Capela é vandalizada em Peruíbe e ataque levanta suspeita de intolerância religiosa
Imagem histórica de Santo Antônio foi destruída, provocando indignação na comunidade caiçara da Barra do Una

Sandro Thadeu
20.10.2026
Imagens: Divulgação e reprodução/Instagram
Um episódio de vandalismo com indícios de intolerância religiosa abalou os moradores da comunidade caiçara da Barra do Una, em Peruíbe, no litoral sul de São Paulo. Na manhã da última quinta-feira (15), a capela da vila foi encontrada vandalizada, com a imagem de Santo Antônio destruída, jarras de vidro com água benta quebradas e o livro religioso rasgado.
Embora a estrutura física da igreja não tenha sofrido danos, a destruição dos objetos sagrados atingiu um espaço que faz parte da história e da memória afetiva dos moradores. Além disso, uma imagem de Nossa Senhora, que estava na varanda de uma residência da comunidade, também foi quebrada.
Em razão disso, a ausência de relatos de furto de objetos de valor e a destruição de símbolos da Igreja Católica levantam a suspeita de que os ataques possam ter sido motivados por intolerância religiosa. Entretanto, a autoria e as circunstâncias dos atos ainda precisam ser esclarecidas pelas autoridades policiais.
Choque e tristeza
Moradora da Barra do Una desde a infância, a pescadora e bióloga Fernanda Monteiro Prado foi a primeira pessoa a identificar o espaço vandalizado, na manhã de quinta-feira (15). Ao se deparar com a cena, ela registrou o estado do local em vídeo e entrou em contato com a Paróquia São João Batista. “Tomei um choque, porque nunca aconteceu isso na nossa comunidade”, lamentou.
Segundo ela, a imagem de Santo Antônio destruída estava na comunidade há cerca de 70 anos, atravessando gerações de famílias da vila. Por isso, a perda tem um significado que vai além do valor material. “É uma perda. É uma imagem de muitos anos, que já foi dos avós, dos bisavós de várias pessoas, de gerações e gerações que estão na comunidade”, afirmou.
Ademais, Fernanda acredita que o episódio possa estar relacionado à intolerância religiosa, especialmente porque não houve subtração de objetos de valor. “Acredito, sim, que foi intolerância religiosa. Eu vi como algo de muita raiva, de muito ódio”, disse.
Importância histórica e afetiva
Com 93 habitantes, Barra do Una é uma pequena comunidade de pescadores situada na região da Juréia-Itatins, em Peruíbe. Embora os católicos sejam minoria entre os moradores, a capela permanece como um espaço de referência para quem mantém vínculos com a tradição religiosa local.
O prédio foi construído há cerca de 20 anos, com a participação de moradores da comunidade. A mãe de Fernanda, inclusive, esteve entre as mulheres que ajudaram a erguer a igreja.
Mesmo sem a realização de missas nos últimos meses, o espaço religioso continuava sendo limpo e conservado pelos fiéis. As celebrações aconteciam anteriormente cerca de uma vez por mês.
Agora, os moradores planejam adquirir uma nova imagem de Santo Antônio para colocá-la novamente no local. A iniciativa busca preservar a continuidade da vida religiosa da comunidade, embora a substituição não apague o valor histórico da peça original.
Cobrança por investigação
A capela é vinculada à Paróquia São João Batista. Na última sexta-feira (16), o pároco Marco Antonio Rossi divulgou uma carta de repúdio à invasão e manifestou solidariedade aos moradores da Barra do Una.
No documento, o sacerdote destacou a importância do espaço para a comunidade, descrevendo-a como um lugar de oração, encontro e acolhida, onde os moradores guardam lembranças, partilham sofrimentos e renovam a esperança. Além disso, pediu que as autoridades esclareçam as circunstâncias do ocorrido e identifiquem os responsáveis.

Padre Marco Antonio Rossi se manifestou sobre o ocorrido
Em mensagem direcionada aos fiéis, Rossi fez questão de reafirmar o apoio pastoral e a união com os moradores. “Compartilho da tristeza e da indignação de vocês. Não estão sozinhos: nossa paróquia se une a essa comunidade em oração e solidariedade”, reiterou.
“Nenhuma diferença de crença justifica a violência ou a profanação de um espaço religioso. A liberdade de crer e o respeito à dignidade de cada pessoa precisam ser preservados por todos nós”, complementou.
Rossi também mencionou que a agressão atinge não apenas o espaço físico, mas as pessoas que cultivam ali sua fé, suas lembranças e seus vínculos comunitários.
Ao concluir a nota, o pároco transmitiu uma mensagem de resiliência e busca por justiça. “Nossa resposta será firme na defesa da justiça e perseverante na construção da paz. Que Santo Antônio de Pádua interceda por nossa comunidade e nos ajude a permanecer unidos, sem permitir que o medo ou o ódio tenham a última palavra”, concluiu.
Por fim, um Boletim de Ocorrência (BO) foi registrado na Delegacia de Peruíbe na última sexta-feira (15). A Polícia Civil realiza diligências para apurar a totalidade dos fatos, identificar os autores do crime e esclarecer a motivação dos atos.
Respeito à cultura caiçara
A vereadora de Peruíbe Adriana Lima (PT) divulgou uma nota de solidariedade à comunidade da Barra do Una, classificando o ato como uma violência que ultrapassa os limites religiosos e atinge a identidade cultural do Município.
Segundo a parlamentar, o ataque representa uma agressão direta à história e às tradições dos povos caiçaras. "Na Barra do Una, esse patrimônio também carrega um significado que vai além da religião. Santo Antônio e São Pedro fazem parte da memória e das tradições da cultura caiçara, presentes nas celebrações, nas festas comunitárias e nos saberes transmitidos entre gerações", justificou.
Além disso, a vereadora reforçou a necessidade de união comunitária e de garantia do direito à livre manifestação de fé na Cidade. "Respeitar a fé é respeitar as pessoas. Proteger a cultura caiçara é proteger a história, a identidade e a memória de nosso povo", frisou Adriana.

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