Desigualdade Estrutural, Raça e Expectativa de Vida na Zona Noroeste de Santos
Por CristianoTorres1977

Por CristianoTorres1977
12.02.2026
Determinantes Sociais da Doença, Infectologia, Violência Institucional e a Responsabilidade do Estado na Produção da Mortalidade Precoce da População Negra
A reportagem publicada esta semana em Os Inconfidentes, sob o título“Desigualdade em Santos (SP) diminui tempo de vida, afirma vereador e médico infectologista Marcos Caseiro” evidencia como a desigualdade territorial em Santos reduz a expectativa de vida na Zona Noroeste e, de forma ainda mais dramática, no Dique da Vila Gilda. No entanto, quando os dados são analisados por classificação de raça e gênero, a gravidade do cenário torna se ainda mais evidente.
Segundo o Censo 2022 do IBGE, a população negra representa a maioria entre os brasileiros em situação de pobreza e extrema pobreza. A PNAD Contínua confirma que pretos e pardos concentram os menores rendimentos médios e maior dependência exclusiva do SUS.
Em territórios marcados por precariedade habitacional, ausência de saneamento e vulnerabilidade ambiental, a população negra é majoritária. Portanto, quando a expectativa de vida cai dez ou quase vinte anos em determinadas regiões, é imprescindível reconhecer que essa redução atinge desproporcionalmente corpos negros.
No campo da infectologia, a relação entre desigualdade estrutural e adoecimento é amplamente documentada. Dados do Ministério da Saúde mostram que doenças relacionadas à ausência de saneamento básico como leptospirose, hepatite A, diarreias infecciosas e arboviroses atingem com maior intensidade populações residentes em áreas alagáveis e com esgoto a céu aberto.
O próprio DATASUS demonstra maior incidência e piores desfechos de tuberculose em populações negras e periféricas. A tuberculose é reconhecida como doença socialmente determinada, associada à moradia precária, superlotação e insegurança alimentar.
Em relação ao HIV e à sífilis, boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde indicam maior vulnerabilidade entre jovens negros, especialmente mulheres negras em contexto de desigualdade social. A mortalidade materna também atinge desproporcionalmente mulheres negras, que apresentam maior risco de morrer por causas evitáveis relacionadas à gestação e ao parto, segundo dados oficiais do Ministério da Saúde e da Fiocruz.
Quando a reportagem menciona a ausência de farmácia popular, dificuldade de acesso à atenção primária e demora de meses para consultas, está descrevendo fatores que a literatura em saúde pública reconhece como determinantes sociais da doença.
Não se trata apenas de carência individual, mas de falha estrutural do Estado na garantia de políticas públicas preventivas. Um município com orçamento bilionário que não prioriza saneamento, atenção básica e prevenção perpetua desigualdades raciais e territoriais.
Além da dimensão sanitária, há a dimensão da violência institucional. O Atlas da Violência 2023 do IPEA e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que mais de 75 por cento das vítimas de homicídio no Brasil são negras.
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostra que a letalidade policial atinge majoritariamente jovens negros moradores de periferias. Isso impacta diretamente a expectativa de vida e reforça a lógica de que determinados territórios são historicamente tratados como espaços de exceção.
Mesmo quando se compara população branca pobre e população negra pobre, pesquisas sobre desigualdade racial indicam diferenças persistentes no acesso a serviços, renda, escolaridade e tratamento institucional. Isso demonstra que a desigualdade brasileira é atravessada por classe e por raça simultaneamente.
Portanto, ao discutir a redução da expectativa de vida na Zona Noroeste de Santos, é fundamental explicitar que a desigualdade territorial não é neutra. Ela é racializada.
A ausência de saneamento, a precariedade habitacional, a dificuldade de acesso a medicamentos e a violência institucional atingem majoritariamente a população negra. Ignorar o recorte racial e de gênero é produzir uma análise incompleta e suavizar responsabilidades históricas do poder público.
CristianoTorres1977 é professor especialista, pesquisador CAPES, mestrando em Letras (UNEMAT) e analista crítico das desigualdades sociais.

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