Com novos servidores, Fundacentro retoma protagonismo e mira expansão na Baixada Santista
26.03.2025

26.03.2025
Sandro Thadeu
Fotos: Sandro Thadeu e Divulgação
Após um período de esvaziamento institucional, a Fundacentro volta a ocupar espaço estratégico no debate sobre saúde e segurança do trabalho no Brasil. À frente desse processo de reconstrução está o médico Pedro Tourinho, que aposta na recomposição do corpo técnico e na reativação de unidades regionais para fortalecer a instituição no cenário nacional.
Criada em 1966, em um contexto de rápida urbanização e altos índices de acidentes de trabalho, a fundação se consolidou como referência na produção de conhecimento técnico e na formação de profissionais da área. Décadas depois, no entanto, enfrentou um período de enfraquecimento, com redução de atividades e perda de quadros, especialmente durante as gestões dos ex-presidentes Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL).
Com o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao comando do País, o cenário começa a mudar. Em outubro do ano passado, a instituição realizou o maior concurso público de sua história, com a contratação de 65 novos pesquisadores, tecnologistas e analistas, um movimento considerado essencial para recuperar a capacidade operacional.
“Esses profissionais chegam para, de fato, ressuscitar a entidade. São pessoas com muita bagagem, que vão mudar a forma de atuação da Fundacentro”, afirmou Tourinho em entrevista exclusiva aos Inconfidentes, na última terça-feira, quando esteve em Santos para participar da reunião da Comissão Intersetorial de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora (CISTT), realizada no Sindicato dos Empregados em Edifícios (Sindedif).
A estratégia de reconstrução também passa pela valorização de unidades regionais consideradas estratégicas. É nesse ponto que a Baixada Santista ganha protagonismo. Segundo o presidente, houve uma decisão política de interromper o processo de desativação de estruturas importantes, como as de Santos e Campinas.
“Nós revertemos o processo de extinção dessas unidades porque entendemos que são territórios com dinâmicas próprias. A Baixada Santista tem uma realidade muito particular, ligada ao setor portuário”, explicou.
A presença da fundação na região vai além da estrutura física. Estudos e pesquisas já estão em andamento para analisar, por exemplo, os riscos ergonômicos enfrentados por trabalhadores do Porto de Santos, que tem uma importância estratégica para a economia local, estadual e do País.
Reconstrução em curso
A reconstrução da Fundacentro, no entanto, não é apenas administrativa. Trata-se, segundo Tourinho, de resgatar o papel histórico da instituição em um país que ainda convive com desafios estruturais no mundo do trabalho.
“Mesmo com avanços importantes, o Brasil ainda registra altos índices de acidentes em determinados setores, além do crescimento da informalidade. Por isso, a Fundacentro continua sendo indispensável”, ressaltou.
Com uma rede nacional de unidades e um corpo técnico em recomposição, a instituição busca, mais uma vez, ocupar o centro das discussões sobre como o trabalho impacta a saúde dos brasileiros e como prevenir riscos em um cenário cada vez mais complexo.

Subnotifcação elevada de acidentes de trabalho
Apesar dos avanços na produção de conhecimento e na formulação de políticas públicas, um dos principais desafios na área de saúde e segurança do trabalho ainda é a fragilidade dos dados oficiais. Segundo Tourinho, há inconsistências relevantes entre os sistemas de registro de acidentes e doenças ocupacionais no País.
O presidente da Fundacentro explicou que, atualmente, coexistem diferentes bases de informação, como o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) vinculado ao Ministério da Saúde, e os registros da Previdência Social, alimentados pelas comunicações de acidente de trabalho (CATs), o que dificulta a consolidação de estatísticas confiáveis.
“Em 2024, tivemos cerca de 724 mil acidentes registrados e mais de 2.800 mortes. Mas, quando olhamos outros sistemas, como o Sinan, esse número de óbitos pode chegar a 4 mil. Isso mostra que ainda não temos uma base de dados plenamente integrada e confiável”, afirmou.
Na avaliação dele, o problema pode ser ainda maior devido à subnotificação, especialmente em segmentos mais precarizados do mercado de trabalho. “Nós sabemos que há um volume significativo de acidentes que simplesmente não entra nas estatísticas oficiais. Em alguns casos, o número real pode ser muito superior ao registrado”, alertou.
Tourinho citou como exemplo os trabalhadores de aplicativos e motociclistas, frequentemente envolvidos em acidentes de trânsito que não são formalmente reconhecidos como relacionados ao trabalho. “Muitos desses profissionais chegam aos hospitais todos os dias, mas os casos não são registrados como acidentes de trabalho. Isso distorce completamente a leitura da realidade”, destacou.

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