Documentos mostram suposto monitoramento político e não turístico em Santos

No meio do mês, Os Inconfidentes publicaram reportagem em que o vereador santista Rui de Rosis Júnior (PL) acusou a Administração Rogério Santos (Republicanos) de monitorar opositores nas redes sociais. E a Administração negou alegando se tratar apenas de análise de dados públicos na Internet com foco no desempenho do turismo de Santos nas redes sociais. No entanto, com exclusividade, nossa equipe teve acesso a três propostas de serviços oferecendo, entre outros, monitoramento de opositores, análise de sentimentos e elevação da figura pública do prefeito Rogério Santos. Geralmente, no serviço público, pede-se três orçamentos para a escolha do que oferece mais vantagens por menos dinheiro. Um que chama a atenção é o intitulado "monitoramento redes sociais – turismo Santos".

Documentos mostram suposto monitoramento político e não turístico em Santos

Carlos Ratton

28.04.2026

Fotos: PMS/CMS/Facebook

No meio do mês, Os Inconfidentes publicaram reportagem em que o vereador santista Rui de Rosis Júnior (PL) acusou a Administração Rogério Santos (Republicanos) de monitorar opositores nas redes sociais. E a Administração negou alegando se tratar apenas de análise de dados públicos na Internet com foco no desempenho do turismo de Santos nas redes sociais.

No entanto, com exclusividade, nossa equipe teve acesso a três propostas de serviços oferecendo, entre outros, monitoramento de opositores, análise de sentimentos e elevação da figura pública do prefeito Rogério Santos (foto). Geralmente, no serviço público, pede-se três orçamentos para a escolha do que oferece mais vantagens por menos dinheiro. Um que chama a atenção é o intitulado "monitoramento redes sociais – turismo Santos".

Com a ajuda de um especialista em serviços digitais, descobriu pontos que legitimamente intrigantes. Entre as páginas 10 e 23, por exemplo, a proposta descreve serviços de natureza política, não turística. Embora a nota fiscal específica seja rotulada como "turismo santos", a proposta da agência anexada ao processo — que é o documento técnico que justifica o contrato — descreve majoritariamente serviços de monitoramento político.

Já na abertura (página 10), afirma que o serviço permite "acompanhar agentes políticos, influenciadores, vereadores e redes de oposição", e lista nominalmente políticos monitorados, entre eles o próprio prefeito Rogério Santos, Rosana Valle, Telma de Souza e Paulo Alexandre.

Há um item inteiro chamado ‘monitoramento da rede digital de oposição na cidade de Santos’, com diagrama rotulado ‘ofensores/ rede de influência negativa’, mapeando. Os serviços incluem identificar influenciadores que estão promovendo conteúdo contra a gestão e detectar possíveis ataques coordenados.

Segundo o analista consultado pela Reportagem, existe análise competitiva, uma comparação das estratégias digitais da oposição com as das campanhas da Secretaria de Comunicação. A palavra ‘campanhas’ e a lógica de comparação competitiva soam como assessoria eleitoral, não comunicação institucional.

Marketing político 

Na seção ‘suporte especializado’ (página 21 do documento analisado), um dos quatro pilares do serviço é literalmente marketing político, detalhado na página 22 como ‘marketing político com insights para ações eficazes, melhorando a imagem e criando experiências positivas entre o público e a gestão da prefeitura de Santos’

“O uso de dinheiro público para marketing político é juridicamente problemático diante do artigo 37, §1º, da Constituição, que veda promoção pessoal de autoridades”, aponta o analista.

O item nove - análise avançada de emoções com IA - descreve análise semanal de até cinco vídeos do prefeito, com 53 tipos de expressões faciais e 40 tipos de tom de voz, para, textualmente, impactar positivamente seu eleitorado (nível emocional). A palavra ‘eleitorado’ é reveladora. É vocabulário de campanha, não de comunicação institucional de turismo”, explica o técnico consultado pelos Inconfidentes.

Monitoramento de tráfego pago

Um gráfico nos documentos acessados mostra os valores gastos em impulsionamento por Paulo Alexandre (R$ 138 mil), Rogério Santos (R$ 45 mil), Rosana Valle (R$ 11 mil) e Telma de Souza (R$ 2,7 mil).

Monitorar quanto adversários políticos investem em mídia paga, com recursos públicos, é incomum num contrato de turismo. Também revela conteúdo nativo em portal nacional. O que na opinião do especialista seria jornalismo pago disfarçado.

Um print de exemplo mostra uma matéria intitulada "nova pesquisa revela vantagem do prefeito Rogério Santos" e outra sobre ele se filiar aos Republicanos.

“Isso é publicidade paga travestida de jornalismo, prática conhecida como publieditorial oculto, sem a identificação de conteúdo patrocinado exigida pelo Código de Ética do jornalismo e por normas do Conselho Nacional de Autorregulamentação (CONAR)”, explica o analista.

Na página 20 do documento conseguido pelos Inconfidentes fica claro que o “serviço oferece informações técnicas para o Departamento Jurídico da Prefeitura, minimizando os impactos e os riscos que possam desabonar a reputação do prefeito e não da instituição (Administração).

‘Desconhecimento’ da Cidade

Na página 22, o documento ainda demonstra um recorte territorial concentrado em bairros nobres de Santos, como se a Zona Noroeste e a área continental não importassem. Um gráfico de "bairros com maior número de citações" lista Gonzaga, José Menino, Boqueirão, Centro, Marapé, Ponta da Praia, Embaré, Encruzilhada, Estuário, Macuco, Concais, Porto de Santos, Avenida da Praia, Novo Quebra Mar.

“Toda a Zona Noroeste de Santos (Areia Branca, Chico de Paula, Jardim Castelo, Rádio Clube, Caneleira, etc.), onde mora a população mais pobre, está ausente. Isso pode refletir apenas o volume orgânico de menções, mas também pode indicar recorte amostral direcionado a eleitorado-alvo”, explica o especialista.

O especialista aponta que o contrato-mãe é de agência de propaganda na área de comunicação social de turismo, economia criativa (página 45, histórico da Nota de Liquidação). Já a proposta anexada é dominantemente político-eleitoral.

“O relatório efetivamente entregue (páginas 26 a 39) é sobre turismo, mas a proposta que fundamenta o contrato descreve outro serviço. Essa divergência é relevante: ou a proposta é genérica, ou foi inserida por engano ou o escopo real do contrato é maior do que a rubrica orçamentária indica”, analisa.  

Outro detalhe: a proposta da empresa é assinada em Recife em 1º de março de 2025, mas tem validade 30 de maio do mesmo ano. Há também duas propostas concorrentes no processo que parecem servir apenas para justificar o preço da empresa escolhida. “Vale verificar se houve efetiva concorrência ou se foram propostas de cobertura”, finaliza.

Rui

Para o vereador denunciante, Rui de Rosis Júnior (foto), a Administração Rogério Santos está em uma “encruzilhada. Ou contrataram o monitoramento caracterizando desvio de finalidade ou estão pagando por um serviço que não foi prestado, o que seria dano ao erário”.

Rui de Rosis Júnior vem se manifestando sobre a questão em inúmeras sessões ordinárias na Câmara de Santos (SP) e deve encaminhar documentos que comprovam a denúncia. Ele disse ontem que já está se dirigindo ao Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP), pois acredita que a iniciativa fere dispositivos constitucionais. 

O parlamentar santista é da opinião que a Administração ou estaria cometendo desvio de finalidade ou está pagando por algo que não foi feito resultando em prejuízo aos cofres públicos. “O dinheiro do santista estaria servindo para monitorar redes de oposição e fazer promoção pessoal do prefeito. Isso não pode acontecer e eu não vou deixar que aconteça”.

Prefeitura

A Secretaria de Comunicação e Economia Criativa (Secom) limitou-se a esclarecer que não procede a informação de que é realizado monitoramento das redes sociais de agentes políticos. O serviço foi oferecido em uma proposta comercial, mas não foi contratado pela Prefeitura nem integra qualquer contrato da Secom.

Garante que o serviço refere-se exclusivamente ao acompanhamento e gestão de canais institucionais da própria Prefeitura, como as redes oficiais de programas e iniciativas públicas — entre elas, o Turismo Santos e o Santos Cidade.

E explica que esse tipo de análise é comum na administração pública e tem como objetivo melhorar a comunicação com a população, ampliar a divulgação de programas e garantir que as informações de interesse público cheguem com mais eficiência às pessoas.

Comentários dos leitores

Carregando comentários…