Desigualdade em Santos (SP) diminui tempo de vida, afirma vereador e médico infectologista Marcos Caseiro
Carlos Ratton

Carlos Ratton
11.02.2026
Fotos: Tony Valentte/PMS/ Portal Gov Br/Facebook
Tendo como parâmetro o Mapa da Desigualdade Paulista, estudos da mais de 10 anos e levantamentos recentes realizados via Vigilância Sanitária, o vereador e médico infectologista Marcos Caseiro revela um dado assustador: a desigualdade social que divide a cidade de Santos é responsável pela antecipação de morte de dezenas de munícipes. Enquanto nos bairros com melhor infraestrutura a média de vida chega a 80 anos, nos bairros da Zona Noroeste (ZN), por exemplo, a média é de 70 anos ou menos.
Caseiro exemplifica citando o Dique da Vila Gilda, por exemplo, que abriga a maior favela de palafitas do Brasil, com estimativas que chegam a 20 mil habitantes vivendo em condições precárias sobre manguezais. “Nessa área, a média é de 61 anos. É matemática a relação entre o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e a média de mortalidade. Quanto mais baixo o IDH, maior mortalidade”, afirma o médico.

Vale lembrar que a Vila Gilda enfrenta incêndios constantes e alta da maré. Existe um movimento constante de construção de moradia, principalmente quando ocorre alguma tragédia. De prático, milhares ainda não têm saneamento básico, necessário para uma saúde plena.
A Zona Noroeste enche mesmo sem chuva. O vereador lembra que não há nenhuma farmácia popular na área e o morador da ZN, com prescrição médica em mãos para receber remédios gratuitos do Governo Federal, tem que se dirigir à Avenida Nossa Senhora de Fátima – principal via de acesso.
“Eu faço ambulatório lá e 100% das pessoas que eu atendo têm pressão descontrolada, elevada. Por quê? Porque não têm acesso fácil a remédio, não têm um atendimento médico, porque a grande maioria depende do Sistema Único de Saúde (SUS) e da atenção primária, que não tem. Vai marcar uma consulta na policlínica que demora três meses. Na região da Orla, uma grande parte das pessoas tem plano de saúde. Então, é preciso ampliar, e muito, o atendimento na ZN, que tem 120 mil habitantes, quase que um quarto ou um pouco mais da população de Santos e, no entanto, há décadas é desassistida”, lamenta o vereador.

Conceito
Marcos Caseiro revela que existe um conceito chamado de Determinação Social da Doença que precisa ser entendido e levado em consideração quando o assunto é saúde pública. Esse conceito, segundo o médico, passa necessariamente pelo entendimento prestado que deveria levar em conta, principalmente, as condições socioeconômicas de vida das pessoas. “É uma excrescência uma Cidade possuir um orçamento estimado em mais de seis bilhões – R$ 1,2 bilhão somente para a área da Saúde – não se trabalhar a prevenção”, afirma.
Para o médico, “saúde é muito mais do que remédio e hospital. Saúde é prevenção, é saneamento básico. Só temos um caminho para a saúde: a chamada medicina preventiva, que a gente chama de atenção primária à saúde. Dentro dela, existe a medida de prevenção primária e a proteção específica. Eu venho alertando isso há anos. As doenças têm uma história e dentro dessa história elas podem ser prevenidas”, afirma.
Palafitas
O infectologista ressalta um problema pouco divulgado e que não pode ser esquecido em relação as milhares de famílias que moram em palafitas em Santos. Como não possuem saneamento básico, o esgoto produzido é lançado no mangue, na área do Rio do Bugre e, consequentemente, atinge as praias. “Por que você acha que nossas praias estão praticamente o ano inteiro impróprias?”.
Marcos Caseiro revela que pretende continuar alertando, via Câmara de Vereadores, as consequências da desigualdade social para que as pessoas entendam que é necessário melhorar a qualidade de saúde da população como um todo. “Aqueles que têm menos é que precisam ter um quinhão de atenção a mais. Se não houver uma mudança na política pública, não vamos resolver o problema de Santos”, finaliza.

Acesso negado
Em 26 de janeiro último, Dia de Aniversário de Santos, Os Inconfidentes lançaram uma série em que a primeira reportagem foi intitulada Zona Noroeste precisa de Acesso à Cidade e não pirotecnia. Ver em https://osinconfidentes.com.br/moradores-da-zona-noroeste-precisam-de-acesso-a-cidade-e-nao-pirotecnia/.
A Reportagem fez um levantamento que aponta que problemas persistem por décadas sem solução, apesar das promessas e pura pirotecnia que, ano após ano, são lançadas em tribunas, indicações, requerimentos, projetos de lei, gabinetes administrativos e, com certeza, palanques em comemoração ao aniversário.
“Acesso à Cidade" refere-se ao direito fundamental de todos os habitantes usufruírem plenamente o espaço urbano, incluindo moradia, transporte, saúde, educação, cultura e lazer, promovendo cidades justas e inclusivas.
Envolve políticas públicas que garantam a equidade e a participação cidadã, indo além do mero deslocamento físico para abranger a transformação social do território.
A mobilidade urbana, o planejamento territorial e a gestão de recursos são cruciais para superar desigualdades e garantir que a cidade seja um bem comum para todos, combatendo a exclusão socioespacial.

Comentários dos leitores
Carregando comentários…