Bispo de Santos assina manifesto que alerta para riscos à democracia com Flávio Bolsonaro

Dom Joaquim Mol integra grupo de 60 bispos que conclamam católicos a votar em defesa dos pobres, do meio ambiente e da soberania nacional neste 2º turno

Bispo de Santos assina manifesto que alerta para riscos à democracia com Flávio Bolsonaro

Sandro Thadeu

23.10.2026

Imagem: Reprodução/Facebook

O bispo da Diocese de Santos, dom Joaquim Giovani Mol Guimarães, é um dos 60 bispos católicos que assinaram um manifesto nacional conclamando os fiéis a participarem do segundo turno das eleições presidenciais. O documento orienta que o voto seja balizado rigorosamente pelos princípios da Doutrina Social da Igreja.

Sem citar nomes diretamente, o texto fundamenta que o projeto político representado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL) oferece riscos à democracia, aos direitos trabalhistas, às políticas de combate à pobreza, à soberania nacional e à preservação ambiental.

De acordo com o grupo de religiosos, o atual cenário eleitoral exige uma reflexão profunda que vai além da simpatia ou rejeição pessoal ao governo atual. Nesse sentido, eles enfatizam a necessidade de examinar o impacto real das propostas de cada candidatura sobre a população e sua compatibilidade com os valores católicos.

"Não se trata apenas de uma escolha eleitoral, tantas vezes já praticada no Brasil, mas da possibilidade de uma mudança profunda nos rumos da nação", destaca o texto, fazendo referência explícita às experiências autoritárias do século 20.

Direitos dos trabalhadores e combate à pobreza

Entre as principais preocupações detalhadas pelos signatários estão o recuo na proteção social e o avanço da precarização dos trabalhadores. O manifesto critica posições atribuídas à candidatura de Flávio Bolsonaro, como a oposição inicial ao fim da escala de trabalho 6x1 e a defesa da remuneração por hora trabalhada.

Para embasar a crítica, os bispos citam a encíclica Magnifica Humanitas, sustentando que transformações econômicas e tecnológicas devem ser mensuradas pela dignidade humana, pela justa remuneração e pela inclusão social, e não exclusivamente pela eficiência de mercado.

Paralelamente, na esfera social, o manifesto recorre à exortação apostólica Dilexi Te, dedicada ao amor pelos vulneráveis. Os religiosos contestam a tese de que a livre iniciativa de mercado seja suficiente para erradicar a miséria e recordam que o partido da candidatura do PL historicamente se opôs a programas de transferência de renda e políticas públicas redistributivas.

Para os bispos, essa postura afronta a "opção preferencial pelos pobres", pilar fundamental da Igreja Católica.

Soberania, meio ambiente e armamentismo

Outro ponto de destaque no manifesto diz respeito à soberania e às pautas ambientais. A carta acusa o projeto de oposição de ameaçar os interesses nacionais ao acenar com maior submissão aos Estados Unidos, admitir ingerência externa no processo eleitoral e defender a exploração de terras raras por grupos estrangeiros.

Além disso, os bispos criticam o negacionismo em relação à crise climática e apontam retrocessos em legislações ambientais, citando expressamente a Lei 15.190/2025, que ficou conhecida como a "Lei da Devastação".

No tocante à segurança pública, o texto cita a Doutrina Social da Igreja para alertar que "o enorme aumento das armas representa uma ameaça grave para a estabilidade e a paz". Em contrapartida, Flávio Bolsonaro mantém a defesa da flexibilização do acesso a armas de fogo, na mesma linha adotada durante a gestão de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Risco institucional e defesa do regime democrático

A pauta dos direitos humanos e do respeito à integridade física também é destacada no manifesto com base no Compêndio da Doutrina Social da Igreja, que rejeita categoricamente qualquer recurso à tortura. Nesse aspecto, os bispos recordam que a família Bolsonaro prestou homenagens públicas a figuras associadas à repressão militar, como o general Brilhante Ustra, um dos maiores torturadores da ditadura civil-militar (1964-1985).

O manifesto adverte, ainda, sobre os riscos institucionais caso o senador do PL venha a conquistar o Poder Executivo com maioria no Congresso Nacional e interferência no Supremo Tribunal Federal (STF). O texto lembra o histórico de declarações contrárias à ordem constitucional e manifesta receio quanto à usurpação do poder e à submissão do Estado a pautas ideológicas extremistas.

Por outro lado, embora reconheçam que a gestão do atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), esteja sujeita a críticas, os bispos ressaltam que o petista manteve o compromisso histórico com as populações vulneráveis e atuou rigorosamente dentro dos marcos da legalidade democrática.

"Gostar ou não do atual Governo não pode ser razão para entregar o país nas mãos de quem manifesta tamanha contradição com os ensinamentos de nossa Igreja", reforça a nota.

Ao final, o documento convoca os católicos a comparecerem às urnas no próximo domingo, dia 25, apelando pela união em defesa da democracia, da justiça social e dos direitos humanos. Os bispos encerram o comunicado pedindo orações pelo Brasil e invocando a proteção de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do País.

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