Bertioga (SP): efluentes despejados no Rio Itapanhaú preocupa pescadores e moradores ribeirinhos
Sabesp garante que não há perigo ao ecossistema

Carlos Ratton
24.06.2026
Fotos: Divulgação/APS
Pescadores e moradores ribeirinhos enviaram aos Inconfidentes imagens e áudios mostrando preocupação com possível dano ao meio ambiente envolvendo o Rio Itapanhaú, próximo ao Complexo de Itatinga, em Bertioga (SP), que deve ser privatizado por intermédio do Porto de Santos (ver nessa reportagem).
O Itapanhaú é o principal rio do litoral paulista, com extensão de aproximadamente 40 quilômetros km e nascente em Biritiba Mirim, na Serra do Mar. Ele corre paralelo à serra e deságua entre Bertioga e o Guarujá. Possui áreas de mangue vitais para a reprodução de crustáceos e aves, o que torna o rio uma área de grande preservação ecológica.
Segundo relatos de pescadores que preferem não se identificar, espumas fétidas atingem diversos pontos das margens do rio. Eles acreditam que a situação ocorre por possíveis falhas no Sistema de Captação do Rio Itapanhaú, da Empresa de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp).
O Sistema é de transposição hídrica que reforça o Sistema Produtor Alto Tietê (SPAT). Entrou em operação em dezembro de 2025 por conta de um investimento de cerca de R$ 300 milhões. A infraestrutura transfere água do Ribeirão Sertãozinho (afluente do Itapanhaú), em Bertioga, para a Represa Biritiba, em Biritiba Mirim.

Esse processo aumentou em 17% a capacidade de produção de "água nova" do Sistema Alto Tietê, beneficiando mais de 22 milhões de pessoas na Região Metropolitana de São Paulo. A água percorre cerca de nove quilômetros, subindo a Serra do Mar. Devido à área colada ao Parque Estadual da Serra do Mar e ao relevo, o sistema conta com um bombeamento inicial de 98 metros de altura.
A partir daí, a água é conduzida por gravidade. O trecho inclui adutoras suspensas (apoiadas no solo) e um túnel de 500 metros escavado próximo à Rodovia Mogi-Bertioga.
Sabesp
A Sabesp esclarece no local acontece o lançamento do efluente que é um líquido devidamente tratado em uma estação que atende aos parâmetros determinados pela legislação ambiental e às condições estabelecidas por demais órgãos competentes.
E durante os períodos de maré baixa - quando existe um menor volume de água que diminui o nível do Rio Itapanhaú - o lançamento pode se tornar visualmente perceptível na localidade, sem que isso represente alteração na qualidade do tratamento ou descumprimento dos parâmetros ambientais aplicáveis.
A Sabesp reafirma seu compromisso com a melhoria contínua dos serviços prestados e informa que já desenvolve estudos para avaliar alternativas de aprimoramento deste sistema de lançamento, com objetivo de reduzir eventuais incômodos à população, considerando as variações do nível do rio atualmente registradas entre os períodos de alta e baixa da maré.
O Complexo
A Autoridade Portuária de Santos (APS) pretende ceder onerosamente o Complexo de Itatinga. A área abriga a histórica usina hidrelétrica, a Vila de Itatinga e estruturas de apoio. A cessão de uso onerosa prevê que a administração do complexo seja feita por uma empresa privada.
O edital foi publicado no Diário Oficial da União. O recebimento das propostas e da documentação dos interessados está previsto para 11 de agosto. Já a sessão pública de abertura das propostas ocorrerá em 17 do mesmo mês, a partir das 15 horas.
Pelo modelo, a APS receberá uma parcela da receita gerada, enquanto a cessionária poderá explorar economicamente os ativos e comercializar a energia excedente produzida pela usina.
O Complexo de Itatinga também inclui uma linha de transmissão de aproximadamente 30 quilômetros, áreas de apoio e estruturas de serviço. O projeto prevê a repotencialização da usina hidrelétrica, que passará dos atuais 15 MW para 18 MW de potência instalada.

Complexo Itatinga
Também estão previstas a modernização da linha de transmissão e a revitalização das 61 residências e equipamentos comunitários da Vila de Itatinga. O edital contempla a possibilidade de exploração de atividades ligadas ao turismo histórico e ecológico, além da integração do complexo à produção de hidrogênio verde (H2V).
Segundo a APS, a futura empresa responsável pela operação deverá garantir o fornecimento prioritário e sem custos de parte da energia gerada para atender ao consumo interno da autoridade portuária. A energia excedente poderá ser comercializada, e o desempenho operacional da usina será monitorado periodicamente por meio de indicadores do setor elétrico.
O contrato terá duração de 20 anos, contados a partir da assunção da área [quando a empresa assume oficialmente o espaço e sua administração], com possibilidade de prorrogação. Os investimentos necessários para a modernização das estruturas civis, hidráulicas e eletromecânicas estão estimados em cerca de R$ 200 milhões.
Como contraprestação, a cessionária deverá repassar à APS um percentual mínimo de 3% da Receita Operacional Bruta apurada anualmente.
Patrimônio histórico
A Pequena Central Hidrelétrica (PCH) de Itatinga é considerada um dos marcos da engenharia brasileira. As obras foram iniciadas em 1904 e concluídas em 1910, tornando a usina uma das primeiras hidrelétricas a fio d’água do país.
Ao longo de mais de um século de funcionamento, a estrutura garantiu suporte energético às atividades do Porto de Santos e acompanhou a expansão do complexo.

Vila de Itatinga
Já a Vila de Itatinga reúne construções históricas preservadas, incluindo moradias de trabalhadores e equipamentos comunitários, como igreja, escola, padaria e clube esportivo. O conjunto é considerado um patrimônio cultural, histórico e arquitetônico, despertando interesse para iniciativas de preservação patrimonial, ecoturismo e turismo histórico-cultural.

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