Corrida em Santos provoca paralisação do VLT por quase 40 horas e gera críticas de usuários

Suspensão do transporte para realização dos 10 KM Tribuna-Terracom reacende debate sobre prioridade do serviço público em grandes eventos privados

Corrida em Santos provoca paralisação do VLT por quase 40 horas e gera críticas de usuários

Texto e foto: Sandro Thadeu

17.05.2026

Menos de uma semana após entrar em operação integral, o novo trecho do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), em Santos, foi interrompido por quase 40 horas para viabilizar uma corrida privada com cerca de 25 mil participantes, decisão que gerou críticas de passageiros e questionamentos sobre as prioridades da mobilidade urbana na Cidade.

A linha Conselheiro Nébias–Valongo, que passou a operar em horário integral a menos de uma semana, foi suspenso ao meio-dia de sábado (16) e apenas será retomado às 5h30 desta segunda-feira (18). Por essa razão, as 12 estações espalhadas no percurso de oito quilômetros estavam sem passageiros por quase dois dias.

A interrupção ocorreu para viabilizar a tradicional prova 10 KM Tribuna-Terracom, promovida pelo Grupo Tribuna, conglomerado de comunicação da Baixada Santista. O evento reuniu cerca de 25 mil participantes e teve como patrocinadora principal a Terracom, uma das 20 maiores empresas de engenharia do Brasil e com forte atuação nos serviços de limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos na Baixada Santista.

Serviço essencial interrompido

O VLT é um sistema de transporte metropolitano regulado pela Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) e operado pela concessionária BR Mobilidade. O segundo trecho do modal começou a operar integralmente justamente na última semana. Essa é uma das apostas da Prefeitura de Santos para viabilizar a revitalização da região central do Município.

Por essa razão, a suspensão total do serviço para a realização de um evento privado gerou forte repercussão entre passageiros, sobretudo trabalhadores que dependem do transporte público aos finais de semana, conforme foi observado pelos Inconfidentes nas redes sociais da concessionária.

“E quem trabalha no domingo tem que sair mais cedo ou chega atrasado no trabalho. Muito ruim isso”, comentou Rejane Tavares.

Já Rogério Matos Souza lamentou que o transporte coletivo é "horrível" aos finais de semana e que as autoridades não conseguem fazer nada sem atrapalhar a vida dos outros. "Ridículo esse negócio. É uma falta de respeito pra quem trabalha no domingo", criticou Polyana Pereira.

Para críticos da medida, o principal problema não foi a realização da corrida em si, mas o fato de trabalhadores e usuários do transporte coletivo terem arcado com os impactos operacionais de um evento esportivo privado patrocinado por grandes empresas e apoiado pelo poder público.

“Vão paralisar a cidade de Santos e São Vicente por dois dias para agradar simpatizantes de esportes”, publicou um perfil chamado Studio 3 Praias.

Edison Afeche ironizou a situação: "sem a corrida, o transporte já não funciona direito. Só falta ter prova dentro da água e na areia só para atrapalhar a vida do trabalhador".

Prioridades invertidas

Embora grandes eventos esportivos tradicionalmente provoquem bloqueios viários, a interrupção total de um sistema de transporte coletivo recém-ampliado elevou o debate sobre até que ponto serviços públicos essenciais podem ser sacrificados para atender interesses privados e comerciais.

O VLT foi apresentado pelo governo estadual e municipal como um dos principais projetos estruturantes para estimular o fluxo na região central de Santos e garantir o deslocamento diário da população.

A interrupção de um serviço essencial para atender à logística de um evento — cujas inscrições custaram R$ 149,00, além de taxa adicional de 8% na plataforma de vendas — centralizou as queixas de usuários e críticos da medida.

O ponto central da discussão na Cidade gira em torno da engenharia de tráfego adotada, sob o argumento de que o transporte coletivo foi sacrificado, afetando o direito de ir e vir dos cidadãos não participantes para viabilizar uma atividade privada de grande porte.

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