Entre o "celular do ladrão" e a aliança guardada: ex-secretário nacional de Segurança Pública aponta que o medo da violência nivela o Brasil
Durante a Semana Jurídica 2026 da Unisanta, em Santos, Mário Sarrubbo, que já foi procurador-geral de Justiça de São Paulo, afirmou que sensação de insegurança se tornou “democrática”

Sandro Thadeu
19.08.2026
Imagens: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil e Sandro Thadeu
Em uma noite dedicada à discussão sobre os desafios da Segurança Pública no Brasil, um dos temas que mais preocupam a população atualmente, o advogado, ex-procurador-geral de Justiça de São Paulo e ex-secretário nacional de Segurança Pública, Mário Luiz Sarrubbo, apresentou um diagnóstico sobre a violência urbana e seus efeitos no cotidiano dos cidadãos, durante o segundo dia da Semana Jurídica 2026 da Universidade Santa Cecília (Unisanta), em Santos, na última terça-feira (18).
Para ilustrar a profundidade da crise atual, o palestrante recorreu a uma confissão pessoal: ele próprio mantém um aparelho reserva, o chamado "celular do ladrão", sem aplicativos bancários e pronto para ser entregue em caso de assalto. “Este é o meu celular do ladrão. Não tem nenhum banco aqui, não tem nada. Se roubar, entrego”, admitiu.
A revelação provocou a reação imediata de uma das pessoas que estava na plateia. Ela indagou este jornalista, em tom de indignação e de surpresa: “Você tem o ‘celular do ladrão’? Eu não tenho. Como a gente faz nesses casos?”.
O episódio traduziu, de uma maneira espontânea, o espelho de um país onde até quem desenhou as políticas de segurança pública vive sob a mesma lógica de apreensão do cidadão comum e se viu obrigado a mudar hábitos. "É a realidade com a qual temos que lidar nos dias de hoje", destacou Sarrubbo.
Após três décadas de atuação no Ministério Público de São Paulo (MPSP), com grande parte da carreira dedicada à área criminal, o jurista reforça que a insegurança não é uma percepção abstrata, mas um fenômeno que transpõe barreiras sociais.
Para demonstrar como o medo da violência está presente em situações aparentemente banais, ele contou uma experiência vivida em Brasília. Ao chegar em casa, decidiu caminhar até uma farmácia para comprar um medicamento. A esposa, entretanto, recomendou que ele não saísse usando a aliança, um dos objetivos mais visados pelos criminosos em São Paulo.
Para o ex-secretário nacional de Segurança Pública, a situação mencionada não se trata apenas do risco de perder um objeto de valor, mas da necessidade de avaliar constantemente o que vestir, o que levar consigo e por onde circular. Por essa razão, descreveu que a sensação de vulnerabilidade é, infelizmente, "democrática".
Ao analisar o cenário atual, sintetiza: "Não há pessoa neste país que não tenha hoje sensação de segurança, não há pessoas aqui no estado de São Paulo que não tenham a sensação de segurança, tanto importa a classe social".
Aos 63 anos, Sarrubbo recordou, com nostalgia, a década de 1970, quando frequentava a Praia do Gonzaga, em Santos, pois era possível permanecer na rua até a madrugada sem o mesmo temor de assaltos existente atualmente. Ele também mencionou que era possível deixar pertences pessoais na praia, sobre esteiras, toalhas ou cadeiras, sem a preocupação constante de que fossem roubados.
O custo invisível da insegurança
Além do impacto psicológico e da mudança de hábitos, a insegurança impõe um fardo econômico silencioso à população. Sarrubbo citou dados de uma reportagem publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, em março do ano passado, que demonstram o peso dessa realidade no bolso dos paulistas.
Estima-se que o consumidor pague cerca de R$ 4,5 mil por ano, embutidos nos preços de produtos e serviços, para cobrir os custos crescentes com segurança privada, que vão desde a manutenção de porteiros, profissionais de segurança e catracas em prédios comerciais até a proteção logística de mercadorias.
Portanto, a segurança pública deixa de ser apenas uma questão relacionada ao trabalho das políticas, porque a criminalidade produz impactos econômicos que chegam diretamente aos cidadãos paulistas.

Mário Sarrubbo (à esquerda) e o desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo Fernando Akauoi
Ciência contra o populismo
Defensor da segurança pública como uma área técnica e científica, o palestrante criticou as respostas baseadas em discursos ideológicos — tanto os que focam exclusivamente no aumento severo de penas e na redução da maioridade penal, quanto os que atribuem a criminalidade apenas à desigualdade social, ignorando a necessidade de respostas imediatas. “Segurança pública não tem camisa, não tem partido, não tem ideologia: tem ciência”, frisou.
Na avaliação de Sarrubbo, o caminho passa principalmente pelo aumento da capacidade do Estado de esclarecer crimes, identificar criminosos e elevar o risco de punição.
Ele citou experiências da Polícia Civil de São Paulo no combate a sequestros e roubos a bancos, nos anos 1990 e 2000, como exemplos de situações em que o aumento da capacidade investigativa produziu resultados concretos. Por isso, defendeu investimentos em inteligência policial, perícia, tecnologia, investigação e formação dos agentes de segurança.
O ex-secretário nacional de Segurança Pública defendeu, ainda, que o combate à criminalidade não deve depender apenas de operações ostensivas que, segundo ele, muitas vezes falham em transformar a realidade dos territórios. “Menos tiro e mais inteligência, menos tiro e mais tecnologia”, frisou.
Ao encerrar, Sarrubbo deixou claro que a insegurança que obriga o uso do "celular do ladrão" e o medo da aliança perdida são sintomas de um sistema que precisa ser repensado por inteiro, exigindo uma solução que vá além das promessas eleitorais e se baseie, enfim, em evidências.
Confira amanhã a segunda parte desta reportagem dos Inconfidentes, com os detalhes da análise técnica apresentada pelo ex-secretário nacional de Segurança Pública sobre por que as políticas tradicionais de segurança pública falharam, incluindo o diagnóstico histórico, os dados do sistema e as propostas concretas para o futuro.

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