CEI da Câmara de Cubatão inicia oitivas sobre atendimento que antecedeu a morte do menino Matteo

Primeira rodada de depoimentos reuniu oito profissionais do PS Infantil e levantou questionamentos sobre protocolos médicos, prontuário eletrônico e divergência nos diagnósticos da causa do óbito

CEI da Câmara de Cubatão inicia oitivas sobre atendimento que antecedeu a morte do menino Matteo

Sandro Thadeu

23.07.2026

Imagens: Divulgação/Rodrigo Palassi/CMC

A Comissão Especial de Inquérito (CEI) da Câmara de Cubatão deu início, nesta quarta-feira (22), à fase de depoimentos para apurar uma possível negligência médica no atendimento prestado a Matteo Lima Albertino, de dois anos, que morreu em 30 de junho, no Hospital Municipal.

Segundo informações apuradas pela Reportagem, a primeira rodada de oitivas ocorreu das 10 às 16 horas e reuniu oito médicos que atenderam o menino no Pronto-Socorro (PS) Infantil. Apenas uma profissional justificou a ausência por estar em viagem e será convocada posteriormente para depor.

Durante a reunião, os vereadores concentraram os questionamentos na condução dos atendimentos prestados ao garoto, principalmente no que diz respeito à ausência de exames laboratoriais e de imagem nos últimos atendimentos realizados antes da internação.

A família levou Matteo ao PS Infantil durante três dias consecutivos e, em todas as ocasiões, recebeu atendimento médico e liberado para retornar para casa.

Em 30 de junho, após apresentar piora, a criança foi internada. Por volta do meio-dia, a equipe concluiu a necessidade de transferência para um leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), mas a vaga foi disponibilizada apenas à noite. O menino morreu minutos após ser transferido à UTI.

A morte de Matteo, de apenas dois anos, gerou grande comoção em Cubatão

Laudos sob análise

Outro ponto que chamou a atenção dos integrantes da CEI foi a diferença entre os diagnósticos relacionados à causa da morte.

Conforme informado pelo Hospital Municipal aos familiares, Matteo morreu em decorrência de sepse (infecção generalizada). Já o laudo emitido pelo Serviço de Verificação de Óbito (SVO) apontou apendicite como causa do falecimento.

Embora os dois diagnósticos não sejam necessariamente incompatíveis, pois uma apendicite pode evoluir para um quadro de sepse, os médicos ouvidos pela CEI afirmaram que seguiram os protocolos clínicos e sustentaram que, nos exames físicos realizados durante os atendimentos, não havia indícios que justificassem o diagnóstico de apendicite naquele momento.

Sistema de prontuários entra na investigação

Além da conduta médica, a CEI deverá se aprofundar no funcionamento do sistema eletrônico de prontuários utilizado pela rede municipal de saúde.

Durante a oitiva, os profissionais relataram dificuldades para acessar rapidamente o histórico de atendimentos anteriores dos pacientes na plataforma.

Essa limitação pode ter comprometido a continuidade da investigação clínica de Matteo ao longo dos diversos atendimentos realizados nos dias que antecederam a internação.

Diante disso, a substituição do sistema já começa a ser discutida como uma das recomendações que poderão constar do relatório final da CEI.

Durante as oitivas, os médicos citaram problemas no sistema eletrônico de prontuários

Capacitação dos médicos

Conforme informações apuradas pela Reportagem, os profissionais que atenderam Matteo informaram possuir certificação PALS (Pediatric Advanced Life Support – Suporte Avançado de Vida em Pediatria), treinamento voltado ao atendimento de urgências e emergências pediátricas, cuja atualização é exigida a cada dois anos.

A CEI deverá verificar se a qualificação dos profissionais que atuavam no PS Infantil atendia às exigências previstas no contrato firmado entre a Prefeitura e o Instituto Alpha, a organização social responsável pela gestão da unidade e do Hospital Municipal.

Novas oitivas

Os trabalhos da CEI continuam nesta quinta-feira (23) com depoimentos de representantes do Instituto Alpha, além de integrantes da Secretaria Municipal de Saúde e do Serviço de Verificação de Óbito (SVO).

A expectativa dos vereadores é esclarecer quais elementos técnicos levaram o SVO a apontar a apendicite como causa da morte e verificar se houve falhas no atendimento, no diagnóstico ou no processo de transferência para um leito de terapia intensiva.

O objetivo da investigação é reconstruir toda a linha do atendimento prestado à criança, identificar eventuais falhas nos protocolos médicos e administrativos, apontar responsabilidades e propor mudanças que possam evitar novos casos semelhantes na rede municipal de saúde, como melhorias no sistema de prontuário eletrônico. O relatório final será encaminhado ao Ministério Público e poderá subsidiar as investigações em andamento.

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