Construção – obra prima de Chico Buarque em defesa do trabalhador

Construção – obra prima de Chico Buarque em defesa do trabalhador

Por Roberto Canuto

08.05.2026

Continuando com a obra de Chico Buarque, esse gênio que fazia crônicas musicais na intenção de contribuir para uma sociedade fraterna e com justiça social, e lembrando o "Dia dos Trabalhadores", trago "Construção", uma das mais aclamadas do autor, apontada por críticos como "melhor letra de música de todos os tempos".  A "Revista Rolling Stone Brasil" a citou como número um das 100 melhores do Brasil no século XX.

"Construção" fez parte do álbum do mesmo nome, que Chico lançou em 1971, após sua volta do autoexílio na Itália, quando veio pronto para o embate contra a ditadura militar.

Um ano após a Copa do Mundo de 70, o Governo Médici passava uma ideia de um Brasil soberano e calmo no chamado "milagre brasileiro" de ordem e progresso.

Por trás havia sequestros, tortura e morte de quem pensava diferente, a miséria crescendo e a dívida externa também, tudo com o patrocínio do Tio Sam (EUA) e o lema "Brasil, ame-o ou deixe-o". A Construção Civil era o "ponto alto" dessa propaganda, inclusive tendo como manchete a "Transamazônica" que nunca foi terminada.

Aqui a genialidade de Chico está no uso de proparoxítonas nos finais de cada verso (todos dodecassílabos - com 12 sílabas poéticas), cuja construção é elogiada por especialistas em arte e poesia.

Na gravação desse samba pós-tropicalista, Rogério Duprat dá um show numa sonoridade que no começo já anuncia algo ruim que vai acontecer com o som dos sopros e da percussão, evoluindo para a tragédia, mesmo mostrando uma certa doçura.

E como se já não fosse o suprassumo da MPB, no final dela ainda começa a canção incidental "Deus lhe pague", que completa a ironia da primeira parte, lembrando que muito cristão achava a miséria e a tragédia do cotidiano do brasileiro normais, contanto que não fosse a de sua família. Afinal Deus abençoava a sociedade em sua competição desigual. Hoje houve uma mudança muito grande nesse sentimento?

VAMOS CONHECER A LETRA DA MÚSICA?

Amou daquela vez como se fosse a última. Beijou sua mulher como se fosse a última.

E cada filho seu como se fosse o único. E atravessou a rua com seu passo tímido.

Subiu a construção como se fosse máquina. Ergueu no patamar quatro paredes sólidas.

Tijolo com tijolo num desenho mágico, seus olhos embotados de cimento e lágrima.

Sentou pra descansar como se fosse sábado. Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe. Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago.

Dançou e gargalhou como se ouvisse música. E tropeçou no céu como se fosse um bêbado. E flutuou no ar como se fosse um pássaro. E se acabou no chão feito um pacote flácido. Agonizou no meio do passeio público. Morreu na contramão atrapalhando o tráfego.

Amou daquela vez como se fosse o último. Beijou sua mulher como se fosse a única.

E cada filho seu como se fosse o pródigo. E atravessou a rua com seu passo bêbado.

Subiu a construção como se fosse sólido. Ergueu no patamar quatro paredes mágicas.

Tijolo com tijolo num desenho lógico. Seus olhos embotados de cimento e tráfego.

Sentou pra descansar como se fosse um príncipe. Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo. Bebeu e soluçou como se fosse máquina. Dançou e gargalhou como se fosse o próximo.

E tropeçou no céu como se ouvisse música. E flutuou no ar como se fosse sábado. E se acabou no chão feito um pacote tímido. Agonizou no meio do passeio náufrago. Morreu na contramão atrapalhando o público.

Amou daquela vez como se fosse máquina. Beijou sua mulher como se fosse lógico.

Ergueu no patamar quatro paredes flácidas. Sentou pra descansar como se fosse um pássaro. E flutuou no ar como se fosse um príncipe. E se acabou no chão feito um pacote bêbado. Morreu na contramão atrapalhando o sábado.

Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir. A certidão pra nascer, a concessão pra sorrir. Por me deixar respirar, por me deixar existir... Deus lhe pague!

Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir. Pela fumaça desgraça que a gente tem que tossir. Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair... Deus lhe pague!

Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir. E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir. E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir.... Deus lhe pague!

E O QUE A LETRA DA MÚSICA NOS DIZ?

Conheceremos o último dia de vida de um trabalhador que tinha uma ótima família, um ótimo casamento, mas ganhava muito pouco e não realizava seus sonhos de crescimento profissional e econômico, vivendo a tensão das contas não pagas, de prováveis problemas de saúde, de moradia, de educação, da falta de lazer e de segurança, mostrando também as contradições de homem adulto dos anos 70, numa sociedade machista, egoísta e um sistema de castas onde o grande escraviza o pequeno.

Ele sai cabisbaixo de casa. Perdido em seus pensamentos, talvez entre o humor e o desespero, após beber cachaça na hora do almoço, nosso "funcionário da construção brasileira" escorrega e cai da construção, agonizando e morrendo na calçada para um público que o ignora e o vê como estorvo.

Belas horas aos que constroem um mundo mais justo, onde quem construir um país conseguirá viver bem e mais feliz! Aos que não... também!

Roberto Canuto é poeta, cantor, compositor e professor de arte.

 

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