Candidato aproveita campanha para investir contra pessoas em situação de rua em São Vicente (SP)
Novo ‘modelo’ de campanha já foi encaminhado ao Ministério Público e pode ser tipificado como exclusão urbana

Carlos Ratton
25.09.2026
Foto: Reprodução redes sociais
Os Inconfidentes receberam denúncias, acompanhadas de vídeos, em que o vereador e candidato a deputado estadual Tiago Peretto (Podemos) aparece supostamente aproveitando a campanha para promover uma espécie de higienização social ou limpeza social em São Vicente (SP). Os vídeos são do próprio parlamentar.
Utilizando-se das redes sociais, o parlamentar está promovendo, na prática e na política, a iniciativa de tentar afastar pessoas consideradas "indesejáveis" ou em situação de vulnerabilidade dos espaços públicos. Quase uma exclusão urbana, como diria sociólogos e estudiosos. O caso já chegou ao Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP) (veja nessa reportagem).

Guarda municipal revistando sobre as ordens de Peretto
Vale a pena ressaltar que Peretto é do mesmo partido do prefeito Kayo Amado. Neste sentido, por sua aproximação partidária, seria mais sensato sugerir à Administração Municipal, via Câmara de Vereadores, um projeto de ação social que promovesse a escuta e o direcionamento dos mais vulneráveis a programas de acolhimento e assistência.
Sua função principal é a de fiscalizar o Executivo e criar leis. No entanto, Peretto, como aponta os vídeos, está percorrendo locais degradados do Município, como marquises, pontes, prédios abandonados, portas de comércios desativados e calçadas da cidade, fazendo ameaças a carrinheiros, sem teto, dependentes químicos e pessoas que, por algum motivo, estão buscando espaço para dormir e se abrigar.
Há vídeos, postados pelo próprio vereador, em que ele usa até a Guarda Civil Municipal (GCM) como uma espécie de segurança privada, numa clara mostra de inversão de poderes. Os guardas também promovem ação contra vulneráveis socialmente.
Em um deles, ele acusa um rapaz de destruir suas peças de campanha. O caso chegou à delegacia em vídeos feitos como se fosse uma série. Em outro, diz que os carrinheiros são os únicos responsáveis por o acúmulo de sujeira sob um viaduto. Ele, em nenhum momento, cobra da Prefeitura a limpeza do local.

Peretto usando guardas e viaturas da GCM
MP
As ações de Tiago Peretto via redes sociais chegaram ao MPSP. Os Inconfidentes obtiveram informações que mais denúncias contra o vereador estão a caminho do órgão estadual. No caso concreto, o dirigente do PSOL, Danilo Tavares, foi o autor da denúncia. Ele encaminhou dois vídeos à Reportagem, que também foram utilizados em suas redes sociais para mensurar a ação de Peretto.
No primeiro, ele disse o seguinte: “quero deixar uma coisa muito transparente. A minha motivação não é eleitoral. Estamos falando de vidas humanas. A vida das pessoas em situação de rua é um desafio real, doloroso e urgente”, aponta o dirigente partidário, que explica que conhece a realidade vivida por comerciantes: “todo mundo quer uma cidade mais segura e organizada. A diferença é como a gente enfrenta esse problema. E o meu objetivo com essa denúncia é combater o populismo barato eleitoreiro”, completa.

Peretto agindo contra carrinheiros
Danilo Tavares lembra que, como vereador eleito, Peretto teve um mandato inteiro para trabalhar. “Ele poderia ter ido fiscalizar o Centro Pop (equipamento de assistência a moradores em situação de rua), poderia ter cobrado a gestão municipal, podia ter apresentado projetos de lei e propostas sérias de políticas públicas para resolver o problema. Mas sabe o que ele fez? Nada. Ele esperou o período eleitoral para ligar a câmera do celular e fazer o espetáculo em cima de quem é mais frágil”, dispara.
Para Tavares, o que se vê nos vídeos de Peretto é de uma gravidade enorme. Para ele, abordar pessoas na rua de forma ostensiva, fazer interrogatório informal, constranger, expor, apontar crimes sem o devido processo legal não é fiscalização. “Isso cruza os limites jurídicos perigosos de nossa democracia. Por isso, provoquei o Ministério Público para apurar possíveis práticas de constrangimento ilegal, abuso de autoridade, violência da dignidade humana e o uso indevido dessa situação para promoção eleitoral e política”.
‘Milicianismo Fajuto’
Ele reafirma que a segurança pública e assistência social se constrói com responsabilidade, com polícia, leis e instituições. “Mas não com milicianismo fajuto para ganhar curtidas e votos na internet, por intermédio de impulsionamentos pagos”, afirma, fazendo as contas dos custos das postagens.
Secretário
Em um segundo vídeo, Danilo Tavares cobra a Administração: “cadê o Jackson Nunes? O secretário de Direitos Humanos (de São Vicente). Cadê o psicólogo do Conselho da Igualdade Racial. Isso aí beira o racismo. Tem a estética de racismo. Ninguém vai fazer nada? Não tem conselho na cidade?”.

Danilo Tavares já produziu quatro vídeos denunciando a ação
Exclusão Urbana
Exclusão urbana, conforme estudos e artigos científicos sobre o comportamento humano, nada mais é do que tratar a pobreza e a situação de rua como problemas de segurança ou estética. Afastar grupos como sem tetos, usuários de drogas e pessoas pobres dos centros das cidades. Usar o poder público para impor um padrão de ocupação do espaço que exclui os mais vulneráveis.
O Movimento Higienista usou desculpas de saúde pública para destruir cortiços e expulsar os pobres dos centros urbanos. Ações violentas, remoções forçadas e a arquitetura hostil continuam a ser apontadas como formas de limpeza social.
Foto Exclusão Urbana
Audiência
Ao invés de tomar atitudes duvidosas, parlamentares e governantes deveriam se informar mais. O Ministério Público Federal (MPF) realiza, no próximo dia 8, uma audiência pública para debater medidas que garantam a pessoas em situação de rua o direito ao emprego, à renda, à ampliação da escolaridade e à qualificação profissional.
O evento será realizado no auditório da Procuradoria da República em São Paulo (SP), das 9h às 12h30, com transmissão ao vivo pelo canal do MPF no YouTube. A participação nos debates ocorrerá apenas de forma presencial, mediante inscrição prévia por e-mail até as 19h do dia 1º.
A audiência pública faz parte de um procedimento instaurado pelo MPF com a finalidade de acompanhar e fiscalizar as medidas adotadas pelo Poder Público e pela sociedade civil para viabilizar o acesso dessa parcela da população ao emprego e à renda.
O evento permitirá colher depoimentos, dados técnicos e sugestões sobre o tema. A participação é aberta a qualquer cidadão, movimentos sociais organizados (em especial o Movimento Nacional da População de Rua – MNPR – e o Movimento Nacional Meninos e Meninas de Rua – MNMMR), entidades da sociedade civil, representantes do setor empresarial, sindicatos e órgãos públicos.
Inscrições – Para fazer uso da palavra, os interessados deverão se inscrever pelo endereço eletrônico prdc-sp@mpf.mp.br, informando nome completo, telefone de contato, e-mail e, se for o caso, a instituição ou movimento que integram.
Cada expositor terá entre 10 e 15 minutos de tempo de fala, a depender do número de participantes. Também serão admitidas inscrições no dia da audiência, diretamente no local, sujeitas à capacidade física do auditório.
Desde o último dia 23, Os Inconfidentes vinham tentando ouvir a versão do vereador Tiago Perreto, por intermédio de sua assessoria. O espaço está aberto para que o vereador explique a situação apontada.

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