Bertioga terá Política Vini Jr. de Combate ao Racismo no Esporte

Bertioga terá Política Vini Jr. de Combate ao Racismo no Esporte 19/01/2026

Bertioga terá Política Vini Jr. de Combate ao Racismo no Esporte

Bertioga terá Política Vini Jr. de Combate ao Racismo no Esporte

19/01/2026

Sandro Thadeu

Reprodução/Instagram. O brasileiro Vini Jr. é símbolo na luta antirracista no futebol

Com o objetivo de estabelecer diretrizes claras e permanentes para o enfrentamento de uma das mais graves chagas sociais — a discriminação racial —, Bertioga, município do litoral de São Paulo, está prestes a instituir a Política Municipal de Combate ao Racismo no Esporte, batizada de Política Vini Jr.. A proposta faz referência ao atacante do Real Madrid e da Seleção Brasileira, que se tornou um dos principais símbolos da luta antirracista no futebol mundial.

Nesse contexto, a iniciativa está prevista no Projeto de Lei n89/2025, que será votado em sessão extraordinária da Câmara Municipal, nesta terça-feira, dia 20. Caso aprovada, a norma deverá ser aplicada a todos os eventos esportivos, oficiais ou não, incluindo competições amadoras, estudantis, comunitárias e aquelas promovidas por entidades públicas ou privadas, realizadas em ginásios, campos de várzea, quadras e demais arenas esportivas da Cidade.

De autoria do vereador Toninho Neto (PSD), o texto estabelece, como medida central, a interrupção imediata da partida ou do evento diante de denúncia ou constatação de conduta racista. Além disso, a proposta prevê até mesmo o encerramento definitivo da atividade em casos de reincidência ou quando houver prática coletiva de atos discriminatórios.

Para garantir a efetividade da política pública, o protocolo determina que qualquer cidadão poderá denunciar situações de racismo às autoridades presentes no local, como policiais militares, guardas municipais, bombeiros, seguranças privados ou demais agentes responsáveis pela ordem. A partir disso, a autoridade deverá comunicar imediatamente a organização da competição, que, por sua vez, solicitará ao árbitro ou mediador a interrupção obrigatória do evento.

Ao justificar a proposta, o parlamentar destacou a escalada dos episódios de intolerância no esporte. “Infelizmente, os casos de racismo têm se multiplicado no cenário esportivo, atingindo jogadores, torcedores e árbitros. Esses episódios ferem a dignidade da pessoa humana, princípio fundamental previsto na Constituição Federal. O racismo é um crime inafiançável e imprescritível”, justificou Toninho Neto.

Ações educativas

Além das medidas punitivas, a Política Vini Jr. também prioriza a prevenção e a educação, ao prever uma série de ações a serem desenvolvidas pela Prefeitura e por entidades esportivas e comunitárias. Entre elas, destacam-se a divulgação de campanhas educativas antirracistas antes das partidas e durante os intervalos, bem como a apresentação de políticas públicas de atendimento e acolhimento às vítimas.

Da mesma forma, a proposta estabelece a capacitação de funcionários, árbitros e prestadores de serviço, com o objetivo de prepará-los para identificar, mediar e encaminhar corretamente situações de racismo. Soma-se a isso a criação de medidas de acolhimento e apoio psicológico e institucional às vítimas e aos denunciantes.

O projeto também determina que o planejamento, a formulação, a implementação e a avaliação das políticas públicas esportivas do município deverão adotar mecanismos permanentes para erradicar e reduzir manifestações de racismo, xenofobia, sexismo, violência e demais formas de intolerância.

Casos que marcaram o futebol brasileiro

No Brasil, o racismo no esporte tampouco é um fenômeno recente. Em novembro de 2005, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) estabeleceu um marco histórico ao punir, pela primeira vez, um clube por atos racistas. O Esporte Clube Juventude, de Caxias do Sul (RS), foi condenado de forma unânime ao pagamento de R$ 200 mil de multa e à perda de mando de campo por dois jogos. Na ocasião, o árbitro relatou em súmula que a torcida imitava sons de macaco direcionados ao volante Tinga, do Internacional.

Reprodução/Facebook. Tinga foi alvo de ataques jogando pelo Internacional

Anos depois, em 2014, outro episódio de grande repercussão ocorreu na Arena do Grêmio, em Porto Alegre. O goleiro Aranha, então no Santos, foi alvo de xingamentos e gestos racistas por parte da torcida adversária. O caso resultou na eliminação do Grêmio da Copa do Brasil, além de multa de R$ 54 mil. Uma torcedora identificada perdeu o emprego e, em acordo judicial, passou a se apresentar à delegacia em dias de jogos por seis meses.

Divulgação/Santos FC. Aranha sofreu insultos racistas de torcedores do Grêmio

Mais recentemente, em 2021, o meia Celsinho, do Londrina, foi vítima de uma sequência de ataques racistas, envolvendo comentaristas de rádio e dirigentes esportivos. Após o episódio mais grave, ocorrido em partida contra o Brusque, o STJD puniu o clube catarinense com a perda de três pontos na Série B, multa de R$ 90 mil e suspensão de um dirigente por quase um ano, reforçando a intolerância institucional contra o racismo.

Reprodução/SporTV. Celsinho foi vítima de três casos de racismo em 2021

A violência simbólica também atinge atletas em início de carreira. Em março do ano passado, o atacante Luighi, promessa do Palmeiras, então com 18 anos, foi alvo de ofensas racistas durante partida contra o Cerro Porteño, pela Copa Libertadores Sub-20, no Paraguai.

A imagem do jogador chorando no banco de reservas comoveu o país, mas foi sua indignação após o jogo que sintetizou o problema: “Não vão perguntar sobre o ato de racismo?”, questionou ao ser entrevistado, cobrando uma postura mais firme da imprensa e das autoridades.

Embora hoje seja reconhecido como uma voz global contra o racismo, a trajetória de Vini Júnior nesse enfrentamento começou ainda no futebol brasileiro. Em agosto de 2017, quando atuava pelo Flamengo, um torcedor foi detido após cometer injúria racial contra familiares do jogador, durante um clássico contra o Botafogo. Meses depois, em março de 2018, em nova partida contra o mesmo adversário, o atleta foi alvo da expressão “neguinho safado”, no estádio Nilton Santos.

Conmebol/Reprodução. Indignado com o ocorrido, Luighi cobrou providências das autoridades

Estopim global

Desde 2018 no Real Madrid, o atacante Vini Jr. passou a enfrentar uma perseguição sistemática, protagonizada por torcidas adversárias e até por comentaristas da televisão espanhola. Após anos de insultos recorrentes, o episódio que ganhou repercussão mundial ocorreu em maio de 2023, durante uma partida contra o Valencia, quando Vini Júnior decidiu interromper o jogo e confrontar diretamente os agressores.

A atitude transformou o caso em um incidente diplomático e esportivo internacional, evidenciando que o combate ao racismo no futebol não admite mais o silêncio como resposta institucional.

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