Cidade que abriga a maior favela de palafitas do Brasil não possui brigada comunitária de incêndio

Carlos Ratton

Cidade que abriga a maior favela de palafitas do Brasil não possui brigada comunitária de incêndio

Carlos Ratton

30.01.2026

Fotos: Redes Sociais/Agência Brasil/PMS/Facebook

A cidade de Santos completa 480 anos, abriga o Dique da Vila Gilda, a maior favela de palafitas do Brasil, com estimativas que chegam a 20 mil habitantes vivendo em condições precárias sobre manguezais na Zona Noroeste, enfrentando incêndios sucessivos e, até hoje, não possui uma brigada comunitária para ajudar no combate ao fogo e socorrer as vítimas. 

Iniciativa já existe, é assinada pelo educador social Douglas dos Anjos Severino, militante do grupo Jovens pela Zona Noroeste e está, há pelo menos 10 anos, aguardando uma decisão da Prefeitura de Santos. A brigada poderia ser de grande valia no último incêndio, de grandes proporções, que atingiu cerca de sete moradias na comunidade da Comporta, Zona Noroeste de Santos, na noite desta terça-feira (27).

“Um dos maiores problemas para quem mora em cima das palafitas é a questão dos incêndios. Para além de todos os problemas de habitação, de saúde, de saneamento básico, é a questão dos incêndios, a coisa mais avassaladora dentro da comunidade”, afirma Douglas dos Anjos, autor do Projeto da Brigada Comunitária.

Conforme explica, a proposta seria um treinamento de pessoas para, na hora do incêndio, saber como agir, fazer conexões entre o que é necessário e o que é possível para quem está no meio do fogo. Facilitar o acesso do bombeiro aos pontos de incêndio.

“Uma das coisas que acontece, por exemplo, é da pessoa subir e pegar a mangueira e levar para a casa dela. Esse tipo de ação não adianta. Precisa ser feito combate efetivo e as pessoas não sabem disso, não respeitam o bombeiro porque está na correria, na aflição”, explica o educador social.

Douglas dos Anjos explica que as pessoas que fariam parte da Brigada Comunitária se tornariam agentes contínuos de verificação de riscos de incêndio e planejamento de atendimento. “O foco é tirar as pessoas com pouca mobilidade. Essas correm risco de morte dentro de casa. A questão elétrica, por exemplo. É preciso ter uma pessoa por beco para verificar sistematicamente esse questão”.

Outra questão, segundo dos Anjos, são os hidrantes, que são quebrados para que o cobre seja vendido. A Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), segundo revela, fecha o hidrante e não comunica o Corpo de Bombeiros que, por sua vez, teria que verificar o equipamento de segurança a cada seis meses.

“Quando ocorre o incêndio, o bombeiro chega e o hidrante está inutilizado. Até mudar a logística de combate ao incêndio, seis barracos a mais são destruídos. Então, a intenção é que o projeto forme um grupo de pessoas que continuamente estarão responsáveis pela verificação de equipamentos, trabalhando para evitar os incêndios e cuidando das pessoas. Que, no momento do incêndio, haja um protocolo a ser seguido que vai tornar o trabalho dos bombeiros mais efetivo”.

Douglas dos Anjos 

O educador explica que a Brigada Comunitária também seria treinada para a retirada dos pertences das famílias com segurança, impedir roubos, localizar garagens para abrigar os carros e desobstruir as vielas e outros procedimentos. “E para isso, vão ter pessoas que vão ser treinadas para ficar com eles, para cuidar das crianças, para cuidar dos animais”.

Douglas dos Anjos disse aos Inconfidentes que já apresentou seu projeto a vários vereadores e representantes da Prefeitura de Santos, mas sua proposta não foi analisada com a atenção necessária, enquanto incêndios, infelizmente, ocorrem na cidade. Em um deles, uma idosa perdeu a vida.   

 “Esse projeto surgiu em 2017, com um parceiro meu. Nessa época, levei para os vereadores. Mandei e-mail para a Câmara em geral. Ninguém me chamou. Fiz praticamente o mesmo em relação à Prefeitura. O projeto está na página dos Jovens Pela Zona Noroeste. No início do ano passado, eu voltei a pautar a questão da Brigada Comunitária, que é Intersetorial”, finaliza.

Vale lembrar que, em agosto do ano passado, um incêndio de grandes proporções atingiu a comunidade conhecida como Caminho São Sebastião, fica na região da Vila Gilda, no bairro do Rádio Clube. Mais de 50 barracos foram atingidos pelas chamas. Foi o segundo em menos de um mês.

Várias guarnições do 6º GB estiveram no local e conseguiram controlar o fogo. Um homem precisou ser socorrido pela ambulância do SAMU após inalar fumaça e queimar as vias aéreas superiores.

 

Em 2 de Janeiro de 2017, um incêndio atingiu as moradias do Caminho São José, deixando 318 famílias desabrigadas. A Defesa Civil afirmou que cerca de 200 moradias foram atingidas, no que já é considerado o maior incêndio em palafitas de Santos.

Em 5 de janeiro de 2018, outro incêndio atingiu as palafitas do Caminho São Sebastião. O incêndio foi controlado em torno das 17h30. Doze viaturas do Corpo de Bombeiros foram para o local, três vítimas foram confirmadas e atendidas no Pronto-Socorro da Zona Noroeste. Vinte casas foram atingidas pelo fogo.

Já em 11 de agosto de 2019, um novo incêndio destruiu mais de 10 moradias na comunidade do Mangue Seco. As chamas se iniciaram após um curto-circuito em uma fiação elétrica. O fogo começou por volta das 3 horas em uma das moradias, e logo se alastrou. Os moradores acionaram o Corpo de Bombeiros e 15 casas foram atingidas.

Por fim, em 20 de abril de 2020, cerca de 75 barracos pegaram fogo ou foram danificados por incêndio no Caminho da Divisa, destruindo o pouco que tinham as famílias desabrigadas, que engrossaram as estatísticas de incêndios em favelas santistas. E as autoridades se conformam em remediar, nunca em prevenir.  

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