Capangas de Tarcísio agridem, arrastam e dão mata-leão

Por Odair Dias Filho
22.06.2026
Foto: Agência Brasil - EBC
Na data de 19 de junho, o Guarujá foi palco de mais um daqueles eventos recheados de pompas, gravatas e discursos ensaiados. A estrela da festa? O governador carioca... opa, desculpe, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Cercado de autoridades, parlamentares e de seu inseparável cordão de isolamento humano, o governador distribuía sorrisos, até que a realidade parou à sua frente, vestindo uma camiseta com a incômoda pergunta: "CADÊ A ÁGUA, SABESP?".
Quem vestia a peça era André Mariny, presidente da Associação de Moradores do Jardim Santense e dirigente da Confederação Municipal das Associações de Moradores de Guarujá (CMAG). Conhecido por sua postura pacífica, aversão à violência, mas inegociável firmeza quando o assunto é o direito de sua comunidade, André estava no evento devidamente credenciado, exibindo sua pulseira laranja de acesso. Ao ser cumprimentado pelo governador de forma protocolar, o líder comunitário fez o que se espera de um cidadão: cobrou.
Quando Tarcísio tentou usar a velha cartilha do "estamos investindo bilhões", André rebateu com uma obviedade que parece escapar aos burocratas: "O que tem que sair pela torneira é água, e não dinheiro".
O governador "carioca-paulista" então tentou minimizar o descaso, alegando que aquele era um problema de 20 anos e teve a audácia de dizer que a falta de água acontece "só na temporada".
Não, não e não, governador! A seca nas torneiras agora tortura o povo o ano inteiro. E aqui aproveitamos para fazer uma pergunta simples ao governador carioca-paulista: será que falta água na sua casa durante a temporada?
Foi o suficiente. A tolerância democrática do atual governo parece ter limite de caracteres. Logo após o diálogo, André não foi abordado por assessores dispostos a anotar as demandas do bairro.
Foi cercado por cerca de seis capangas da segurança, que questionaram sua permanência no local por causa da camiseta estampada.
Mesmo argumentando que estava em seu direito e credenciado, o líder comunitário foi arrastado à força por quase 50 metros. Foi imobilizado pelos braços, pernas e asfixiado com um "mata-leão" — um golpe de artes marciais altamente letal e covarde para ser usado contra um homem desarmado que apenas pedia saneamento básico.
A ironia trágica e perversa é que a truculência contra um munícipe cobrando água reflete com perfeição o modus operandi da gestão estadual.
Não lhes basta nos matar com a repressão nas periferias, retirar o direito a uma educação decente e promover o sucateamento absoluto das políticas sociais para privatizar e entregar o patrimônio público aos amigos do mercado — como num verdadeiro bingo de velhos oligarcas fatiando a Sabesp.
Agora, o governo quer, literalmente, nos MATAR DE SEDE. E, se ousarmos reclamar da garganta seca, a resposta do Estado é nos asfixiar fisicamente.
Essa agressão covarde no Guarujá é apenas o microcosmo de um Estado que transformou a violência em sua principal política pública. Os dados são escandalosos e não me deixam mentir.
Levantamentos baseados em dados da própria Secretaria da Segurança Pública (SSP-SP) e analisados por entidades como a Rede de Observatórios da Segurança revelam que a letalidade policial em São Paulo disparou sob a batuta de Tarcísio.
Entre 2023 e 2024, houve um aumento de quase 60% nas mortes decorrentes de intervenção policial. O estado saltou para mais de 800 vítimas anuais, batendo recordes da série histórica.
E adivinhe qual região liderou esse banho de sangue? A mesma Baixada Santista que sediava o evento do governador, palco das infames Operações Escudo e Verão, que empilharam dezenas de corpos periféricos justificando a barbárie sob o manto da "segurança".
A lógica é límpida: nas vielas das comunidades, a polícia de Tarcísio entra atirando; nos eventos oficiais com tapete vermelho, seus seguranças entram dando mata-leão em líder comunitário. É a criminalização da pobreza e do direito de protestar.
A CMAG, entidade de Utilidade Pública que reúne as associações de bairros da cidade, está preparando uma necessária carta de repúdio contra esse episódio dantesco, a qual tem todo o nosso apoio. Enquanto a elite política comemora a venda das nossas águas em leilões na bolsa de valores, o povo é calado à força. Que a água falte para o lucro das privatizações, mas que nunca nos falte o fôlego para denunciar e resistir.

Odair Dias Filho é professor universitário, pesquisador, assistente social e poeta

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