Cubatão e o desafio da neoindustrialização: entre a memória e o futuro

Por Paula Ravanelli

Cubatão e o desafio da neoindustrialização: entre a memória e o futuro

Por Paula Ravanelli

18.04.2026

Cubatão nunca foi uma cidade comum. Sua trajetória condensa, de forma quase didática, os dilemas do desenvolvimento brasileiro. Aqui, convivem, na mesma paisagem, o auge do projeto industrial do século XX, a devastação ambiental que chocou o mundo e a impressionante capacidade de recuperação que reposicionou o município como símbolo de superação.

Mas a história não acabou. E, talvez, estejamos vivendo mais um de seus capítulos decisivos.

Nas últimas décadas, Cubatão passou de polo industrial estratégico para território marcado pela retração produtiva. O fechamento e a hibernação de unidades industriais, especialmente no setor químico, não são apenas números em relatórios econômicos — são empregos que desaparecem, famílias que perdem renda e um município que vê sua capacidade de investimento público ser progressivamente corroída.

Essa transformação não é um fenômeno isolado. Ela se insere em um processo mais amplo de desindustrialização que atinge o Brasil há anos, impulsionado por fatores como a concorrência internacional, a reprimarização da economia e a ausência de uma política industrial consistente e de longo prazo.

No entanto, em Cubatão, esse processo ganha contornos mais dramáticos. Porque aqui, a indústria não foi apenas um setor econômico — ela foi o elemento estruturante do território, da urbanização, do mercado de trabalho e da própria identidade local.

É por isso que discutir neoindustrialização em Cubatão não é apenas um exercício acadêmico ou técnico. É uma necessidade concreta.

A chamada neoindustrialização, que vem sendo debatida no Brasil e em outros países, propõe justamente uma reconfiguração do papel da indústria na economia. Não se trata de reproduzir o modelo do passado — intensivo em recursos naturais, altamente poluente e socialmente excludente —, mas de construir um novo paradigma produtivo, baseado em inovação, tecnologia, sustentabilidade e geração de empregos de qualidade.

Cubatão, paradoxalmente, reúne condições únicas para esse debate.

Sua localização estratégica, entre o maior polo consumidor da América Latina e o principal porto do país, continua sendo um ativo logístico de enorme relevância. Sua experiência acumulada em recuperação ambiental a coloca em posição privilegiada para dialogar com a agenda da transição ecológica. E sua história, marcada por excessos e correções, oferece lições valiosas sobre os limites de um desenvolvimento dissociado da justiça social e ambiental.

Mas potencial não é destino.

Sem coordenação entre os diferentes níveis de governo, sem instrumentos eficazes de política industrial e sem participação ativa da sociedade, o risco é que Cubatão continue a assistir, passivamente, ao esvaziamento de sua base produtiva.

É nesse contexto que iniciativas de debate público ganham centralidade. O seminário sobre neoindustrialização, que será realizado no município no próximo dia 18 de abril, busca justamente criar um espaço de articulação entre trabalhadores, gestores públicos, setor produtivo e especialistas. Mais do que um evento, trata-se de um esforço de construção coletiva de caminhos possíveis.

Porque a pergunta que se coloca não é apenas como reindustrializar.

A pergunta central é: que tipo de indústria queremos?

Uma indústria que reproduza desigualdades, precarize o trabalho e externalize seus custos ambientais? Ou uma indústria capaz de gerar riqueza, distribuir oportunidades e conviver de forma equilibrada com o território?

Cubatão já experimentou, de forma intensa, as consequências de um modelo de desenvolvimento baseado exclusivamente na produtividade das chaminés. Também demonstrou que é possível reverter danos, ainda que a um custo elevado e tardio.

Agora, diante da crise da desindustrialização, o desafio é outro: não apenas recuperar o dinamismo econômico, mas fazê-lo de maneira diferente.

Mais sustentável. Mais inovadora. Mais justa.

Se conseguir enfrentar esse desafio, Cubatão pode, mais uma vez, deixar de ser apenas um símbolo — desta vez, não do passado, mas do futuro.

Paula Ravanelli é advogada e procuradora do Município de Cubatão, feminista e ativista dos direitos humanos. Atuou como Assessora Especial da Presidência da República nos governos Lula e Dilma e integra o Conselho Municipal da Condição Feminina de Cubatão.

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