Carnaval consciente: falsa abolição e racismo estrutural é tema em Santos

Cidinha Santos

Carnaval consciente: falsa abolição e racismo estrutural é tema em Santos

Cidinha Santos

04.02.2026

Fotos Divulgação/PMS

A Escola de Samba Unidos da Zona Noroeste definiu que sua passagem pelo Carnaval 2026 será muito mais do que um desfile: será um acerto de contas com a história oficial. Com título provocativo e potente — “Somos Netos dos Negros que vocês não conseguiram matar” — a agremiação levará para a avenida uma reflexão crítica sobre a farsa da abolição e a continuidade dos mecanismos de exclusão que atingem a população preta.

O desfile acontece nos dias 6 e 7, a partir das 20 horas. A Unidos da Zona Noroeste será a terceira escola a desfilar na passarela Dráuzio da Cruz (Avenida Afonso Schmidt – Castelo), no dia 7, às 22 horas, disputando o acesso ao Grupo Especial com outras sete agremiações.

Com o enredo “Somos Netos dos Negros que vocês não conseguiram matar”, a escola denuncia a segregação urbana em Santos e femenageia a luta das Mães de Maio na passarela Dráuzio da Cruz

A ferida aberta na "Cidade Abolicionista"

Embora Santos seja historicamente celebrada por seu pioneirismo abolicionista, a Unidos da Zona Noroeste pretende jogar luz sobre as contradições dessa narrativa. O enredo denuncia a "liberdade vendida" e aponta como o desenvolvimento urbano da cidade empurrou os corpos negros para as margens. Por meio do samba, a escola mostrará como o racismo estrutural sofisticou a opressão, criando uma geografia de exclusão que separa o asfalto do morro e o centro da periferia.

Do tronco ao genocídio contemporâneo

A narrativa do desfile conecta o passado escravocrata às violências atuais. Segundo o projeto da escola, o sistema que antigamente utilizava o tronco hoje se manifesta na violência estatal e na negligência social, principalmente contra a juventude negra a quem não é permitido fazer planos.

Um dos momentos mais aguardados e de maior densidade emocional será a Ala das Baianas. O setor mais tradicional da escola será inteiramente dedicado às Mães de Maio, conectando a dor das ancestrais às mães que hoje buscam justiça pelos filhos perdidos nos becos e vielas da Baixada Santista. O tradicional rodar das saias simbolizará, desta vez, um acalanto e um grito por reparação.

Ala das Mulheres Negras por Reparação, com a primeira porta-bandeira da escola, Thaís Helena

Protagonismo feminino e o toque de Xangô

A contemporaneidade também terá espaço com a Ala das Mulheres Negras por Reparação. O setor promete levar a estética retinta e o orgulho das favelas para o sambódromo, reforçando a mulher negra como motor de transformação social.

Na parte musical, a bateria da "Academia" invocará o toque de Alujá, ritmo sagrado de Xangô, o orixá da justiça. O objetivo é transformar o luto em um brado de orgulho quilombola. O refrão principal sintetiza a missão: “Sou neto de reis da coroa saber / A cor-resistência nasci para vencer”.

Parte das mães de maio com algumas baianas da ala

Entrevista - A voz da comunidade por João Marcos, presidente da Escola de Samba Unidos da Zona Noroeste

O título do enredo para 2026 é impactante: “Somos Netos dos Negros que vocês não conseguiram matar”. Qual é a mensagem principal que a escola quer deixar na avenida?

João Marcos - A mensagem é de sobrevivência e continuidade. Queremos dizer que, apesar de todo o projeto de apagamento histórico e físico da população preta, nós estamos aqui. Não somos apenas descendentes de escravizados; somos herdeiros de reis, rainhas e de uma resistência que não se quebrou. É um grito de "chega" para a narrativa da abolição romântica que Santos costuma contar.

Como a escola pretende equilibrar a densidade do tema, como a homenagem às Mães de Maio, com a alegria do Carnaval?

João Marcos - O Carnaval sempre foi o quilombo do povo preto. A alegria aqui não é alienação, é resistência. Quando as Baianas rodarem representando as Mães de Maio, não será apenas dor; será acolhimento e a transformação do luto em luta coletiva. É um ritual. O público vai sentir um nó na garganta, mas também um orgulho imenso de ver essa história sendo honrada.

A bateria Ritmo Perfeito é o coração da escola, mas este ano ela assume um papel de manifesto vivo. Como a composição deste setor — formado por jovens da comunidade, homens e mulheres, em sua grande maioria negros — personifica a mensagem de que vocês são 'os netos que não conseguiram matar'?

João Marcos - A Ritmo Perfeito é a materialização da nossa sobrevivência. Quando vemos nossos jovens da Zona Noroeste, herdeiros dessa história de luta, empunhando as baquetas, estamos vendo a continuidade de um povo que o sistema tentou silenciar. Ter uma bateria onde homens e mulheres negros dividem o protagonismo e o peso dos instrumentos é um ato político. Ela mostra que a nossa ancestralidade não está guardada em um museu, mas viva e pulsante no braço de cada ritmista. Ao executar o Alujá de Xangô, essa juventude não está apenas tocando um samba; ela está invocando justiça e ocupando o centro da cidade de Santos com o barulho da sua existência. É o 'ritmo perfeito' entre a precisão técnica e a força da nossa identidade quilombola.

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