Desprezo à história e apego a empresariado marcam parte do parlamento santista
Pelos menos nos últimos anos, desconsideraram a história indígena e negra, priorizando homenagens a empresários ou figuras de poder econômico, refletindo para observadores racismo estrutural e falta de respeito à memória local.

Carlos Ratton
29.05.2026
Foto: CMS/Instagram/Guia Negro/Divulgação
A decisão da Câmara de Santos (SP) de vetar, na última terça-feira (26), o Projeto de Lei nº 115/2025, de autoria do vereador Chico Nogueira (PT), que propunha alterar a denominação da Rua Tiro Onze para Rua Chaguinhas, se comparada a outras propostas semelhantes, deixa claro que parte dos vereadores santistas é incoerente e seletiva quando se discute mudanças de nomes de ruas.
Pelos menos nos últimos anos, desconsideraram a história indígena e negra, priorizando homenagens a empresários ou figuras de poder econômico, refletindo para observadores racismo estrutural e falta de respeito à memória local.
Enquanto a importância histórica de Chaguinhas foi desprezada, mesmo tendo gerado o nome de um famoso bairro de São Paulo (capital) - ver nesta reportagem – a relevância de pelo menos três empresários (a) santistas – Armênio Mendes, Gilberto Mansur e, o Gil Mansur e Rosinha Viegas, não teve dificuldades em ganhar a simpatia e acabar substituindo nomes de rua e praças do Município.
A comparação acima chegou a ser mencionada pelo menos por dois dos três parlamentares - Marcos Caseiro (PT) e Débora Camilo (PSOL) - que, junto com Chita Menezes (PSB), votaram favoravelmente à homenagem a Chaguinhas. Os vereadores Benedito Furtado (PSB) e Sérgio Santana (PL) se ausentaram.
Débora lembrou da Rua Guaiaó - termo indígena que denominava a Ilha de São Vicente em sua origem, onde estão parte de Santos e São Vicente, que acabou perdendo para a Alameda Armênio Mendes, no bairro da Aparecida. Mendes foi um empresário da construção civil e faleceu em 2017, vítima de câncer.
“Uma das justificativas que foi dada é que tem uma questão histórica e que haveria necessidade de ter um pouco mais de calma para verificar a possibilidade de um outro local, porque a Tiro 11 tem uma relevância histórica. Só que o que eu disse foi que quando houve a mudança da rua Guaiaó para Amênio Mendes não se levou em consideração a questão histórica, porque a única coisa que se leva em consideração é quem é homenageado, se é um herói negro ou se é um grande empresário”, afirma Débora.
A vereadora é da opinião de que enquanto houver racismo estrutural, não se avança na Câmara de Santos. “Apagaram os indígenas lá atrás, agora os negros. Aí utilizaram como uma referência de que a casa não tem uma prática racista, uma referência de uma travessa que foi modificada, que era a travessa Comendador Neto e agora a Lígia José da Costa. Mas aí também entraram outros argumentos. Ser feita uma audiência pública, no caso da Rua Chaguinhas, e isso não tem nada a ver, a lei não determina a necessidade de ser feita. Se fosse qualquer outro homenageado que tem uma relevância econômica, conseguiria aprovação. A questão não é histórica, mas quem é o homenageado”, conclui.

Débora: “se fosse qualquer outro homenageado que tem uma relevância econômica, conseguiria aprovação”
Caseiro
Marcos Caseiro não deixou por menos e lembrou seus pares da antiga Praça Duas Rodas, que se tornou Praça Gil Mansur, localizada na Ponta da Praia. Gil Mansur foi empresário da área de comunicação e era um apaixonado por motociclismo.
“Era uma praça famosa que os motoqueiros de reuniam na Ponta da Praia. A justificativa é era um empresário que criou empregos e gostava de motocicleta. Quer dizer, é uma festa. Agora, um cidadão, um negro que lutou por esse país, que fez parte da guarda desse país, um mártir da nossa cidade, não tem valor?”
O parlamentar continua alertando que a segunda situação seria assustadora. Ele se refere à Rua Barão de Paranapiacaba, no trecho compreendido entre as avenidas Conselheiro Nébias e Washington Luís, no bairro Encruzilhada, que se tornou Rua Rosinha Viegas, empresária responsável pela criação da Universidade Metropolitana de Santos (Unimes). “Praticamente acaba-se com o nome histórico. Imagina a questão da correspondência das pessoas. Eu falo: follow the money (siga o dinheiro)”.

Caseiro: “praticamente acaba-se com o nome histórico. Eu falo: follow the money”
Pareceres
A homenagem histórica de Chaguinhas contava com pareceres favoráveis da Procuradoria da Casa, da Comissão de Obras e Serviços Públicos, Comissão de Constituição e Justiça e da Comissão de Finanças e Orçamento. Nada foi levado em conta.
“A Câmara Municipal perdeu uma grande oportunidade de reparar a história de nossa cidade. Chaguinhas foi um defensor dos direitos dos trabalhadores. Após 205 anos do assassinato de Chaguinhas, a cidade de Santos volta a protagonizar mais um capítulo vergonhoso. Infelizmente, o racismo estrutural ainda impede que um homem negro ocupe o lugar de protagonismo que merece”, afirma o auto da proposta, vereador Chico Nogueira.
Conselho
O presidente do Conselho Municipal de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra e de Promoção da Igualdade Racial (CMPDCNPIR) de Santos, Wellington Paulo da Silva Araújo, que segue à frente do órgão até 2027, lamenta o papel prestado por parte do vereadores santistas.
“A não aprovação da mudança da Rua Tiro Onze para Rua Francisco José das Chagas, o Chaguinhas, revela como ainda existe resistência quando o debate envolvendo memória, reparação histórica e reconhecimento da contribuição da população negra para a construção do país”.
Segundo o presidente do Conselho, “dar seu nome a uma rua de Santos não apagaria a história da cidade. Pelo contrário: ampliaria essa história, incluindo personagens que durante muito tempo foram invisibilizados nos espaços públicos. A colocação de nomes de pessoas negras em ruas, praças e equipamentos públicos é também reparação histórica e justiça social”.
Finalizando, Wellinton Araújo que “uma cidade que valoriza sua história deve também reconhecer aqueles que lutaram por igualdade, dignidade e direitos, mesmo quando foram silenciados ao longo do tempo”.

Wellington: “ainda existe resistência quando o debate envolvendo memória, reparação histórica e reconhecimento da contribuição da população negra para a construção do país”
Chegou em SV
“Para colocar o nome do famoso construtor numa "alameda" em frente ao shopping mais chique e luxuoso da família não pensaram em tirar o nome da rua, atualizar centenas de escrituras com o novo endereço, fora a criação de um CEP especial”, dispara o advogado e presidente da Comissão de Igualdade Racial e da Verdade da Escravidão Negra da regional de São Vicente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), advogado Flávio Viana Barbosa.
“Agora, para pôr o nome de um homem negro, herói de uma revolta histórica e, para muitos, um santo, graças ao suplício da forca na Praça da Liberdade, em São Paulo, aí vira uma série de questionamentos sobre a mudança de nome de uma pequena rua, como a Tiro Onze, para homenagear Chaguinhas. Seria uma excelente ação de reparação histórica, racial, cultura, religiosidade e História do Negro e da própria Marinha do Brasil”, completa Viana.
O advogado está solicitando à Câmara de Vereadores de São Vicente a criação do Troféu “Carolina Maria de Jesus” para premiar as pessoas naturais e jurídicas que se destacaram na luta pela igualdade racial, pelo fim do racismo e pela divulgação da cultura e história do negro no município.

A história de Chaguinhas
Francisco José das Chagas (conhecido como Chaguinhas) foi um cabo negro do exército brasileiro que liderou uma revolta em 1821 por salários justos. Condenado à morte por enforcamento, a corda se rompeu três vezes e o povo clamou por sua liberdade, batizando o atual bairro da Liberdade, em São Paulo.
Em 1821, na cidade de Santos, ele liderou um motim de soldados brasileiros que reivindicavam o pagamento de soldos atrasados (que chegavam a cinco anos) e o fim do tratamento desigual entre militares nascidos no Brasil e portugueses.
A sua execução ocorreu no dia 20 de setembro de 1821, no Largo da Forca. Devido a uma falha, a corda do carrasco se rompeu três vezes seguidas. Diante disso, a multidão presente começou a gritar "Liberdade, Liberdade!".
As autoridades ignoraram o clamor popular e o apelo divino associado à quebra da corda, e Chaguinhas acabou sendo morto a pauladas. O clamor da multidão naquele dia deu um novo nome à região: o Largo da Forca passou a ser chamado de Praça da Liberdade, nome que mais tarde batizou todo o bairro.
Por conta da tragédia e de sua morte injusta, ele é cultuado até hoje por muitas pessoas como um "santo negro" ou mártir. Seu corpo foi sepultado no antigo Cemitério dos Aflitos e sua memória é celebrada na tradicional Capela dos Aflitos, localizada na Rua da Glória.
Recentemente, o Projeto de Lei sobre história de Chaguinhas foi aprovado pela mesma na Câmara que negou a dar seu nome à Rua Tiro Onze.

Chico Nogueira (à esquerda) quando da aprovação do projeto de lei. A direita, o escritor santista Bartolomeu Pereira Souza, o Bartô
Até os dias atuais, Chaguinhas é cultuado na Capela dos Aflitos, que fica ao final da Rua dos Aflitos, na Liberdade, capital paulista. Na pequena capela há a cela onde Chaguinhas ficou preso. Ali, devotos costumam escrever seus pedidos, colocar na porta e bater três vezes.
A sua história também serve de inspiração para um novo processo de reconhecimento do bairro da Liberdade como importante território e marco da história dos negros na cidade de São Paulo.


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