Audiência Pública revela caos na saúde mental de Santos (SP)

Pacientes lutando por atendimento, até por sobrevivência, e familiares para não adoecerem e serem incluídos num sistema perverso e totalmente impessoal. Carta de mãe marca o encontro

Audiência Pública revela caos na saúde mental de Santos (SP)

Carlos Ratton

19.05.2026

Fotos: Agência Brasil/Tony Valentte

Quem esteve na audiência pública em que se discutiu o sistema de atendimento à saúde mental no município de Santos (SP), na noite desta quarta-feira (20), na Câmara de Vereadores, descobriu que a cidade que um dia foi berço e a maior referência histórica da reforma psiquiátrica e da luta antimanicomial no Brasil, hoje, está praticamente na ‘UTI’ em termos de saúde pública.   

Repleto de depoimentos fortes de quem está na ponta da pirâmide: os usuários dos centros de Atenção Psicossocial (CAPSs) - unidades públicas e gratuitas do Sistema Único de Saúde (SUS) voltadas para o acolhimento e tratamento de pessoas com transtornos mentais graves e persistentes, ou com dependência de álcool e outras drogas – o encontro apontou uma enxurrada de problemas que confirmaram cerca de três décadas de desmonte lento e silencioso de uma estrutura que no passado substituiu o modelo de internação violenta por uma rede de cuidado em liberdade.

Hoje, em Santos, segundo relatos, pacientes precisam lutar por atendimento, até por sobrevivência, e familiares para não adoecerem e serem incluídos num sistema perverso e totalmente impessoal.

Um verdadeiro abandono institucional por conta de equipamentos sucateados, serviços mal prestados, estruturas deficientes, falta contínua de medicamentos (mesmo após decisão judicial), de vagas, de profissionais treinados e segurança. Até assédio moral praticado contra funcionários e pacientes foi denunciado no CAPS da Zona Noroeste.

Ficou claro que pacientes com transtornos mentais necessitam de uma rede de apoio multidisciplinar e um tratamento focado na reabilitação e inclusão social, buscando estabilizar sintomas e promover qualidade de vida por meio de terapia, medicação e acompanhamento médico contínuo.

Terra arrasada

O psicólogo e representante do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Santos (Sindserv), Wagner Ferreira da Silva, disse que o Município vem se negando a enfrentar os problemas e, ao final, foi textual: ‘terra arrasada’.

A vereadora Débora Camilo (PSOL) e o vereador Marcos Caseiro (PT) saíram do encontro, de quase quatro horas de duração, indignados e com uma lista de questões que precisam ser resolvidas pela Secretaria de Saúde de Santos urgentemente. Entre elas, uma mudança radical no valor destinado à assistência mental no Município.

A secretária-adjunta da Saúde, Paula Covas, cujo currículo envolve psicologia clínica e Consultoria em Gestão, Educação em Saúde Pública e Mental Master, com espacialidade em cuidados paliativos, mostrou-se sensível aos problemas e chegou a se emocionar com os depoimentos, principalmente de mães de pacientes. (Ver carta nesta reportagem). 

No entanto, admitiu publicamente que encontrou uma estrutura totalmente deficitária, necessitando de uma reformulação estrutural e operacional, incluindo a implantação de equipamentos de acolhimento fora de hospitais de custódia para pacientes vítimas de esquizofrenia e outras enfermidades, além da contratação urgente de profissionais que, segundo revelou, já estaria em andamento.

Ao final, o vereador Marcos Caseiro relacionou Aos Inconfidentes os pontos que devem urgentemente resolvidos para que a cidade de Santos consiga ter o mínimo de recuperação na assistência à saúde mental e evitar um colapso que se aproxima.

“É preciso aumentar a bolsa auxílio dos residentes. Criar uma casa de convalescência, de transição para moradores de área livre (em situação de rua) porque a maioria sofre de doença mental e precisa de uma casa para que seja feita uma transição de maneira adequada, que possa medicar e reintegrar às famílias”, afirma Caseiro.

O vereador também anotou a necessidade de uma melhor remuneração para quem detém cargos de chefias nos equipamentos públicos e a contratação de profissionais para desempenhar a função de redução de danos - uma ideia criada em Santos, pelo médico Fábio Mesquita, na época do ex-prefeito David Capistrano.

“Também é preciso que a rede assistencial seja verdadeiramente integrada, mais unidades de acolhimento e a efetivação do Centro de Atenção Psicossocial CAPS - Álcool e Drogas (CAPS-AD) 24 horas e, pôr fim, a residência terapêutica, uma reivindicação de dezenas de mães que têm filhos sendo assistidos fora de Santos”.

Débora

A vereadora Débora Camilo lembrou à Reportagem que Santos tem um orçamento bilionário – R$ 6,324 bilhões previstos só este ano – e que um quarto desse recurso, vai pra saúde.

“Mas o que vimos nessa audiência é que a saúde não funciona em Santos, que está na UTI com a precarização dos serviços e do trabalhador para justificar uma terceirização. Ouvimos relatos dos usuários do serviço como um todo e não só os da saúde mental.  O depoimento de uma usuária que não consegue sequer um simples exame na Policlínica do Marapé. Um caos”, dispara. 

A vereadora fez questão de ressaltar que falta de vontade política do Executivo em fazer com que a saúde realmente funcione e que, apesar do prefeito Rogério Santos (Republicanos) estar em seu segundo mandato, o grupo político é o mesmo há quase três décadas.

“A política que está sendo desenvolvida é uma continuação do que já vinha sendo feito. Esse desmonte não começou ano passado. É um projeto de destruição do serviço público. Ontem (19 de maio) fez um ano que nós fizemos uma audiência pública sobre o desmonte e, hoje, vimos situação ainda pior. Sugeri à secretária-adjunta o mínimo de investimento na saúde mental, que na verdade nunca foi prioridade. Passaremos a estudar o quanto seria o ideal para ser destinado para a saúde mental para a recuperação de todos os equipamentos, treinamento de profissionais e outras soluções para os demais problemas”, disse Débora.

Por fim, a vereadora ratificou que Paula Covas disse no encontro em relação a ter encontrado quando assumiu o cargo. “Como chegamos a esse ponto? Não dá para a gente esperar que tragédias ocorram, não dá para a gente esperar que as pessoas continuem adoecendo e fingir que a cidade é realmente a cidade inclusiva, que a saúde é de ponta. Santos é uma cidade extremamente rica, mas também desigual, que não prioriza a sua população”, finaliza.

Carta

Um dos pontos mais sensíveis da audiência e que serviu quase como um resumo da questão envolvendo a saúde mental de Santos foi quando Michelle Araújo, mãe de um usuário do serviço público, leu uma carta, cujo texto segue na íntegra para os leitores de Os Inconfidentes:

“Meu nome é Michele Araújo, e hoje eu não estou aqui apenas por mim. Estou aqui por muitas mães, muitas famílias e muitos pacientes que vivem diariamente uma realidade de dor, exaustão e invisibilidade.

Falar sobre saúde mental é falar sobre vidas. É falar sobre pessoas que precisam ser enxergadas com humanidade, dignidade e respeito.

E quando falamos de autismo severo, de transtornos psiquiátricos associados e de famílias sobrecarregadas, não estamos falando de números ou estatísticas.

Estamos falando de mães que choram escondidas para continuarem fortes. De famílias que vivem no limite físico, emocional e financeiro. De pessoas que lutam todos os dias apenas para sobreviver com dignidade.

Nenhuma mãe sonha em precisar se afastar do próprio filho para que ele receba tratamento. Nenhuma mãe quer viver com medo, insegurança ou desamparo. Mas muitas estão exatamente assim hoje.

Por isso, eu peço que todos aqui escutem este tema não apenas com os ouvidos, mas com empatia no coração. Porque saúde mental não pode continuar sendo tratada como algo invisível.

Precisamos falar. Precisamos acolher. Precisamos agir. Quando um filho autista nível 3 entra em crise severa, a mãe não procura privilégio. Ela procura socorro.

Hoje, em Santos e em toda a Baixada Santista, famílias vivem uma realidade cruel e silenciosa: a ausência de residenciais terapêuticos especializados para pessoas autistas com alto nível de suporte e comprometimento grave de convivência social.

E existem casos ainda mais complexos e extremamente delicados: pacientes que, além do autismo suporte 3, também possuem esquizofrenia associada, agravando crises, surtos, episódios de agressividade, alucinações, isolamento extremo e sofrimento psíquico profundo.

São pessoas que necessitam de acompanhamento contínuo, equipe especializada, ambiente adaptado e tratamento humanizado. Não conseguem viver de forma independente e, muitas vezes, nem permanecer em casa com segurança.

Essas mães vivem em estado permanente de alerta. Dormem pouco. Vivem com medo de uma nova crise. Com medo do filho fugir. Se machucar. Machucar alguém. Ou até ser vítima da própria desorganização mental.

E então surge o maior drama: essas famílias ficam sem opção. Porque o autismo não deve ser tratado como doença psiquiátrica comum.

E mesmo quando há esquizofrenia associada, o paciente continua necessitando de abordagem especializada em TEA, manejo sensorial, rotina estruturada e profissionais capacitados para dupla condição clínica.

Hospitais psiquiátricos tradicionais, muitas vezes, não possuem preparo adequado para receber autistas severos.

Ao mesmo tempo, a inexistência de residenciais terapêuticos especializados na Baixada Santista abandona essas famílias à própria sorte.

O resultado é devastador. Mães adoecidas física e emocionalmente. Casamentos destruídos. Famílias isoladas socialmente. Irmãos afetados emocionalmente. E uma sobrecarga desumana sobre quem cuida.

Muitas mães precisam abrir mão da convivência diária com o próprio filho para conseguir uma vaga distante, em outra cidade, porque entendem que o amor também é reconhecer quando o filho precisa de um cuidado que ela sozinha não consegue mais oferecer com segurança. Mas nem assim encontram paz.

Vivem com a angústia constante de não saber se a Prefeitura de Santos ou o Estado de São Paulo continuarão custeando o tratamento.

Carregam o medo permanente de receber a notícia de que o filho será devolvido para casa por falta de pagamento, encerramento contratual ou ausência de políticas públicas permanentes.

E quando isso acontece, quem acolhe esse paciente sem suporte adequado?

Quem protege essa mãe? Quem assume a responsabilidade?

Porque essa mãe também adoece. Ela desenvolve: ansiedade severa, depressão, síndrome do pânico, hipertensão emocional, insônia crônica, gastrite nervosa, esgotamento físico e psicológico.

Muitas dependem de: acompanhamento psiquiátrico, terapia psicológica, medicamentos para ansiedade, remédios para dormir, tratamento para pressão alta, medicações para problemas gastrointestinais causados pelo estresse contínuo.

E ainda assim precisam trabalhar, manter a casa, lutar judicialmente, enfrentar burocracias e seguir funcionando mesmo emocionalmente destruídas. A saúde mental dessas mães precisa entrar urgentemente no debate público.

Precisamos de residenciais terapêuticos especializados para autistas severos e pacientes com comorbidades psiquiátricas, de equipes preparadas para TEA suporte 3 e esquizofrenia associada, de políticas públicas permanentes, de garantia de continuidade do custeio dos tratamentos, de acolhimento psicológico e psiquiátrico para mães e cuidadores, de uma rede de proteção verdadeira para essas famílias.

Porque nenhuma mãe deveria viver entre o medo de perder o filho… e o medo de não conseguir protegê-lo sozinha. Cuidar da saúde mental também é cuidar de quem sustenta essa luta todos os dias, muitas vezes em silêncio e completamente sem apoio.    

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