Como dois e dois – A Ditadura segundo Caetano Veloso

Por Roberto Canuto
01.08.2026
Imagem: Instagram
Conheci essa canção quando eu era criança, na voz de Roberto Carlos, mas foi composta por Caetano, que havia sido visitado pelo rei em seu exílio na Inglaterra, o que gerou a canção "Debaixo dos caracóis de seus cabelos" feita por Roberto e Erasmo em homenagem a Caetano e "Força estranha" feita pelo baiano em homenagem a Roberto.
Quem vivia aqueles tempos difíceis estranhou o fato de Roberto ter gravado uma canção de protesto, pois nunca teve consciência política, mas "Como dois e dois" (composta em 1971) é um poema, difícil de entender para uma parte do povo que não lê muito. Isso vem acontecendo até hoje.
Falando nisso, muita gente ainda não lê, consome "fake news" e mal sabe o que está acontecendo na vida social do país, aceitando por exemplo a ideias da volta de uma ditadura militar, sem entender que foi uma fase de retrocesso e medo.
Caetano Veloso, um grande artista da música popular brasileira e mundial, que criticava não só a direita como também a esquerda da época, acabou sendo exilado depois disso e escreveu essa letra para tentar denunciar ironicamente e nas entrelinhas o que estava acontecendo no Brasil durante a repressão militar, vivida entre 1964 e 1985.
MAS O QUE NOS DIZ A LETRA?
"Quando você me ouvir cantar, venha, não creia, eu não corro perigo" - Desde o início a letra fala ironicamente. Assim, "venha" se era impossível ir e vir, sem ser vigiado? E continua, dizendo "não creia" no que digo, "eu não corro perigo", quando havia sequestros diários de quem pensava diferente do governo, ou seja, o perigo era a realidade mais comum.
"Digo, não digo, não ligo. Deixo no ar. Eu sigo apenas porque eu gosto de cantar" - Aqui o autor quis dizer que o simples ato de cantar já era um grito de liberdade e uma luta contra os que queriam calar os artistas.
"Tudo vai mal, tudo! Tudo é igual quando eu canto e sou mudo." - Havia fome e pobreza, desemprego e falta de moradia, que cresciam a cada ano. O termo "canto e sou mudo" era perfeito, pois várias músicas sofriam censura e eram proibidas de tocar nas rádios. Geraldo Vandré foi torturado por ter feito uma canção. Então você cantava, mas "era mudo" pois não podia dizer o que pensava.
"Mas eu não minto, não minto! Estou longe e perto. Sinto alegrias, tristezas e brinco!" - Ele dizia que não mentia, falava a verdade, apesar do fato da verdade ser proibida. Estava longe por não conhecer o ouvinte, mas perto com sua canção. Sentia alegrias, tristezas, mas não podia contar isso, pois era proibido pelo regime.
"Meu amor, tudo em volta está deserto, tudo certo. Tudo certo como dois e dois são cinco." - Aqui a genialidade de Caetano ao lembrar que as reuniões públicas estavam proibidas.
O país estava deserto, as ruas quase sempre vazias, pois o exército vigiava e usava a violência contra quem quisesse se manifestar e lutar contra um regime que só beneficiava os mais ricos. Assim, dois mais dois são quatro, mas tínhamos que aceitar a mentira de que essa conta dava cinco. Tudo certo mesmo? Não, nada estava certo!
"Quando você me ouvir chorar, tente, não cante, não conte comigo" - Obviamente, se o poeta sonhador chorasse, ninguém poderia lhe ajudar, ninguém poderia cantar sua canção, ninguém poderia chegar nele, pois ele estava preso ou extremamente vigiado.
"Falo, não calo, não falo. Deixo sangrar. Algumas lágrimas bastam pra consolar" - Os artistas falavam demais e eram presos. Depois se calavam, sangrando por dentro. Era chorar, secar as lágrimas e levantar de novo, pois tinha um sonho e acreditava nele.
"Tudo vai mal! Tudo, tudo, tudo, tudo. Tudo mudou, não me iludo e contudo... a mesma porta sem trinco, o mesmo teto e a mesma lua a furar nosso zinco" - Importante lembrar aqui que a propaganda dos militares era de que teria havido o famoso "milagre brasileiro" e o país estava em seu auge econômico.
Na verdade, o crescimento de favelas era enorme e por isso se falava da porta sem trinco e do teto de zinco de onde se via a lua. O que se retrata aqui é a miséria crescente de um povo. Caetano teve a maestria de compor uma letra e uma música que passou pela censura e marcou a história, desejando justiça e paz.

Belas horas aos que se preocupam com o sofrimento das pessoas, de seu povo, como nossos grandes mestres da MPB. Aos que não, também!
Roberto Canuto é poeta, cantor, compositor e professor de arte

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