Cidade de Santos (SP) perde verde, fica mais quente e respira por aparelhos
Carlos Ratton

Carlos Ratton
30.01.2026
Fotos: Tony Valentte
Se Santos (SP) fosse um grande hospital, poderíamos dizer que o meio ambiente urbano estaria respirando por aparelhos. Nesses 480 de aniversário da cidade, um movimento intitulado Santos Mais Verde, que reúne 35 entidades da sociedade civil preocupadas com a melhor qualidade de vida dos moradores e que pretende reverter a falta de espaços públicos para atividades saudáveis em contato maior com a natureza, caminha devagar por conta da falta de incentivo do poder público.
O geólogo Marcos Bandini, hoje aposentado da Prefeitura de Santos, fez uma espécie de desabafo aos Inconfidentes esta semana no apagar das comemorações. Segundo revelou, o movimento visa potencializar, agilizar as iniciativas referentes à arborização.
“Mas essa luta está sendo travada com poucos resultados até o momento.Apresentamos sugestões e soluções que vem ocorrendo em outras cidades brasileiras junto ao Conselho Municipal e à Secretaria de Meio Ambiente mas, salvo uma ou outra intervenção, o processo é muito lento. É preciso uma transformação, a qualificação das áreas verdes”, desabafa.
Bandini afirma que há vários bairros de Santos que ressente da falta de arborização. Ele dá como exemplo o Campo Grande e, mais precisamente, o pátio de estacionamento ao lado da Estação da Cidadania, na Avenida Ana Costa. “Ele está muito árido. A arborização no entorno é bastante exígua. E com isso, nos dias quentes, fica insuportável caminhar nele e no entorno dele”.

Geólogo Marcos Bandini
Bandini explica que o Movimento precisa de maior adesão do poder público e da própria sociedade porque busca para a Cidade um padrão mínimo de qualidade de vida. Além do Campo Grande, ele lembra que o Marapé, a Ponta da Praia, o Estuário e outros bairros da cidade já estão dominados pelo asfalto e o concreto, sem pontos e respiro.
“E os problemas só crescem. Dependendo do horário, é quase impossível caminhar. Há somente um ou outra rua arborizada. Nesses casos, a diferença de temperatura é absurda. É só caminhar pelo Canal 3, por exemplo, que se percebe a diferença. A orla é outro exemplo. O nosso orquidário é uma exceção. Tem várias áreas destinadas a praças na cidade que estão impermeabilizadas ou com edificações públicas, ao invés de serem praças. Isso hoje tem um custo para nós”, finaliza.
Parque
O Movimento Santos Mais Verde vem há meses tentando abrir o caminho da conscientização. Um dos primeiros passos seria a aprovação urgente da criação de um parque em área contígua à Estação da Cidadania de Santos já citada, hoje ocupada por pequena parte do estacionamento do Supermercado Assaí, na Avenida Ana Costa, 340.
O Concidadania se manifestou sobre a questão ano passado, na Associação Comercial de Santos, durante a audiência pública sobre a Lei de Uso e da Ocupação do Solo da Área Insular do Município de Santos. O parque seria o início da retomada das áreas verdes da Cidade diante das emergências climáticas atuais.
O Movimento Santos Mais Verde tem a alternativa legal para que parque se torne realidade. Propõe a alteração do artigo 131 da Lei complementar 1.187/22 que define o Núcleo de Intervenção e Diretrizes Estratégicas 4 (NIDE 4) Estação Sorocabana, que fica entre às avenidas Francisco Glicério, Ana Costa e rua Pedro Américo.
A mudança da lei defende que qualquer alteração de uso, parcelamento, substituição das edificações existentes, reformas que impliquem em ampliação de mais de 10% da área construída total ou construção de qualquer edificação na área onde atualmente se encontra o estacionamento do empreendimento nele localizado, ficaria condicionada a um termo de compromisso.
O documento seria firmado entre a Prefeitura e o proprietário dos imóveis envolvidos, garantindo com prazo de três anos para realização dos serviços para concepção do parque, com uso exclusivo de pedestres, ciclistas, veículos públicos de serviços e veículos de socorro.
Teria que garantir que quando se tratar de edificações localizadas na área do atual estacionamento, a área de implantação do parque seria definida como prioritária a receber as compensações ambientais exigidas pela Lei Complementar nº 973, de 25 de agosto de 2017.
Os integrantes do Movimento justificam a transformação do estacionamento em um parque. Entre elas a que leva em consideração que Santos é o município mais verticalizado do Brasil que ocupa o 2.529° lugar entre 5.568 municípios brasileiros, em termos de percentual de arborização, segundo o Censo Demográfico do IBGE de 2022.
Santos é a cidade do litoral paulista com o pior coeficiente de ilhas de calor, segundo a plataforma Urbverde, da Universidade de São Paulo (USP), Universidade Lusófona, e Universidades Federais de São Carlos (UFSCar) e da Bahia (UFBA), com índice de 83,3, sendo o valor máximo 100, influenciado por fatores como a intensa atividade portuária, os prédios altos que bloqueiam a brisa marítima e a geografia de morros.

“Além disso, 99% da população vive na área insular, onde a distribuição e acesso a áreas verdes é extremamente desigual. O bairro do Campo Grande não possui uma área verde sequer e o bairro da Encruzilhada possui escassas áreas verdes, também com alta densidade demográfica”, informaram na ocasião.
O terreno onde hoje está localizado o estacionamento do supermercado Assaí, no bairro Campo Grande, nas divisas com os bairros Encruzilhada e Gonzaga, é extremamente impermeabilizado e influencia efetivamente na formação de ilha de calor.
Por isso, para o Movimento, torna-se fundamental criar um regramento urbanístico para o local, que garanta a implantação de área verde, contribuindo para mitigar os graves problemas acima relatados, aproveitando o fato de que a área do estacionamento ainda não foi edificada.
Arquiteto
Defensor ambiental e encabeçando uma luta considerada inglória que visa a ampliação do número de árvores na cidade, o arquiteto urbanista e professor universitário José Marques Carriço revela que ao invés de trabalhar junto com o Movimento Santos Mais Verde, a Administração Municipal prefere criar um programa ‘espelho’ para competir e só aprova o que lhe interessa.
“De início, a proposta de emenda à Lei de Uso e Ocupação do Solo para criação do parque ao lado da Estação Cidadania não foi aceita por motivos de segurança jurídica, que nunca são empecilhos quando o interesse é do capital imobiliário”, afirmara Carriço, em entrevista concedida na ocasião.

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