Bahia: Festival Caju valoriza oralidades, escritas e escutas da cultura originária
Até 2025, o evento contou com mais de 12 mil participantes, 90 atividades, com a participação de mais de 70 autores indígenas de 10 estados brasileiros.

Carlos Ratton/Divulgação Festival Caju
04.09.2026
Fotos: Tony Valentte/Divulgação
Os Inconfidentes foram conferir na Aldeia Xandó, no território indígena Barra Velha, em Porto Seguro (BA), a realização da 5ª edição do Festival de Literatura Indígena CAJU de Leitores – uma verdadeira celebração à literatura indígena e à cultura dos povos originários. A base do evento ocorre na Oca Tururim, situada no Centro Cultural Indígena Pataxó da Aldeia Xandó.
O evento contou com uma ampla programação cultural, incluindo contação de histórias, apresentações artísticas, varal literário, feira e lançamento de livros, rodas de conversa com escritores, contadores de histórias, lideranças indígenas, artistas e pesquisadores da literatura indígena de todo o Brasil e América Latina.
A organização do evento lembra que línguas indígenas, a publicação de suas histórias tradicionais e a inserção de artistas indígenas no mundo da literatura, das artes visuais e do audiovisual são ferramentas contemporâneas que colaboram para dar visibilidade às lutas e às resistências dos povos indígenas.
São iniciativas que esbarram na limitada difusão junto aos espaços de saber, mas que contribuem imensamente para a sociedade superar a visão preconceituosa e colonizadora predominante na contemporaneidade.

Oca Tururim concentrou a programação
Impacto
O Festival Caju de Leitores, realizado desde 2022, tem orgulho de ser um dos espaços de valorização das oralidades, escritas e escutas da cultura originária. Até 2025, o evento contou com mais de 12 mil participantes, 90 atividades, com a participação de mais de 70 autores indígenas de 10 estados brasileiros.
Nele são reunidos diversas lideranças da etnia Pataxó e o evento já recebeu escritores, pensadores e artistas indígenas de todo o Brasil como Daniel Munduruku, Cristino Wapichana, Auritha Tabajara, Trudruá Makuxi, Márcia Kambeba, Lucia Tucuju, Edson Kayapó, Adriana Pesca, Samela Sateré Mawé, Tukumã Pataxó, entre outros.
Os princípios
A valorização da literatura indígena orienta a atuação do Caju de Leitores junto às escolas, aos estudantes, aos educadores e às comunidades. O festival reconhece o acesso aos livros, à informação e ao conhecimento como um direito e busca ampliar as referências e as possibilidades de leitura do mundo de crianças e jovens.
A Literatura indígena sempre esteve no centro da identidade e da programação. O festival promove o encontro com autores indígenas e suas obras, contribuindo para a circulação de narrativas construídas a partir das experiências, memórias, conhecimentos e perspectivas dos povos originários.
A formação envolve acesso, identificação, curiosidade, imaginação e troca de conhecimentos. O festival cria experiências de encontro com livros, autores, histórias e diferentes formas de expressão.
Valorização das produções das escolas
Para a organização, o território não é apenas o espaço das atividades, mas parte essencial da identidade do projeto. Valorizar e preservar sua fauna e sua flora contribui para a continuidade dos modos de vida, saberes e culturas indígenas.
O festival cria espaços para trabalhos, pesquisas, histórias, ilustrações e experiências de estudantes e educadores. As produções escolares também participam da identidade visual de cada edição.
O escritor Sairi Pataxó tem papel fundamental na criação e na trajetória do Caju de Leitores. Ele atua como anfitrião do festival e contribui para a articulação entre convidados, escolas e comunidade.

Sairi Pataxó
Autor de Boitatá e outros casos de índio (Terra Redonda Editora), o primeiro livro do Brasil a ser catalogado como literatura indígena e não como folclore. Ele diz que sempre adorou as histórias antigas de seu povo contadas por seus pais e avós, por isso quis preservar essa memória coletiva. O livro fala das bravuras dos guerreiros, dos encontros com os encantados, dos ensinamentos da medicina tradicional e do modo de vida de um povo.
Em entrevista aos Inconfidentes, Sairi Pataxó revelou que a cada edição o Caju de Leitores vem trazendo mais pessoas em busca de ancestralidade, em busca de cultura, do povo indígena, da vivência, do descobrimento de tudo que tem de bom nos territórios. “A ancestralidade do nosso povo. Os participantes buscam estarem consigo mesmos, histórias dos encantados, dos nossos velhos, buscando estar com si mesmo”.
Para Sairi, acada ano que passa, o Caju de Leitores vem se mostrando ser um elo entre escritores e leitores. “Inspiração para novos escritores também”.
Desde o início, o festival apoia sua trajetória como escritor, ampliando a circulação de sua obra e criando novas oportunidades para sua atuação no campo da literatura indígena. Sua participação contribuiu para convites a outros festivais literários da Bahia. A experiência construída ao longo das edições também impulsionou a escrita de seu segundo livro, Histórias da Mãe Joana.
Além de escritor, Sairi é contador de histórias, fotógrafo e ativista pelo meio ambiente. Também é reconhecido como liderança comunitária, articulando demandas sociais e culturais em Território Indígena de Barra Velha, no Sul da Bahia.

Comentários dos leitores
Carregando comentários…