De navio a prédios, a história de Santos vai se exaurindo
Carlos Ratton

Carlos Ratton
22.04.2026
Fotos: Divulgação/ Youtube/ Facebook/Instituto de Pesca/PMS/Novo Milênio
Uma fórmula fatal vem sendo concebida ano após ano, que mistura insensibilidade, desmemoria afetiva, descompromisso político e descaso público vem, aos poucos, exaurindo a história recente de Santos (SP). Tudo começou com a recuperação do centro da cidade que só serve para discursos vazios, como suas ruas nos dias úteis, bem diferente do que ocorria há décadas, quando o maior centro comercial da cidade atraía milhares de pessoas.
Um exemplo recente da falta de cuidado envolveu a questão do navio Professor Wladimir Besnard, que afundou em 13 de março no cais do Valongo, cuja retirada e reflutuação custará R$ 8,6 milhões, bancados Autoridade Portuária de Santos (APS).
Fora de operação desde 2008, o navio passava por reformas após ser doado à ONG Instituto do Mar (Imar) que planejava transformá‑lo em um museu flutuante. O acidente ocorreu após o navio encher de água após fortes chuvas e as bombas de sucção fora de operação devido ao furto da fiação.
Com 49,3 metros de comprimento, o Besnard foi construído por encomenda do governo paulista e foi lançado ao mar em 1966. A embarcação passou pela costa brasileira, fez expedições no arquipélago de Cabo Verde e realizou mais de 260 viagens para a formação de pesquisadores, passando por mais de 10 mil pontos de coleta para estudos científicos. Levou as primeiras equipes de pesquisa brasileiras à Antártica. O furto nada mais é do que a prova que sua história permanecia esquecida no cais santista.

Hospedaria
A Hospedaria dos Imigrantes também ‘sangra’ diariamente. A Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) até já apresentou um projeto de revitalização do prédio, localizado na Rua Silva Jardim, 93, Vila Nova.
Mas o solo está contaminado. Uma informação que há anos foi confirmada pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) e que parece ter sido ignorada tanto pela CDHU, como pela Prefeitura de Santos que, mesmo sabendo do fato, anunciou o projeto no Diário Oficial de 31 de outubro do ano passado sem citar a questão. Desde 2015 a Administração Municipal vem anunciado a possível recuperação do imóvel histórico, cujas paredes vivem escoradas para não ruírem.
A Companhia pretendia restaurar o edifício tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Santos (Condepasa) e transformá-lo em um espaço unindo habitação, cultura e turismo. A área possui 10,5 mil metros quadrados. Tudo ainda permanece no papel.
Vale lembrar que a Justiça já exigiu que o Governo do Estado de São Paulo, a própria CDHU e a Cetesb apresentem uma solução para a questão, por conta de uma ação civil pública, ingressada pelo Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP). Até agora, nada.
Uma das prováveis causas da contaminação do solo é que, durante um período, funcionou dentro da Hospedaria uma oficina para viaturas da Polícia Civil, que gerou descarte irregular de combustíveis ou mesmo a existência de um posto de gasolina próximo, cuja contaminação tenha migrado para o terreno do imóvel.
O prédio, datado de 1912, foi idealizado para receber os imigrantes, mas nunca foi utilizado com essa finalidade. Na época de sua construção, o fluxo de imigrantes já não era tão grande e as pessoas eram conduzidas à seção competente, em São Paulo.
Acabou transformando-se num armazém de café, depósito da Cooperativa dos Bananicultores e pátio de contêineres. A construção, eclética, com muitas características neocoloniais, é retangular, compõe-se de duas alas distintas que formam um pátio central.

Escolástica
Outro retrato do abandono é o prédio do Complexo Educacional Escolástica Rosa, fechado há anos e se deteriorando dia após dia. Já foi revelado que o prédio e seu entorno precisam de restauro com no mínimo três anos de duração e investimentos de cerca de R$ 50 milhões.
Ano passado, o destino do complexo gerou polêmica. De um lado, mulheres da Frente Feminista da Baixada Santista, educadoras representantes do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (APEOESP), a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e simpatizantes que saíram em defesa da manutenção da unidade como espaço educativo e cultural.
Do outro, a ideia da deputada federal bolsonarista Rosana Vale (PL) de destinar o prédio apenas para atividades militares. A proposta contou com a simpatia do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que até hoje não ‘moveu uma palha’ no sentido de recuperar o complexo.
O vereador Paulo Miyasiro, também do Republicanos, realizou até audiência pública afim de buscar a melhor solução para o destino do histórico complexo educacional. Muita discussão e pouca ação.
O complexo, destinado por testamento de João Octavio dos Santos ao Acervo Patrimonial da Irmandade Santa Casa de Santos, foi inaugurado há mais de um século como uma unidade de benemerência destinada para meninos órfãos e pobres.
Vale lembrar que a Irmandade chegou a oferecer o imóvel como garantia de pagamento de uma dívida de aproximadamente R$ 30 milhões com o Governo Federal. Somados a outros R$ 97 milhões junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o hospital devia quase R$ 130 milhões à União.
Os dados constam dos autos da ação civil movida pelo Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP), que pede a desapropriação do terreno de 17 mil metros quadrados.
O Escolástica Rosa é tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado (Condephaat) e pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Santos (Condepasa), o que implicaria em uma ampla discussão com ambos os órgãos e com a sociedade que, com certeza, gostaria de sugerir outros destinos ao prédio, um dos últimos imóveis localizados em frente ao mar em Santos.

Museu de Pesca
Outro desperdício. O Museu de Pesca de Santos, construído em 1908 e localizado na Ponta da Praia, permanece fechado para visitação desde outubro de 2022 devido a obras de restauração. As reformas já foram anunciadas, mas os planos para revitalização da museografia e, no futuro, uma visitação virtual no metaverso, estão engavetados.
O Museu de Pesca teve finalidades culturais e objetiva a divulgação de conhecimentos originados do estudo do ambiente aquático e da tecnologia aplicada para a exploração racional de recursos marinhos e de águas continentais.
Também tinha função de desenvolver atividades educativas não formais, com o intuito de criar ou descobrir e estimular mentalidades dirigidas à correta utilização dos recursos naturais sob exploração pela atividade pesqueira.
Teve também um outro importante papel ao se relacionar com a cidade de Santos desde os primórdios de seu surto desenvolvimentista, uma vez que sua Sede atual, construída no local de uma fortificação datada do século XVIII, abrigou inicialmente a Escola de Aprendizes-Marinheiros, e, depois, a partir de 1933, o Instituto de Pesca Marítima, nome pelo qual passou a ser denominada (a partir de 1932) a Escola de Pesca do Estado de São Paulo, fundada em 1928, no Guarujá.
O acervo do Museu de Pesca é composto por exemplares de diversas espécies de peixes, crustáceos, aves e mamíferos marinhos taxidermizados ou suas ossadas, conchas de moluscos, areias; além de maquetes de embarcações, aparelhos e equipamentos utilizados na pesca e em pesquisa oceanográfica, obras artísticas etc.
Para o grande público, as principais atrações são um imponente esqueleto de baleia Finn (Balaenoptera physalus) com 17 metros de comprimento (23m quando viva) e sete toneladas, além de diversos e exemplares de tubarões. Em 2019 o Museu recebeu cerca de 50 mil.

O Jangadeiro
O mais recente caso de depreciação de prédios importantes de Santos tem como ‘vítima’ o Restaurante Jangadeiro, localizado na Avenida Almirante Saldanha da Gama, na Ponta da Praia, famoso por sua vista para a entrada e saída de navios.
O imóvel, construído em 1958 vai ser demolido para a construção de um empreendimento residencial. Recentemente, alguns santistas usaram as redes sociais para lamentar o fim do restaurante.

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