Baixada Santista virou um laboratório da violência

Muita gente lembra da triste história do menino Ryan da Silva Andrade Santos, de apenas quatro anos, morto após uma troca de tiros entre policiais militares e criminosos no morro do São Bento, em Santos (SP).

Baixada Santista virou um laboratório da violência

Carlos Ratton

16.05.2026

Fotos: Allison Sales (AFP)/Câmara de Santos  

As operações Escudo e Verão deixaram marcas mortais na Baixada Santista. Muita gente lembra da triste história do menino Ryan da Silva Andrade Santos, de apenas quatro anos, morto após uma troca de tiros entre policiais militares e criminosos no morro do São Bento, em Santos (SP).

O menino estava brincando em uma rua da comunidade e foi atingido. Ele foisocorrido ao hospital mas não resistiu aos ferimentos. Há época, coronel Emerson Massera, porta-voz da PM Paulista, durante coletiva no Comando Geral da PM, informou que provavelmente partiu da arma da Polícia Militar a bala que atingiu Ryan.

Leonel Andrade dos Santos, pai de Ryan, também faleceu após ser atingido por ‘bala perdida’ na Operação Verão, deflagrada pelo Governo de São Paulo. Em 40 dias de ações, foram 45 mortes.

Ano passado, na Câmara de Santos, foi realizada uma audiência pública sob tema Violência Policial na Periferia. O ponto de partida foi o caso Matheus Lopes, que residia na Comunidade Casinhas, na Zona Noroeste. O rapaz, de 21 anos, foi baleado por policiais do Batalhão de Operações Especial de Polícia (Baep).

A família de Matheus e os vizinhos garantiram que o rapaz é inocente. Quando atingido, Matheus trabalhava como ajudante de pedreiro e também atuava como funcionário em um ferro-velho, sendo reconhecido como um jovem trabalhador e comprometido com suas responsabilidades.

Matheus foi baleado e levado para o Hospital Vicentino, em São Vicente, onde ficou internado sob vigilância policial. O tiro quase resultou em sua morte.

A família revelara na ocasião que, apesar da gravidade do ferimento, ele recebeu alta médica e, imediatamente após a liberação hospitalar, foi encaminhado diretamente ao 5º Distrito Policial de Santos sem o devido acompanhamento médico e sem acesso ao tratamento adequado.

Durante a investida, os policiais apreenderam armas e drogas e também três homens – incluindo Matheus – e um adolescente de 17 anos. Segundo a versão policial, Matheus foi o único baleado por estar armado e atentar contra a vida dos policiais. O tiro entrou pelo abdômen, saiu pela perna e perfurou a artéria femoral. Matheus foi encaminhado ao hospital pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).

Pessoas presentes informam que a polícia entrou na comunidade atirando, o que gerou pânico, pois as ruas e vielas estavam cheias de crianças brincando, adolescentes empinando pipa como é natural num dia de domingo.

No tumulto e correria, a avó de Matheus ouviu os gritos do neto que havia sido baleado pelos policiais, conforme vídeo postado nas redes sociais, em que ela começa a gritar e pedir por ajuda, alegando que Matheus nada tinha a ver com a situação revelada pela polícia.

Santos e São Vicente

O 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2024, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), aponta que dentre as cidades com mais de 100 mil habitantes, Santos e São Vicente têm a marca de 66% de todas as mortes provocadas por intervenção policial — duas a cada três. Esses dados reforçam o impacto da Operação Verão realizada pela Polícia Militar de São Paulo.

A operação matou 56 pessoas em naquele ano e é considerada uma das mais letais da história no estado. A mais letal é a do Carandiru — chacina que matou 111 pessoas no ano de 1992. O Brasil registrou 6.243 mortes em decorrências de violência policial seja de civis ou de militares, da ativa ou não, ainda em 2024.

Laboratório

Para a vereadora santista Débora Camilo (PSOL – foto abaixo), a Baixada Santista virou um laboratório de horrores da violência. Dois a cada três assassinatos na região são cometidos pela polícia. Duas em cada três vítimas são negras.

“Isso não é coincidência, é política de extermínio. Na Operação Escudo, em 2023, foram 28 mortes, a maioria jovens entre 22 e 40 anos, 82% negros. Todas as mortes foram nas periferias, morros e Zona Noroeste de Santos. Não é guerra às drogas, é guerra aos pobres. As próprias perícias escancaram a farsa. Os locais das execuções raramente são preservados. Em 85% dos casos, não havia imagens das câmeras. Quando havia, muitas vezes estavam manipuladas”, informa em vídeo recentemente veiculado nas redes sociais.  

A parlamentar ainda lembra que, em janeiro de 2024, veio a Operação Verão, 56 mortos em um mês. O segundo maior massacre no capital de São Paulo desde o Carandiru. Para ele, essas chacinas não são acidentes, fazem parte de um projeto político de segurança que mata e de uma política de assistência que abandona.

“Das 84 mortes em operações, só 11 viraram inquéritos, todos arquivados. O sistema tem lado e não é dos pobres e nem dos negros. No cortejo e enterro de Ryan, os seus assassinos fizeram de tudo para reprimir aqueles que só queriam se despedir. Os policiais foram afastados e já voltaram às ruas”, lembra a vereadora, que também ressalta Gregory, um adolescente de apenas 17 anos, que foi executado com cinco tiros nas costas à queima-roupa. Os policiais não usavam câmeras.

Ditadura

Débora Camilo acredita que morros e favelas da Baixada Santista a ditadura nunca acabou. Para ela, combater o crime organizado é necessário, mas precisa ser inteligente e eficaz. É desmontando as cadeias logísticas e financeiras do tráfico, não um teatro eleitoral genocida. Uma verdadeira propaganda feita sobre pilhas de corpos para gerar falsa sensação de segurança e votos.

“Nós defendemos uma política que enfrente o crime com inteligência e eficácia e não com corpos de jovens e crianças estirados no chão. A Operação Carbono, na Faria Lima, na Capital, não teve um tiro disparado, bloqueou 1,2 bilhão de reais, apreendeu 141 veículos, 192 imóveis e duas embarcações. Já as instituições da Baixada Santista deixaram outro saldo, famílias destruídas, dor e sofrimento nas periferias. Não podemos deixar que essas atrocidades caiam no esquecimento. A favela ainda não venceu, mas a favela quer viver”.

 

Comentários dos leitores

Carregando comentários…