Hospital Israelita Albert Einstein, publicou no Instagram uma mensagem contra eleitores do PT. “Não atendo petistas vagabundos”, escreveu. Em outra declaração, afirmou dispor de meios para recusar pacientes de acordo com a preferência eleitoral, sem explicar como identificaria o voto de quem procurasse atendimento.
O hospital repudiou a manifestação e informou que o episódio estava sob análise interna. O Código de Ética Médica proíbe qualquer forma de discriminação no exercício da profissão.
Outro episódio levantou suspeitas de retaliação dentro do serviço público. A socióloga Silvana Pereira Gimenes, que tem paralisia cerebral, foi exonerada de um cargo de coordenação na Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência do governo paulista três dias depois de criticar um comentário capacitista de Flávio Bolsonaro sobre Lula. A administração estadual atribuiu a saída a ajustes administrativos, sem detalhá-los.

Estrelas vermelhas e o precedente nazista
As listas de boicote também levaram à proposta de identificar estabelecimentos de comerciantes petistas com estrelas vermelhas. Em Teresópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro, o advogado Klauss Fins defendeu a iniciativa num vídeo divulgado após a eleição. A CNN Brasil confirmou a circulação de listas de lojas associadas a eleitores de Lula e registrou o incentivo à identificação das fachadas.
O método de identificação para exclusão econômica tem um precedente histórico conhecido. Em 1º de abril de 1933, o regime nazista organizou um boicote nacional contra estabelecimentos comerciais de judeus na Alemanha. Integrantes das tropas de choque se posicionaram diante de lojas e escritórios para afastar clientes, enquanto vitrines recebiam inscrições antissemitas e símbolos de identificação. A campanha é documentada pelo Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos como uma das primeiras ações coordenadas do regime contra a população judaica.
A comparação com esse método foi feita por representantes políticos e comerciantes que denunciaram os boicotes brasileiros. A semelhança está na exposição pública de pessoas para promover sua exclusão comercial.
Dez mortes e uma jovem esfaqueada
As hostilidades nas redes acontecem paralelamente a uma série de ataques físicos registrados no período eleitoral. O levantamento apresentado pelo Ministério da Justiça na quarta-feira (28) identificou 45 ocorrências e 47 vítimas entre os dias 24 e 28 de outubro. Dez pessoas morreram, incluindo três indígenas. O governo também contabilizou atropelamentos intencionais, agressões, esfaqueamentos, ataques com armas de fogo e denúncias de violência policial. A motivação de cada crime e as responsabilidades individuais ainda precisam ser estabelecidas pelas investigações.
Um dos casos mais violentos aconteceu em Umarizal, no interior do Rio Grande do Norte. Clara Thaís Silva Maia, de 18 anos, foi atacada pelo namorado após comemorar a vitória de Lula e de outros candidatos de esquerda. Segundo apuração de Letícia Guedes, do Metrópoles, Eduardo Ronald Ferreira, também de 18 anos, teria se revoltado com a derrota de Flávio Bolsonaro e desferido pelo menos quatro golpes de faca no pescoço da jovem.
Clara foi socorrida em estado grave, passou por cirurgia e ficou internada na UTI de um hospital em Mossoró, com ferimentos que atingiram sua traqueia. Ela sobreviveu e apresentou melhora, conseguindo respirar sem aparelhos e caminhar alguns passos. O agressor foi preso e teve a prisão preventiva decretada. A investigação busca esclarecer as circunstâncias do crime e a motivação apontada pela defesa da vítima.
O ministro Guilherme Boulos anunciou que o governo acompanhará as investigações dos ataques registrados no período eleitoral. “Não pode ser pretexto para o cometimento de crimes, para agressões. Não pode ser pretexto para assassinatos”, declarou durante a apresentação das medidas federais.

Indígenas recebem ameaças de envenenamento
Em Tacuru, no Mato Grosso do Sul, dois servidores municipais foram afastados depois da divulgação de áudios que sugeriam envenenar a água consumida por indígenas Guarani Kaiowá. A conversa ocorreu após o resultado da eleição presidencial e relacionava o voto das comunidades à vitória de Lula. Numa das gravações, um homem defendeu colocar veneno na água para matar os moradores, tratados como “pragas”. A Polícia Federal e o Ministério Público Federal investigam o caso.
O temor atingiu diretamente a aldeia Sassoró, onde famílias passaram a desconfiar da água fornecida por caminhões-pipa. O prefeito Rogério Torquetti (PSDB) confirmou que os envolvidos são funcionários municipais e instaurou procedimentos administrativos. Segundo a prefeitura, não há comprovação de contaminação, e o servidor que fez a ameaça não trabalha diretamente na distribuição de água. A situação também levou órgãos federais a cobrar garantias para a continuidade do abastecimento.
A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) relatou outras agressões contra comunidades Guarani Kaiowá. Entre as denúncias está o incêndio da casa da rezadeira Ñandesy Roberta, de 90 anos, na aldeia Jaguapiré, também em Tacuru, na quinta-feira (29). Segundo a organização, o fogo destruiu a residência e instrumentos sagrados utilizados nas cerimônias tradicionais. As circunstâncias e a suspeita de ação criminosa estão sob investigação.
Em Avaí, no interior de São Paulo, outro homem gravou mensagens com insultos contra indígenas que teriam votado em Lula e sugeriu buscar a ajuda de um conhecido na prefeitura para prejudicá-los. A Apib pediu investigação às autoridades federais e estaduais. O autor das mensagens posteriormente pediu desculpas e alegou embriaguez. Não há comprovação de que servidores ou policiais tenham atendido às suas sugestões.

Polícia Federal acionada
A reação também alcançou o Congresso. Deputados do PT acionaram a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal para solicitar uma investigação nacional sobre as listas de boicote e o incentivo à demissão por preferência eleitoral. Os parlamentares pediram que fosse apurada a possibilidade de coordenação entre os responsáveis por campanhas semelhantes em diferentes estados, hipótese ainda não comprovada.
O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, também defendeu que o Ministério Público avalie medidas contra Nikolas Ferreira pela campanha de boicotes. O parlamentar, por sua vez, sustenta que consumidores têm liberdade para escolher onde gastar seu dinheiro.
Da humilhação à solidariedade
Em contrapartida contra o assédio, punição e constrangimentos eleitorais, iniciativas de esquerda passaram a oferecer apoio aos atingidos. Além da mobilização em favor do menino Matheus, consumidores começaram a divulgar listas de restaurantes e outros negócios para incentivar sua frequência, em resposta às campanhas de boicote. Entre os estabelecimentos citados estão os de Bel Coelho, Janaína Torres e Rodrigo Oliveira, profissionais conhecidos da gastronomia brasileira.
Bel Coelho defendeu uma resposta positiva aos ataques, enquanto Janaína Torres criticou a elaboração de listas de estabelecimentos conforme a preferência política dos proprietários. Rodrigo Oliveira afirmou que continuará recebendo clientes independentemente de suas posições partidárias.
Bruno Motta também decidiu utilizar sua visibilidade para divulgar o trabalho de pessoas prejudicadas por retaliações políticas. Nesta sexta-feira (30), o humorista abriu espaço em seu perfil do X para currículos e sites profissionais, convidando trabalhadores que perderam empregos ou contratos por suas opiniões a compartilhar suas informações.
“Se você foi demitido ou boicotado por questões políticas, poste aqui seu currículo, seu site. Repostarei todos”, escreveu.
Quando a crueldade vira virtude
Os episódios expõem uma crise de natureza ética e moral. Uma criança não precisa ter participado de uma eleição para se tornar alvo de humilhação. Um trabalhador não precisa cometer qualquer infração profissional para perder um contrato. Basta que sejam associados ao lado considerado inimigo. A escolha partidária passa a funcionar como justificativa para todo o tipo de violência.
O psicólogo Albert Bandura estudou esse mecanismo e o chamou de “desengajamento moral”. Em artigo publicado em 1999 na revista científica Personality and Social Psychology Review, explicou como pessoas podem praticar atos cruéis sem entrar em conflito com a própria consciência. Entre os mecanismos estão a transformação de uma agressão em suposto ato de justiça, a minimização de suas consequências e a transferência da culpa para a vítima. O agressor deixa de se perceber como responsável pelo sofrimento provocado e passa a interpretar sua conduta como uma reação legítima ao comportamento do outro.
É o que permite apresentar a perda de um emprego como punição merecida, transformar o constrangimento de uma criança numa brincadeira e justificar a exclusão de comerciantes como demonstração de fidelidade política. O sofrimento deixa de representar um limite moral e se transforma em motivo de satisfação para quem considera a vítima integrante de um grupo adversário.
A falência moral está nessa inversão de valores. Não se trata apenas da existência de pessoas intolerantes, mas da disposição de converter a intolerância em virtude pública. O que antes precisaria ser escondido ou justificado passa a ser exibido diante de milhares de espectadores como prova de coragem, convicção e pertencimento.
O nome histórico desse método é fascismo
A identificação de inimigos internos, a organização de campanhas para excluí-los economicamente e a legitimação da intimidação como instrumento político pertencem ao repertório histórico do fascismo. São práticas fascistas, independentemente de seus autores adotarem publicamente essa identificação. A perseguição deixa de mirar apenas ideias e passa a atingir as condições concretas de existência de quem pensa diferente: emprego, sustento, acesso a serviços e segurança pessoal.
O escritor e filósofo italiano Umberto Eco abordou esse processo no ensaio “O Fascismo Eterno”, publicado em 1995. Entre as características que identificou estavam o tratamento da discordância como traição, o medo da diferença e a necessidade de construir inimigos para fortalecer a identidade do próprio grupo. O historiador Robert Paxton, em “A Anatomia do Fascismo”, também descreveu a utilização da exclusão e da violência contra adversários como parte dos mecanismos de mobilização fascista. Para esses movimentos, a lealdade ao grupo pode se sobrepor às liberdades e aos direitos individuais.
Mas a análise ganha outra dimensão com a filósofa Hannah Arendt, que examinou a formação dos regimes nazista e stalinista em “Origens do Totalitarismo”, publicado em 1951. Ao investigar as condições que permitiram a ascensão desses movimentos, demonstrou como o totalitarismo explora o isolamento social, a propaganda e a destruição das referências compartilhadas de realidade para conquistar a adesão das massas. A construção de um inimigo comum oferece uma explicação simplificada para problemas complexos e proporciona aos seguidores a sensação de fazer parte de uma comunidade. A lealdade ao movimento passa a prevalecer sobre a avaliação individual dos fatos e das consequências de seus atos.
Arendt também examinou como a exclusão de determinados grupos pode preceder formas extremas de violência. A perseguição econômica, a perda de direitos e a destruição dos vínculos comunitários integram esse processo de desumanização.
Em “Eichmann em Jerusalém”, de 1963, Arendt desenvolveu ainda o conceito de “banalidade do mal” ao examinar o julgamento de Adolf Eichmann, responsável pela organização de deportações de judeus durante o Holocausto. Sua análise mostrou como crimes de enorme gravidade podem ser executados por indivíduos que deixam de refletir criticamente sobre suas ações e suas consequências. A obediência, o conformismo e a linguagem burocrática podem servir para justificar atos criminosos e evitar o confronto individual com suas consequências, sem eliminar a responsabilidade de quem os pratica. O conceito não significa que toda manifestação de crueldade seja banal, mas que atos moralmente graves podem ser praticados sem uma reflexão proporcional ao sofrimento que produzem.
Há uma diferença fundamental entre a existência de comportamentos fascistas numa sociedade democrática e a instalação de um regime fascista. A classificação de um sistema político exige considerar sua organização institucional, sua relação com as liberdades democráticas e o exercício do poder. As práticas de perseguição, entretanto, não dependem da conquista do Estado para produzir consequências. Podem surgir em campanhas de mobilização, relações de trabalho, atividades comerciais e interações cotidianas, especialmente quando a exposição e o sofrimento de adversários passam a ser recompensados socialmente.
É nesse aspecto que os casos registrados após a eleição brasileira encontram correspondência com os mecanismos descritos pelos autores. A identificação pública de eleitores, os incentivos à demissão, as ameaças contra comunidades indígenas e a celebração da humilhação de adversários apresentam diferentes graus de gravidade, mas compartilham a tentativa de transformar a identidade política em critério para o exercício de direitos e para o tratamento dispensado às pessoas. O adversário deixa de ser alguém com quem se disputa o poder e passa a ser tratado como alguém que deve sofrer consequências por existir.
A passagem da divergência para a perseguição é o elemento decisivo. O fascismo histórico não se limitou a defender ideias autoritárias: mobilizou seguidores para agir contra inimigos definidos politicamente, recorrendo à intimidação, ao isolamento, à exclusão e, em sua radicalização, a formas organizadas de repressão e violência. A experiência histórica demonstra por que essas práticas precisam ser examinadas pelo que efetivamente fazem às pessoas, e não apenas pelas justificativas que seus autores oferecem.

Comentários dos leitores
Carregando comentários…