De aliados a rivais: Mourão critica "herança" em Praia Grande e Raquel Chini declara oposição

04.02.26

De aliados a rivais: Mourão critica "herança" em Praia Grande e Raquel Chini declara oposição

04.02.26

Sandro Thadeu

O embate público entre o prefeito de Praia Grande, Alberto Mourão (MDB), e sua antecessora, Raquel Chini (Republicanos), ganhou novos capítulos nesta semana e selou o rompimento definitivo entre os antigos aliados. Mourão, que cumpre seu sexto mandato, foi o principal fiador da eleição de Raquel, em 2020. No entanto, a aliança, que já dava sinais de desgaste ao fim de 2024, deu lugar agora a uma troca direta de acusações sobre a gestão administrativa e financeira do Município.

Na abertura da primeira sessão do ano da Câmara, realizada na manhã desta terça-feira, dia 3, Mourão fez um discurso duro ao relatar o cenário encontrado ao reassumir o comando da Prefeitura, em janeiro do ano passado. Sem citar nominalmente Raquel, o gestor municipal afirmou que não tinha conhecimento real da situação orçamentária da Cidade e descreveu um quadro que classificou como crítico.

Segundo ele, o orçamento de 2025 previa despesas fixadas em R$ 2,416 bilhões, enquanto a receita corrente líquida estimada era de R$ 2,317 bilhões, o que, na avaliação do prefeito, levaria o Município a encerrar o exercício no vermelho. Mourão apontou falhas graves de planejamento, destacando que contratos essenciais, como o da coleta de lixo e o da organização social que gerencia o Hospital Irmã Dulce, tinham cobertura financeira garantida apenas até junho e agosto, respectivamente. "Isso eu não via há muitos anos: não prever no orçamento um contrato de ordem continuada", criticou, justificando um contingenciamento de 8% nas despesas.

Outro ponto sensível foi a falta de recursos para a compra de material escolar. De acordo com Mourão, pela primeira vez na história de Praia Grande não havia dotação orçamentária prevista para esse fim. “Nós começamos a raspar papel, caneta, lápis… Isso nunca tinha acontecido. Por esse motivo, tive de tomar medidas radicais”, afirmou durante o discurso.

Apesar das críticas à gestão anterior, o prefeito adotou um tom mais otimista ao final desse trecho do discurso. O gestor disse que, após ajustes e medidas consideradas impopulares, a equipe conseguiu equilibrar as contas. “Nós chegamos, cobrimos tudo e ainda tivemos uma receita corrente líquida R$ 33 milhões maior”, revelou, atribuindo o resultado à perseverança e ao rigor no controle dos gastos.

Contratos estranhos

As declarações, porém, não ficaram sem resposta. Na noite de terça-feira, dia 3, Raquel Chini divulgou um vídeo nas redes sociais para rebater Mourão. Um dos principais pontos levantados pela ex-prefeita foi o que chamou de “contratos estranhos”, como o da coleta de lixo. De acordo com ela, o contrato foi firmado com índices de reajuste entre 13% e 14%, muito acima do IPCA, índice que corrige o orçamento municipal. “Essa conta nunca fechou, e eu tentei fechar em seu nome, sem falar no seu nome”, afirmou.

A ex-chefe do Executivo também contestou a falta de recursos e acusou Mourão de anunciar verbas, enquanto deputado federal, que nunca chegaram aos cofres da Cidade. Em tom de desafio, sugeriu que o prefeito cobrasse explicações do próprio secretário de Finanças, Cristiano de Mola, que ocupou o cargo em sua gestão e foi mantido na atual administração. “Você anunciou milhões para obras, disse que o dinheiro estava em caixa. Que caixa?”, questionou.

Oposição declarada

Ao relembrar a eleição de 2020, Raquel afirmou que só aceitou disputar a Prefeitura a pedido de Mourão, quando ele corria risco de perder o comando da Cidade. “Aceitei porque acreditei que fazia parte de uma família política”, justificou ela, que complementou: “Sou oposição aos seus métodos, às suas falsidades, às suas falas. Não à Cidade que eu amo e escolhi para viver”, declarou.
No trecho mais simbólico do pronunciamento, a ex-prefeita criticou o que classificou como obsessão do atual prefeito por visibilidade. “Põe as suas placas, que é o que importa para você. Para mim, o bem maior sempre foram as pessoas”, afirmou. “Placa não enche barriga. Fazer o bem para as pessoas é o que me interessa”, concluiu.



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