CONAR abre processo contra campanhas da Sabesp
O caso tem origem em reportagem de Os Inconfidentes, que apontou suposto uso de influenciadores digitais na divulgação de conteúdos elogiosos

Da Reportagem/Água Viva
04.05.2026
Fotos: PMG
O Conselho Nacional Autorregulamentação Publicitária (CONAR) instaurou o processo ético para apurar possíveis irregularidades em campanhas publicitárias da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), a partir de denúncia formal apresentada pela Associação Guarujá Viva (ÁGUA VIVA).
O caso tem origem em reportagem de Os Inconfidentes, que apontou suposto uso de influenciadores digitais na divulgação de conteúdos elogiosos à companhia durante o período de desabastecimento de água na Baixada Santista.
A partir desse material, a Associação Guarujá Viva realizou análise técnica dos conteúdos, identificando indícios de publicidade sem a devida identificação, e encaminhou representação aos órgãos de controle, incluindo o CONAR.
A denúncia, apresentada em fevereiro de 2026, questiona campanhas com mensagens como “água limpa, esgoto tratado e mais qualidade de vida” e “verão na Baixada é praia cheia”, veiculadas no mesmo período em que moradores da região enfrentavam falhas recorrentes no abastecimento.
Durante o verão de 2025/2026, o próprio Governo do Estado de São Paulo reconheceu pressões sobre o sistema hídrico em razão do aumento expressivo do consumo provocado por ondas de calor, chegando a orientar a população a reduzir o uso de água. Paralelamente, multiplicaram-se relatos de desabastecimento em diversos municípios da Baixada Santista.
Mesmo nesse contexto, conteúdos publicitários e peças de comunicação continuaram reforçando uma narrativa de normalidade e eficiência do serviço.
O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) tem defendido a reestruturação da companhia como medida necessária para ampliar investimentos e garantir eficiência no setor de saneamento. No entanto, o episódio evidencia uma tensão entre o discurso institucional e a experiência concreta da população afetada.
A representação encaminhada ao CONAR não se limita ao conteúdo das peças, mas questiona principalmente a forma de veiculação, com destaque para o uso de influenciadores digitais sem identificação clara de conteúdo patrocinado, o que pode comprometer a transparência e o direito à informação do consumidor.
Para o engenheiro José Manoel Ferreira Gonçalves, o caso evidencia um problema estrutural. “A comunicação institucional não pode se dissociar da realidade concreta. Quando há falhas no abastecimento, insistir em uma narrativa de normalidade não é apenas um erro de estratégia, é um risco direto à credibilidade. Em serviços essenciais, transparência não é opcional, é obrigação.”
A abertura do processo pelo CONAR coloca em debate os limites éticos da comunicação publicitária em contextos de crise de serviços essenciais e reforça a necessidade de alinhamento entre informação divulgada e realidade vivida pela população.
A Associação Guarujá Viva é uma entidade da sociedade civil dedicada à defesa do meio ambiente, do interesse público e dos direitos dos consumidores, com atuação em temas relacionados à qualidade ambiental, transparência e políticas públicas.

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