Assédio Eleitoral: MPT investiga empresário ligado à Escola Liceu Santista

Reportagem dos Inconfidentes serviu de base. Órgão também recebeu denúncia de vereador

Assédio Eleitoral: MPT investiga empresário ligado à Escola Liceu Santista

Carlos Ratton

06.11.2026

Foto: Reprodução vídeo redes sociais e perfil público do Facebook/Liceu Santista/ Victória Muniz e Gabriel Dias (Câmara de Santos)   

O procurador Diogo Catelan Sanches, do Ministério Público do Trabalho (MPT), abriu investigação para apurar suposto incentivo ao assédio eleitoral, cometido via redes sociais, pelo dono da empresa responsável pelo ensino de inglês da Escola Liceu Santista, Jefferson Taboada.  

A abertura do procedimento ocorreu praticamente uma semana após Os Inconfidentes terem publicado reportagem sobre o inconformismo de pais, mães de alunos e funcionários da escola com a postura de Taboada estimulando ainda xenofobia e desestimulando a caridade a pessoas vulneráveis, uma verdadeira incoerência de um prestador de serviços em uma escola católica. Após a repercussão, Taboada tirou o vídeo das redes. Veja a Reportagem anterior https://www.osinconfidentes.com.br/noticia/responsavel-pelo-ensino-de-ingles-em-escola-catolica-promove-assedio-eleitoral-xenofobia-e-suspensao-de-caridade.

Diogo Sanches expediu ofício ao Colégio Liceu Santista para que a unidade de ensino esclareça a relação do colégio com Taboada, incluindo provas documentais, e informe quais providências foram tomadas pós reportagem. Em caso de relação contratual, informar se houve rescisão ou alteração do contrato. Tudo no máximo em cinco dias após recebimento do ofício. 

Vale lembrar que, na ocasião dos fatos e em nota, a Rede Educacional Sociedade Visconde de São Leopoldo disse que recebeu com perplexidade a declaração do prestador de serviços e esclarece que não comunga da fala proferida em redes sociais pessoais. “Esse pensamento não reflete os princípios e a missão institucional explicitada no marco referencial da rede educacional”, finalizou nota.

Câmara

Na Câmara de Vereadores, também perplexo com o ocorrido, o vereador Benedito Furtado (PSB) acionou o MPT após ler a reportagem. O parlamentar pede que seja apurado não só a relação contratual de Taboada com o Liceu Santista, bem como sua participação na gestão e orientação dos trabalhadores vinculados à empresa.

Furtado pede ao MPT que a empresa de Taboada informe quantos trabalhadores estão atualmente vinculados à prestação de serviços de ensino de língua inglesa na escola, se houve desligamentos, substituições ou recusas de contratação de profissionais após as manifestações públicas noticiadas, quais critérios são utilizados para contratação, manutenção e desligamento dos profissionais vinculados à empresa e ainda se existem orientações internas relacionadas à posição política, convicções ideológicas ou manifestações pessoais dos trabalhadores. Também busca saber se foram recebidas reclamações de funcionários relacionadas a ameaças, constrangimentos ou discriminação por posicionamento político.

Vereador Benedito Furtado

Da Escola

Do Liceu Santista, Benedito Furtado pede ao MPT confirme se mantém contrato de prestação de serviços com a empresa pertencente ao empresário mencionado, qual é o objeto e a vigência do contrato celebrado e se a escola tomou conhecimento das manifestações divulgadas nas redes sociais e noticiadas pelo portal Os Inconfidentes, como também, se recebeu reclamações de pais, responsáveis, professores ou funcionários a respeito dos fatos, se foram adotadas providências institucionais diante das manifestações noticiadas, especialmente para assegurar que os serviços prestados sejam desenvolvidos sem práticas discriminatórias.

Ao final, o parlamentar santista solicita a apuração de eventual prática de assédio eleitoral, discriminação por convicção política ou incentivo à adoção de critérios ideológicos para contratação e desligamento de trabalhadores, inclusive mediante obtenção dos vídeos originais e demais registros digitais mencionados na reportagem, avaliação da existência de eventual dano moral coletivo, caso constatada a disseminação ou implementação de práticas discriminatórias capazes de atingir a coletividade de trabalhadores, com adoção das medidas extrajudiciais ou judiciais pertinentes, inclusive eventual celebração de Termo de Ajustamento de Conduta ou ajuizamento de Ação Civil Pública.

Pede ainda a adoção de medidas preventivas para assegurar que os trabalhadores vinculados à empresa terceirizada não sejam submetidos a ameaças, constrangimentos, retaliações ou prejuízos profissionais em razão de suas convicções políticas, garantindo-se a igualdade de oportunidades e o respeito aos direitos fundamentais nas relações de trabalho.

O vídeo

As razões expostas por Taboada no vídeo seria o inconformismo com o resultado das últimas eleições presidenciais, que reconduziram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao seu quarto mandato no comando do País. No Facebook, Taboada se intitula criador de conteúdo digital. 

Além disso, Taboada põem em dúvida a legitimidade do pleito, reforçando teoria de possível fraude, já completamente descartada pelo ministro Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kássio Nunes Marques, em pronunciamento em rede nacional, e pelo próprio partido do candidato derrotado, Flávio Bolsonaro (PL), que fugiu para os Estados Unidos da América (EUA) por conta das investigações em curso de crimes que supostamente tenha cometido.

Depois de reclamar de amigos que moram no exterior e que votaram em Lula, Taboada disse o seguinte no vídeo: “Agora, o que eu fico mais indignado que isso. Foi roubado na cara dura...eu queria dar uma dica pra você, que é empresário: se você tem um funcionário petista, manda embora. Se você tiver que contratar alguém pra trabalhar na sua empresa, pesquise antes se ele é petista e não contrate. Se você vai cortar o cabelo, já não tenho esse problema porque eu sou careca, mas se você vai lá, homem, cortar seu cabelo, e o seu barbeiro for petista, troque, vá em outro, tá? Se você tem um médico, ele é petista, troque”.

Em um outro momento do vídeo, Taboada ignora totalmente que faz parte de uma escola ligada à igreja católica e solta a seguinte pérola: “se pedirem pra mim fazer caridade, como eu já fiz muito, não faço mais. Pede para os órgãos sociais, tá?”, afirma o cidadão que votou em um segmento político que prega Deus, Pátria e Família. 

Xenofobia e palavrão

Ainda no vídeo, o empresário não esconde a xenofobia - medo, a aversão, o preconceito ou a hostilidade direcionados a pessoas percebidas como estrangeiras, forasteiras ou de outra região – ao dizer o seguinte. “Eu sempre viajei para o Nordeste. Lindo, só que é o seguinte: eu quero que você, nordestino, vá tomar no olho do cu de vocês, entendeu? Porque tá a pior região, que mais tem carência de tudo, tá? Que é a região mais pobre e, durante 20 anos, vocês acreditam nesse filho da puta, nesse presidente, porque ele é uma merda, ele não nasceu, ele foi cagado. Era isso que eu queria dizer pra vocês, e seja o que Deus quiser do nosso país”, finalizou o ’cidadão de bem’.

Apesar das declarações serem claras, Os Inconfidentes tentaram localizar Jefferson Taboada pelas redes sociais, incluindo o Instagram do empresário ao qual foi solicitado um contato urgente. Até hoje nenhum contato foi estabelecido o Os Inconfidentes mantém o espaço aberto para o empresário se manifestar.

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