Falta de água: população vai cobrar Prefeitura de Guarujá e mover ação contra Sabesp
Comitê criado pela Administração ainda não apresentou resultados

Carlos Ratton
25.08.2026
Foto: Divulgação
Moradores e lideranças comunitárias de Guarujá reuniram-se no último dia 20, na sede da Sociedade Amigos do Paecará (SAP), para oficializar a criação do Comitê Especial de Moradores Impactados pela Falta d'Água (CEMIFA). A iniciativa foi articulada pela Confederação Municipal das Associações de Moradores de Guarujá (CMAG) em resposta ao desabastecimento recorrente que afeta a população do município.
Diante do cenário crítico enfrentado nos bairros, a diretoria da CMAG e as lideranças presentes definiram um plano de ação para combater o problema e exigir soluções imediatas da Prefeitura de Guarujá (SP) e da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) responsável.
A primeira delas é cobrar da Administração Farid Madi (Podemos) – apoiador do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) - os primeiros resultados dos anunciados comitê de crise (Prefeitura) e o um plano de ação (Sabesp) com medidas para mitigar o problema do desabastecimento que se intensificou pós privatização.
A segunda é a solicitação à Sabesp para o fornecimento de caixas d'água e bombas para famílias de baixa renda, além do envio prioritário de caminhões-pipa aos bairros mais afetados e, a terceira, exigir assento para a sociedade civil no Gabinete de Crise da Prefeitura.
Por fim, organização de passeatas, encontros, reuniões e abaixo-assinados encaminhados pelo comitê para aumentar a pressão popular sobre as autoridades.
A coordenação geral do CEMIFA será exercida pela munícipe Cláudia França. A equipe de liderança do comitê conta ainda com André Luiz França (Movimento "Cadê a Água Sabesp?"), Marquinhos da Prainha (Presidente da Associação de Moradores da Prainha), Jucilene Alves (SAP), Dona Selma Maria dos Santos (Jardim Boa Esperança) e D. Ana (moradora da Vila Áurea).
Durante a reunião de fundação, a moradora Dona Ana expressou o sentimento de indignação que motivou a criação do grupo: "como as autoridades podem permitir que as pessoas sofram tanto sem água para fazer comida, tomar banho e matar a sede?", questionou. O comitê passa a centralizar as reivindicações da comunidade e a coordenar as próximas manifestações e tratativas oficiais na cidade.
Tudo festa
No início tudo era festa, com direito a boas marteladas e muito marketing pelo governador de São Paulo Tarcísio de Freitas. Os também não deputados estaduais e prefeitos da Baixada Santista também apoiaram, sem pestanejar, a privatização da Sabesp, apesar de especialistas e sindicalistas terem alertado que a ‘conta’, mais cedo ou mais tarde, chegaria.
A história recente não mente. Em junho último, a própria CMAG emitiu nota de repúdio a seis seguranças do governador, recebido com festa pela Prefeitura de Guarujá e dezenas de correligionários no Ginásio Guaibê.
Segundo relatado, os seguranças retiraram a força do evento o presidente da Associação de Bairro Jardim Santense, André Mariny, também diretor da CMAG, para que a Polícia Militar do Estado de São Paulo o conduzisse até a Delegacia de Vicente de Carvalho – distrito do Município. Seu ‘crime’: cobrar a falta de água - questão já amplamente abordada pela Imprensa em geral, em especial, pelos Inconfidentes desde o ano passado.
A falta de água em Guarujá dificultou até o combate a incêndio que matou uma menina de três anos. Vizinhos tiveram que usaram baldes para tentar apagar o fogo, mas o atraso no combate dificultou o resgate. Sabesp negou desabastecimento na região do bairro Paecará. Moradores revelaram que o problema persistia há dias.
Outros detalhes
Em fevereiro último, a Agência Pública publicou uma importante reportagem (reproduzida pelos Inconfidentes) dando conta de que um mês após a conclusão da venda da Sabesp, o governo Tarcísio de Freitas injetou quase R$ 3 bilhões em Fundos Municipais de Saneamento Básico (FMSB) de prefeituras.
A cidade de Santos, de Rogério Santos (Republicanos), e Praia Grande, de Alberto Mourão (PMDB), foram as que receberam na Baixada Santista, segundo apurado. O valor corresponde a cinco anos de arrecadação. Especialistas ouvidos pela Agência Pública disseram que os adiantamentos indicam uso político dos fundos municipais e que os repasses foram feitos sem transparência.
“Fica claro que os fundos foram usados como incentivo financeiro para garantir a adesão dos municípios ao modelo estadual de desestatização”, avaliou o economista Hugo de Oliveira, ex-presidente da Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp), que fiscaliza a Sabesp.
A maioria do dinheiro foi para as cidades em que houve maior resistência à privatização: Barueri, Botucatu, Diadema, Franca, Guarulhos, Osasco, Praia Grande, Santo André, Santos, São Bernardo do Campo, São José dos Campos e São Paulo, como atestam os contratos aos quais a Pública teve acesso.
Oliveira diz que a moeda de troca empenhada pela gestão Tarcísio para convencer os municípios indecisos foram, e serão, pagas pelos consumidores paulistas. Ou seja, a tarifa básica de energia, que já aumentou 6,11% este ano, deve sofrer um aumento ainda mais expressivo no próximo reajuste, contrariando a promessa do governador de que a privatização da Sabesp não redundaria em aumentos nas contas de água.
Ano passado
No final do ano passado, a falta de água em bairros periféricos de muitas cidades da Baixada Santista só tirou o sono de quem estava no ‘lado mais fraco ponta da corda’: os moradores das periferias. E os deputados estaduais e federais da região, favoráveis à privatização por apoiar Tarcísio de Freitas, pouco fizeram a não ser usar as redes sociais. Agora, voltam a pedir voto.

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