Crimes de Maio 20 anos - Espelho das Operações Escudo e Verão na Baixada Santista

O Movimento Independente Mães de Maio que realiza um ato político neste domingo (17), a partir das 15 horas, na Estação Cidadania, em Santos (SP)

Crimes de Maio 20 anos - Espelho das Operações Escudo e Verão na Baixada Santista

Carlos Ratton/Cidinha Santos

16.05.2026

Fotos: Paulo Pinto e Rovena Rosa (Agência Brasil)

Ao completar 20 anos neste mês, “Os Crimes de Maio’, como ficou conhecida a violenta reação policial em São Paulo, entre 12 e 21 de maio de 2006, não só deixaram feridas abertas a centenas de famílias, como espelharam as operações Escudo e Verão, realizadas na Baixada Santista, entre julho de 2023 e abril de 2024, também geradas por reação policial. Os números das três juntas são devastadores: foram 648 mortes. A primeira tirou a vida de 564 pessoas (505 civis e 59 agentes públicos) e as duas últimas somadas mais 84.

O Movimento Independente Mães de Maio que realiza um ato político neste domingo (17), a partir das 15 horas, na Estação Cidadania, em Santos (SP), servirá para reafirmar que a luta não é apenas por lembrança, mas também para cobrar a penalização rigorosa dos agentes do Estado. A Estação Cidadania fica na Avenida Ana Costa, 340. A participação é aberta a movimentos sociais e cidadãos (ãs) comprometidos (as) com os Direitos Humanos.

Até hoje, as famílias acreditam que há uma engrenagem de omissão que se sustenta por inquéritos blindados, justiça seletiva e falta de condenações. A maioria das investigações foi arquivada sem identificar os autores, criando um salvo-conduto para a letalidade policial. A celeridade do Estado em punir a periferia contrasta com a lentidão proposital em julgar seus próprios agentes e a reparação inexistente, a justiça é meramente simbólica e o assassinato acaba institucionalizado como política de segurança.

Para as Mães de Maio, o massacre de 2006 nunca terminou. Ele apenas mudou de nome e se institucionalizou. Transformadas pela dor em defensoras de direitos humanos, mães e familiares trilharam um caminho doloroso para se tornarem agentes de denúncia internacional.

Embora tenham conquistado marcos legislativos importantes — como a Lei Estadual nº 15.501/2014 (Semana das Vítimas de Violência) e a Lei Municipal 3.428 (de Santos) — o movimento enfatiza que leis não bastam se não houver fardas no banco dos réus.

A pauta atual é clara e urgente. É preciso a identificação, indiciamento e responsabilização criminal de cada agente envolvido nas mortes de 2006 e, das operações recentes, o fim da justificativa automática de "confronto" sem investigação independente. Também precisaria a punição para oficiais e gestores públicos que planejam e autorizam operações baseadas na letalidade.

As Mães

O Movimento Mães de Maio é uma organização independente de familiares de vítimas da violência policial e do Estado, formado após os "Crimes de Maio" de 2006 em São Paulo. Surgiu em 2006, após uma série de ataques que mataram centenas de pessoas, incluindo o filho de Débora Silva Maria (foto abaixo), um dos principais nomes do movimento.

Débora Silva, coordenadora geral do Movimento Mães de Maio, recebeu a notícia da morte do seu filho Edson Rogério Silva dos Santos pelo rádio no dia 15 de maio de 2006. A partir do luto, se mobilizou com outras mães da Baixada Santista, que também haviam perdido seus filhos, e, juntas, fundaram o Movimento.

O Movimento realiza denúncias nacionais e internacionais, acolhimento de familiares, marchas e atividades de memória, como o memorial inaugurado em 2016. O movimento foi reconhecido na luta contra a violência institucional, transformando a narrativa sobre a chacina de 2006. Exige a elucidação dos crimes, a condenação dos responsáveis e a desmilitarização da segurança pública.

Como tudo começou

Às vésperas do Dia das Mães de 2006, o Estado de São Paulo foi abalado por uma série de ataques coordenados atribuídos ao Primeiro Comando da Capital (PCC) 一 maior facção criminosa do estado paulista 一 que resultou na morte de dezenas de agentes públicos e em rebeliões simultâneas em presídios.

A organização estaria revidando a transferência de parte das suas lideranças, totalizando 765 faccionados, para o presídio Presidente Venceslau, no interior do estado, sem aviso às famílias dos presos, que se viram impossibilitadas de realizar visitas no Dia das Mães.

A resposta das forças de segurança foi imediata e brutal: durante os dias que se seguiram, centenas de pessoas foram executadas em ações policiais e paramilitares, especialmente na Baixada Santista, e dezenas desapareceram sem explicação.

O fim dos ataques do PCC em 14 de maio ocorreram após uma reunião no presídio Presidente Bernardes entre o líder da facção Marco Camacho, o Marcola, e parte da gestão do Governo Paulista.

Apesar disso, os crimes seguem sem resposta. No decorrer dos últimos 19 anos, o Estado brasileiro não prestou nenhum esclarecimento acerca do que aconteceu, ou condenou os envolvidos nos assassinatos.

O pedido de federalização do caso feito pelo Movimento foi apresentado ao Supremo Tribunal de Justiça (STJ) em 2016 e, desde então, segue parado. Em uma tentativa de pressionar o governo brasileiro, as Mães de Maio levaram o caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA).

Na ocasião, elas alegaram que o Brasil teria violado a Convenção Americana de Direitos Humanos, ratificada pelo país em 1992, com os crimes cometidos por agentes públicos em maio de 2006. Até o momento, os pedidos não foram aceitos pela CIDH.

O legado das Mães de Maio no Brasil

As Mães de Maio se consagraram como um dos movimentos mais importantes da história recente do Brasil, e elas têm conquistado importantes avanços.

Nesse sentido, o Projeto de Lei N°. 2.999, de 2022, que cria um programa social que repara vítimas da violência institucional e seus familiares, é um dos principais exemplos de sua atuação.

Batizada com o nome Lei Mães de Maio, o projeto ainda objetiva garantir a transparência e a investigação das atividades policiais, criar políticas públicas de prevenção à violência policial e responsabilizar os agentes de segurança pública envolvidos em ações criminosas como as dos Crimes de Maio de 2006. O projeto ainda espera avaliação no plenário.

Partindo de outra frente, as Mães de Maio também coordenam a criação do projeto EnfrentAção, projeto lançado no dia 07 de maio deste ano, uma parceria com as universidades públicas brasileiras.

O principal objetivo dele é coordenar uma pesquisa que sistematize o efeito da violência estatal sobre as mães das vítimas, para então propor um plano de ação de atendimento psicossocial às mesmas. O projeto é uma articulação com a Unifesp, o Ministério da Justiça e Segurança Pública e a Universidade de Oxford.

As famílias das vítimas criaram um Tribunal Popular para julgar o Estado brasileiro de maneira simbólica, lançado em 8 de maio de 2025, às vésperas da data que marcou os 19 anos dos crimes.

Comentários dos leitores

Carregando comentários…